16 janeiro 2008

A montanha e o rato

A primeira incursão na Byblos foi ainda em Dezembro, um pouco depois da confusão natalícia. O calor abrasador a contrastar com a atmosfera exterior não facilitou o contacto inaugural, mas isso nem sequer é exclusivo da loja. Verdadeiramente desconcertante foi o que se conseguiu ver em poucos minutos: a luz branca, tipo cozinha, a alcatifa indescritível e os sofás à la Startrek. O espaço pode parecer tudo, mas está muito longe do meu conceito de livraria. Sim, há estantes com livros, e há sobretudo empregados atenciosos, mas o ambiente é demasiado próximo do de um centro comercial para parecer uma livraria confortável, onde apetece ficar a ler, vaguear pelas estantes ou trocar dois dedos de conversa com um livreiro. Dessa primeira incursão, que se pretendia meticulosa na busca pelas estantes das secções mais familiares, acabou por resultar pouco: uma chamada telefónica interrompeu o devaneio e foi preciso ir resgatar um sobrinho da hora do fecho da creche. Da passagem rápida pelas estantes de poesia, descobriu-se a ausência de qualquer livro de Eugénio de Andrade... e ficámo-nos pela letra A. Agendada nova incursão, a coisa foi sendo adiada... A vontade de ver o que faltava foi suplantada pela pouca vontade de regressar, o que já me aponta como cliente nada habitual, apesar da proximidade geográfica.

Regressei há dois dias. A reacção à chegada não mudou. Uma hora depois, confirmou-se a desilusão: o elemento que iria distinguir a Byblos das outras livrarias, e que foi anunciado inúmeras vezes antes da abertura oficial, não existe. É certo que se encontram muitos fundos editoriais nas estantes, e que se encontram livros e autores que há muito não se viam nas livrarias (Aquilino Ribeiro, José Rodrigues Miguéis ou Fernanda Botelho, para ficarmos pela literatura portuguesa), mas o paraíso dos fundos editoriais tal como foi anunciado não mora certamente na Byblos. E na estante de poesia (reduzida a dois corpos) havia dois exemplares de um único livro de Eugénio de Andrade. Manuel de Freitas e Rui Pires Cabral, que procurava especificamente, nem vê-los.
Quanto à tecnologia self-service, a estante mecânica não está acessível aos clientes e os ecrãs que funcionam não fornecem a informação que deveriam. Claro, uma livraria não vive de estantes mecânicas ou ecrãs, mas como ambos foram tão apregoados como os fundos editoriais a perder de vista, há quem se sinta defraudado.
Contas feitas, a Byblos é apenas mais uma livraria. Grande, com pretensões de modernidade e com muitos livros. Não tivesse tido uma campanha de marketing a prometer, literalmente, mundos e fundos e a desilusão não seria tão grande. Assim, lembra a história da montanha e do rato.

1 comentário:

Rui Pedro Lérias disse...

A minha experiência foi semelhante, mas penso que abriram antes de estarem prontos, devido à pressão de vender no período natalício.

Talvez a coisa melhore?

Foi uma desilusão, sem dúvida. Votos que saiba dar a volta senão daqui a 1 ano já lá não estão.