28 março 2008

Um desassossego muito consensual

Não houve grandes revelações acerca dos limites e das obrigações da crítica literária na imprensa portuguesa, ontem, no debate mensal Livros em Desassossego, na Casa Fernando Pessoa. Os três convidados para o debate estiveram genericamente de acordo quanto ao diagnóstico, e pouco se falou das consequências.
O estado da crítica é moribundo, o espaço físico nos jornais e revistas é praticamente nulo e a própria designação de crítica para as exíguas resenhas é eufemística. As razões são conhecidas, mesmo que discordemos delas: os directores de jornais deixaram de considerar útil a crítica longa e fundamentada na perspectiva da recepção do leitor, que na sua óptica, mais facilmente se deleita com pequenos apontamentos e avaliações segundo estrelas ou números.
Clara Ferreira Alves partilhou a sua experiência de crítica e editora literária no semanário Expresso, nos tempos em que se faziam críticas de duas páginas, com 25000 caracteres.
O que falta então à crítica:
Em primeiro lugar críticos. São poucos os resistentes. E quem são os críticos? Leitores vorazes, conhecedores e amantes de literatura, conhecedores de teoria da crítica e bons escritores. Uma das afirmações mais importantes da noite foi a de que o crítico tem de estar ao nível do autor/ obra que critica, tem de sentir e assumir essa responsabilidade.
Em segundo lugar, falta o contributo do escritor. Na tradição anglo-saxónica, os escritores escrevem críticas acerca de livros de outros escritores, o que em muito enriquece o discurso e o estilo da crítica, para não falar da tal responsabilização do acto de criticar. A principal razão apontada para a sua inexistência em Portugal é a dimensão do país, onde todos se conhecem e todos se levam demasiado a sério.
Por fim, um contributo para a elevação do pensamento: o debate. A possibilidade de dois críticos estarem, lado a lado, a esgrimirem argumentos literários que fundamentem o seu juízo, permitiria ao leitor interessado (e só esses lêem as críticas) observar processos de construção das obras, reparar em detalhes que o seu olhar não tinha apreendido, e até reorganizar as suas impressões.
Não se chegou a falar do público, sobre quem lê e quem não lê, sobre a democratização da leitura, sobre os hábitos e a autonomia da crítica. Falou-se do seu poder, o do passado e o do presente, cada vez menor.
A crítica aparenta ser o apêndice da literatura, porque dela precisa, e o inverso em princípio não se verifica. Mas o grande desafio da crítica é o da sua autonomia: o bom crítico é aquele cujo texto leva o leitor a lê-lo, independentemente da matéria sobre que escreve. A arte de bem escrever e bem pensar subjaz à forma do texto e por isso a crítica está moribunda. Porque se perderam os grandes fazedores de crítica, e os que existem, hoje, são obrigados a treinar e resistir noutros espaços, porque a imprensa não mais oferece aos seus leitores a boa literatura, nem no que às obras diz respeito, muito menos no que concerne a boa crítica.