28 fevereiro 2008

Pré-Publicação: O Hipnotizador, Paulinho Assunção (Campo das Letras)

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Em Ouro Preto, numa noite fria

Centenas de nomes eu tive pela vida afora.
Foram tantos nomes que não posso nem sou capaz de enumerar
todos eles. Os nomes vinham, apareciam, eu os aceitava.
Alguns duravam em mim o tempo de uma viagem, outros duravam
apenas um dia ou dois, uma noite ou duas, e logo alguém
decidia por novo chamamento. Isto até que outros nomes fossem
em mim aplicados, uns sobre os outros, tal como a folha
rasurada de um palimpsesto.
Tive nomes de guerra, como Cedric, e de paz, como Francisco.
Em certa época, fui chamado por nomes claros, como
Lambert, ou escuros, como o esquisito nome Nigelo. Mas puseram-
me também nomes oceânicos, como Marmaduke, o líder
do mar, e nomes para serem falados em voz baixa, em murmúrio,
em rumor, do modo como são falados os segredos. E este
nome era Esaú.
Hoje me chamam de Ferdinando Flauta Mágica.
Se agora, aqui onde estou, eu viajo pelas recordações, se agora
sou residente das lembranças, se agora me dedico ao único
e insubstituível prazer de relembrar peripécias e aventuras, devo
também dizer que andei por mundos e caminhos em busca das
chamadas coisas inacreditáveis. Ou improváveis. Ou duvidáveis.
Certo é que muitas coisas, das quais me lembro, eu não pude
ver. Não vi Paris em chamas, não vi Londres bombardeada pelos
aviões da Alemanha, não vi a queda de Berlim.
Mas afundei os pés na neve das estepes russas e observei,
como se fossem delicados desenhos e delicadas aquarelas, o voo
do condor sobre a Cordilheira dos Andes.
Mais eu fiz, sim, fiz muito mais do que o novelo dos meus
lembrares pode hoje alcançar. E vi mais, vi muito mais do que
os olhos de um homem sonham um dia ver em nossas sempre
curtas existências. Sim, pois o que vi transborda de uma vida
e vai preencher outras vidas mais, tantas vidas, as inumeráveis
vidas que vazam de uma para outra vida, todas transbordantes.
E viver, talvez, seja água demais para pouca vasilha.
Do que fiz e do que vi, eu digo um pouco.
Provei tâmaras no deserto em dias de solidão e silêncio. Bebi
vinho da adega de uns frades mexicanos, uns frades com enormes
e lustrosos narizes. E viajei, empreendi a perigosa viagem
entre Zedrev e Lumes, duas cidades fantasmas nos desfiladeiros
do rio Got, só para seguir as trilhas de uns anões peregrinos.
Conheci condes e condessas, príncipes e princesas, reis e rainhas,
ladrões, sacripantas, rufiões, putas, bucaneiros, bêbados e
engolidores de facas.
E assisti à floração de cerejeiras em quintais japoneses.
Até que, já em uma curva próxima da minha aposentadoria,
já na ponta das minhas derradeiras, eu recebi a dádiva de um
chamado.
Acabo de dizer que recebi um chamado, mas poderia ter dito
de outro modo. Dizer, por exemplo, que recebi o convite para
um encontro com o mistério do meu nome.
Sim, o meu nome — eis o tema desta história que, toscamente,
e com a respiração desgovernada, eu conto a você, leitor, e
a você, leitora.
A história tem o seu começo numa certa noite de Inverno,
quando me vi na cidade de Ouro Preto, diante de um homem,
diante de inúmeros e terríveis acontecimentos.
Esse homem de quem falo atendia pelo apelido de Língua-
-Solta e possuía uma cicatriz em forma de lua minguante na face
esquerda.
Refiro-me a essa cicatriz, mas só pude enxergar verdadeiramente
a cicatriz quando esse homem de quem falo acendeu um
fósforo na escuridão e segurou o palito aceso perto do rosto.
A cicatriz parecia o resultado de um corte, um corte feito com
certos punhais que, só de imaginá-los, deduzo que eram uns
punhais demoníacos.
Mas enquanto eu via aquela marca em seu rosto sob a luz
ténue e trémula do palito de fósforo, eu nada disse. Nada comentei
com ele sobre aquela cicatriz. Só olhei, calado, o corte,
aquele corte que lhe descia em curva desde perto da costeleta
até o canto da boca. Só olhei para a cicatriz e nada falei.
Ouro Preto dormia encoberta por uma neblina espessa e estávamos
nas proximidades da Casa dos Inconfidentes, bem de
acordo com o que, semanas antes, fora combinado por intermédio
de uma carta.
Essa carta. Sempre há uma carta no dia-após-dia da minha
existência.
Devo dizer que a carta me chegou em hora apropriada, em
dia apropriado, no momento mais apropriado da minha vida
de viajante, justo quando me preparava para o meu refúgio de
leituras e pensares, de silêncios e filosofias, de vigílias e murmúrios.
Refúgio de um viajante que percorreu mundos e caminhos,
e, agora, quieto, em quietude, vê com serenidade os poentes e as
auroras, os crepúsculos e as manhãs, os começos e os fins.
Mas eu mencionei uma carta. Sim, eu disse algo sobre uma
carta.
De todos os modos, peço a benevolência do leitor para falar
disto mais adiante, ao longo da história que contarei. Uma
história que começava ali, ao lado daquele homem, num dos
lugares mais misteriosos da cidade de Ouro Preto.


Paulinho Assunção
O Hipnotizador
Campo das Letras (disponível a partir do próximo dia 5 de Março)
ISBN: 978-989-625-217-5
Colecção: Campo da literatura - 158

2 comentários:

Miguel Drummond de Castro disse...

É sempre um prazer descobrir alguém que se vê logo desde a primeira linha que lhe corre sangue de escritor nas veias. Fiquei curioso, hungry for more.

Obrigado


Miguel Drummond

Aide Hernández disse...

Agora eu quero ve-lo, eu acho O Hipnotizador tem uma das melhores Sido DA Series HBO Latino, eu estou contente de Ser incentivado, habemos párr como pessoas Que querem ver Diferentes Cenários, mais Realistas e ligados un Nossas coisas da vida diária.