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24 setembro 2008

Notas de Praga (Agosto 08) IV

Um eléctrico fotogénico deixa-me a poucos metros do Mosteiro de Strahov, um pouco acima do plano médio da cidade, de um lado casas, do outro bosque. Fundado no século XII e várias vezes reconstruído e acrescentado, o principal interesse de Strahov não está tanto na arquitectura, ou nos monges que ainda habitam o mosteiro (e que passaram ao longe, quando o sino tocou, numa revoada apressada de hábitos brancos), mas na sua biblioteca, dividida pelas Salas Filosófica e Teológica. São mais de oito séculos de livros, com predominância de textos religiosos e teológicos, estudos de biologia, astronomia e física, as obras dos grandes filósofos e alguns antifonários para o acompanhamento das diferentes horas monásticas. Em qualquer das salas, a visão é impressionante, de um modo que as imagens nunca poderão explicar. O silêncio e o facto de as salas estarem vazias de qualquer presença humana, contrastando com a riqueza que se adivinha por detrás das lombadas, criam uma solenidade difícil de descrever. Para além da beleza das estantes, dos tectos, dos objectos e do mobiliário, creio que a solenidade advém tanto da presença dos milhares de livros como da impossibilidade de nos aproximarmos deles. Por razões de preservação patrimonial, os visitantes têm o acesso restrito à porta de ambas as salas, de onde podem contemplar a imensidão bibliográfica. E isso, apesar de compreensível, cria uma angústia que só a visão da beleza de ambos os espaços serena um pouco. A vontade de entrar, folhear os livros, passar algum tempo a elaborar um plano meticuloso de leitura e estudo, mesmo sabendo que o tempo de vida útil não chegaria para todas as espécies presentes, persiste. E persiste do modo mais egoísta, porque o que se deseja é fazer tudo isso sem os grupos que constantemente se aproximam das portas, apontando para os globos e as estantes e falando alto. O que se deseja, ao fim de alguns minutos de contemplação, é deixar as pessoas saírem e ficarmos nós ali, no silêncio do mosteiro vazio, com a luz que se quebra nas janelas, percorrendo prateleiras e escolhendo leituras.


Sala Filosófica


Sala Teológica

(As imagens são retiradas de postais)

11 setembro 2008

Notas de Praga (Agosto 08) III

Em frente ao hotel, a montra com livros velhos e ex-libris que parecia pertencer a uma tipografia revela-se, afinal, um alfarrabista. E onde eu esperava encontrar o chumbo dos tipos, as velhas máquinas e, sem pedir muito, um tipógrafo checo fluente em inglês ou francês para me contar algumas histórias do ofício (aqui já se desenhavam na minha mente histórias possíveis de clandestinidade, folhetos de resistência ao velho regime impressos no escuro da tipografia e outras imagens românticas do mesmo calibre), encontro o corredor de um pátio cheio de caixotes de bananas Chiquita (juro) oferecendo livros a 5 coroas.



Mesmo sem saber nada de checo, a imagem redime o apagamento do alfarrabista da Karlova e não é difícil reunir alguns álbuns ilustrados, um livro de culinária com ilustrações da velha escola e um volume dos anos 40 que será, pelas partículas morfológicas que consigo identificar no título, uma história da literatura checa. Nunca se sabe se um dia vou saber lê-lo e, além disso, o livro é muito bonito. Sem saber muito bem onde pagar os livros escolhidos, desço as escadas que se seguem à única porta aberta no pátio e deparo-me com uma cave de chão de pedra e estantes até ao tecto. O cheiro a pó não engana e a minha pulsação também não: um relance sobre aquela versão organizada do caos confirma que ali há livros sobre muitos temas, mesmo que eu não consiga ler a maior parte deles. Cumprimentando o alfarrabista, pergunto-lhe pela ilustração checa, em particular a infantil, um dos motivos da minha demanda bibliográfica em terras de Praga, e logo três estantes indicadas com simpatia se oferecem à minha cobiça. Josef Lada, Josef Capek e um álbum dos anos 40 ilustrado por Jaroslav Vodrazka, que não conhecia, juntaram-se aos livros dos caixotes. Agora faltava apenas descobrir como encaixar tantos volumes na mala de viagem, e lutar contra a angústia de alguém a perder entre porões e carrinhos de carga.

08 setembro 2008

Notas de Praga (Agosto 08) II

Na Rua Karlova, o alfarrabista que merecera tantos elogios do autor do guia American Express já não existe. No seu lugar encontra-se agora uma ourivesaria ampla e luxuosa, mas o brilho dos ouros não me causa qualquer faísca no olhar e acabo por deixar a rua com o pensamento ancorado nas longas filas de livros que ali moraram um dia.
Noutros pontos da cidade, como a Nerudova ou a zona de Kampa, encontro alguns alfarrabistas, mas a promessa agora impossível de cumprir do paraíso anunciado da Karlova ficou definitivamente fora do meu alcance e é como se a cidade que visito tivesse perdido para sempre uma parte vital da sua essência.

03 setembro 2008

Notas de Praga (Agosto 08) I

Depois do aeroporto, do autocarro e do metro, o primeiro contacto mais descontraído com a cidade dá-se na Praça Velha. E não há melhor forma de nos sentirmos em casa numa cidade do que a descoberta de uma livraria acolhedora que, neste caso funciona como uma espécie de refúgio para escapar à multidão de turistas que se aglomera na praça, esperando pela hora certa e pelo desfilar das figuras do famoso relógio astronómico. A Kafkovo Knihkupectvi, ou Kafka Bookshop, é uma livraria com pé direito baixo, largamente compensado pelo aproveitamento do espaço em comprimento, com longas bancadas cheias de livros e uma secção de arte de fazer inveja. Depois da primeira visita e de um olhar atento à montra e aos livros em destaque, confirmam-se todas as opiniões favoráveis sobre o design checo e o cuidado na elaboração dos livros. Mesmo que não se perceba uma palavra, dá vontade de ficar ali a folhear um livro após o outro, na esperança de que o contacto visual com as letras permita uma súbita compreensão do texto. Tal nunca acontece, claro, mas a experiência não deixa de ser muito boa.