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02 outubro 2008

Sublinhados XX

"Ficámos frente a frente, à luz do meio dia. Eu, senhor escritor da comarca de Portugal, e portanto animal tolerado, à margem, e ela, ser humilde, português, que habita ruínas da História; que cumpre uma existência entre pedras e sol, e se resigna (é espantoso); que é, ela própria, um fragmento de pedra gerado na pedra - um resto afinal, uma sobra; que se alimenta de nada (de quê?) e é rápida no despertar, e sagaz, e ladina, embora votada ao isolamento de uma memória do Império; que não tm voz, ou a perdeu, ou não se ouve..."

José Cardoso Pires, O Delfim (Dom Quixote, 18ªedição, p.81)

04 setembro 2008

Sublinhados XIX

"Foi inútil porque todos sabemos
Foi o teu orgulho
o teu desprezo
que desesperou os esguios e os obesos
Sentiram-se meros instrumentos condenados
à Insignificância do seu tempo Mental
e às suas cruzes e caveiras vivas
isto é ao seu ambiente
que lhes prometia quem sabe a indulgência plenária
por estipêndio do pecado

E tu continuavas a iluminar
a fenda da noite
com o brando fogo das tuas pétalas
talvez já
a começar a fechar-se
e só depois te juntavas
com o áspero sono
debaixo da ponte
ou junto duma fonte
Para lhe ouvir o fio de água
e acordar com ele
a luzir
quase como um haiku"

Alberto Pimenta, Indulgência Plenária (& etc, p.38)

31 julho 2008

Sublinhados XVIII

"     LITERATURA

     Nunca faltarão sucedâneos que façam funcionar a indústria da edição e mantenham o consumo. Mas, quanto mais longe se for, mais evidente se tornará que os problemas e os divertimentos da época se situam noutros planos.
     É preciso assinalar desde já os falsificadores que hão-de tentar conquistar a celebridade voltando a servir, num quadro puramente literário, as emoções novas que certas associações de acontecimentos podem criar. É o caso do Sr. Julien Gracq ao redigir bonitas narrativas que têm por tema uma atmosfera e as suas diversas componentes: recusar o Prémio Goncourt não quer dizer nada, o que é preciso é não o merecer."

Potlach 1954-1957: O Boletim da Internacional Letrista (Fenda, selecção e prefácio de Leonel Moura, tradução de Miguel Serras Pereira, p.144)

17 julho 2008

Sublinhados XVII

     "O anjo estava calado. O silêncio estendeu-se por tanto tempo que eu me esqueci da sua presença.
     Quando voltou a falar, assustei-me.
     - O que estás a pensar é sacrilégio - disse ele.
- Sabes bem que não servirá de nada e que não voltarás a ver essa rapariga. Sabes bem que ninguém pode entrar no coração de outra pessoa e unir-se a ela, nem sequer por um breve momento. Mesmo a tua mãe deu-te apenas um corpo. e quando começaste a respirar, não foi ar que inspiraste, mas solidão."

Annemarie Schwarzenbach, Morte na Pérsia (Tinta da China, trad. de Isabel Castro Silva, p.128)

24 junho 2008

Leituras de férias

«Era, aliás, um caso singular no que às leituras se refere. Era oficial de cavalaria e não apreciava livros. Desprezava igualmente romances e filosofia. Quando lia, não queria ser obrigado a reflectir sobre opiniões e polémicas, mas sim, logo ao abrir do livro, entrar, como por uma porta secreta, no âmago de conhecimentos específicos. Tinham de ser livros cuja simples posse fosse já uma espécie de sinal iniciático de uma ordem e garantia de revelações sobrenaturais. E só encontrava isso nos livros da filosofia indiana, que para ele não pareciam ser apenas livros, mas revelações, coisas reais - chaves de mistérios, como os livros de alquimia e magia da Idade Média.»
(pp. 55,56)

Robert Musil, As perturbações do pupilo Törless, D. Quixote, 2005

09 junho 2008

Sublinhados XVI

"Este é um problema dos tempos que correm. O grande ódio contra os alemães, que me envenena a alma. 'Eles que se afoguem, essa ralé, deveriam ser todos fumigados.' Estas observações fazem parte da conversa do dia-a-dia e às vezes provocam-nos a sensação de que é impossível viver nesta época. Até que de repente, há umas semanas, me surgiu a ideia libertadora, hesitante e frágil como um rebento de relva que começa a nascer num terreno bravio rodeado de ervas daninhas: mesmo que só houvesse um alemão digno de ser protegido contra essa chusma bárbara, por causa desse alemão decente não se devia derramar o ódio sobre um povo inteiro.

Isso não significa que uma pessoa deva ter uma atitude indecisa em relação a determinadas correntes, uma pessoa toma posição, indigna-se regularmente com determinadas coisas, tenta informar-se, mas o ódio indiferenciado é a pior coisa que existe."

Etty Hillesum, Diário 1941-1943 (Assírio & Alvim, trad. de Maria LEonor Raven-Gomes, p.69)

10 abril 2008

Sublinhados XIV

"E é aqui que apetece fazer outra pergunta: Podemos mudar as coisas, combater a pobreza, as injustiças, a discriminação - de que não gostamos -, sem que mudem os objectos com que convivemos, que usamos, que consumimos, que temos, sem que esses objectos se tornem ARTE, sem que a ARTE mude de terreno e mude de formas? Podemos contentar-nos com a NÃO-ARTE dominante de todos os dias, olhando para ela sem a ver, como coisa que não é importante, que não faz bem parte do mundo e, portanto, que não faz mal ao mundo?"

Eduarda Dionísio. Artes Públicas e Privadas: Modos de Aprender e Usar (Abril em Maio, 1997, p.11)

03 abril 2008

Sublinhados XIII

"A Lulu tinha um costume tão desagradável como uma impigem e muito mais extraordinário. Quando saía à rua havia pessoas que lhe diziam que ela era muito fresca e de tal maneira se convenceu disso e cultivou a sua frescura que as pessoas, quando passava, não tinham outro remédio senão dizer-lhe que a achavam muito fresquíssima, de modo a fazê-la ficar absolutamente satisfeita."

António Pedro, Apenas Uma Narrativa (Quasi Edições, p.29)

31 março 2008

Sublinhados XII

"Não se trata apenas de uma boa 'história do homem do saco', como exclamou Stevenson ao acordar de um sonho em que a visualizou, suponho que pelo mesmo misterioso processo mental que já revelara a Coleridge a visão do mais famoso dos poemas inacabados. É também - facto bastante mais importante - uma 'fábula mais próxima da poesia que da habitual ficção em prosa', e por isso pertence à mesma ordem artística que, por exemplo, Madame Bovary ou Almas Mortas."

Vladimir Nabokov sobre Dr. Jekyll and Mr. Hyde, de Robert Louis Stevenson, in Aulas de Literatura (Relógio d'Água, tradução de Salvato Telles de Menezes, p. 217)

13 março 2008

Sublinhados XI

PARDO É O DESERTO NA CIDADE

Apenas se adivinham os oásis
quando a sede envolve os corpos
e o fumo cerca a guerra científica
de estilhaços de ferro pardo
como pardo é o deserto na cidade
um milímetro ao lado das bombas imperfeitas

na incerteza das armas desenhadas,
no rumor de certo Mississipi
para que o jogo se faça a conta-fios
para que não penetre a loja de postais
ainda entreaberta em Bagdade.

António Ferra, in A Palavra Passe (Campo das Letras, 2006. Pg.39)

06 março 2008

Sublinhados X

CAPITAIS DA SOLIDÃO

A cada país do mapa
uma mancha de cores macias
e a negra capital
com a sua teia de estradas
e o seu enxame de nomes
e pontos mais finos.

Capitais da solidão -
recordam-nos o quanto
as quisemos,
esperando talvez
que o amor fosse justo
e a vida mais pródiga
em Roma, Budapeste
ou Paris entre Abril
e Junho.

Podemos agora
percorrê-las a eito
no papel, onde estão
imóveis e nunca anoitecem,
emblemas duradouros
de uma esperança
que não foi, neste caso,
a última a morrer.

Rui Pires Cabral, Capitais da Solidão (Teatro de Vila Real, 2006, p.9)

24 fevereiro 2008

Sublinhados IX

"En la ciudad, los tanques habían sido substituidos por la soledad, con efectos similares. Las heridas parecían no cerrar. Todos nosotros pertenecíamos a una generación de príncipes idiotas, hemofílicos, por cuya piel la sangre corría a la menor cortada.
Eras tú, o el país entero quien había quedado abierto en el canal?
Secando al sol."

Héroes Convocados, Paco Ignacio Taibo II. Ediciones B, p.24.

07 fevereiro 2008

Sublinhados VII

"Aquele traço do seu lápis ou da sua esferográfica na margem do ângulo inferior direito da página que significava nihil obstat, texto revisto, sem erros, santificado pelo rigor. Imprima-se, publique-se, envie-se, despache-se pelo correio para o leitor, o contribuinte, o cliente ou o comerciante, a parte em litígio ou o advogado. Para ordenar o mundo como só a letra impressa pode fazê-lo."

George Steiner, "Provas", in Provas e Três Parábolas, Gradiva, 2008 (tradução de MIguel Serras Pereira; p.15)

23 janeiro 2008

Sublinhados VI

“Só no subsolo há segurança, paz e tranquilidade. E se as nossas ideias se ampliarem e aspirarmos à expansão, basta pormo-nos a escavar, e pronto! Se nos parecer que a nossa casa é um bocado grande, tapamos um buraco ou dois, e pronto! Nada de empreiteiros, pedreiros, comentários dos vizinhos a olhar por cima do muro e, acima de tudo, nenhuma dependência do estado do tempo.”

Kenneth Grahame, O Vento nos Salgueiros, Tinta da China (tradução de Júlio Henriques, p.83)

14 janeiro 2008

Sublinhados V

“Passamos três dias sem jornal, no Estado de Guanabara. As bancas só expunham revistas. E então verificamos esta coisa estranha: deixaram de acontecer coisas no mundo. Os acontecimentos existem a partir do momento em que são transformados em notícia. E as notícias desapareceram. Sentimo-nos ocos. Alguns foram procurá-las no rádio e na televisão. Esses são os que amam o trágico, pois a notícia trabalhada pelo locutor – até mesmo a previsão de tempo para amanhã – assume ar e som de catástrofe. Que estilo operístico, Santo Deus! As pessoas tranquilas preferem a notícia impressa, de preferência em jornal da manhã, em que ela aparece lavada, fresca, pacificada por uma noite de sono.”

Carlos Drummond de Andrade, “Rosas de Itapevi”, in Auto-retrato e Outras Crónicas, Editora Record, 1998 (p. 63)

07 janeiro 2008

Sublinhados IV

"Muitos shandys, no Sanatório Internacional, já se tinham dado conta de que, mais tarde ou mais cedo, a conjura portátil teria de desaparecer e que isso era a lei da vida e, na realidade, uma coisa muito desejável pois assim a conspiração transformar-se-ia na espectacular exaltação do que surge e desaparece com a arrogante velocidade do relâmpago da insolência:"

Enrique Vila-Matas, História Abreviada da Literatura Portátil (Assírio e Alvim, 1997, tradução de José Agostinho Baptista, p.85)

15 dezembro 2007

Sublinhados III

“GRITAR

O panarício é um sofrimento atroz. Mas o que mais me fazia sofrer era não poder gritar. Porque estava num hotel. Fizera-se noite e o meu quarto estava metido entre dois outros quartos onde alguém dormia.
Pus-me então a atirar para fora do meu crânio tambores, instrumentos de sopro e um outro que ressoava mais do que órgãos. E tirando partido da força prodigiosa que a febre me dava, fiz daquilo tudo uma orquestra ensurdecedora. Tremia tudo com as vibrações.
Certo então de que neste tumulto a minha voz não poderia ouvir-se, pus-me a bramir, a bramir durante horas, e lá consegui aliviar-me aos poucos.”

Henri Michaux, O Retiro Pelo Risco (Fenda; tradução de Júlio Henriques; p.24)

11 dezembro 2007

Sublinhados II

“Descobri, de um modo geral, que, nestas alturas em que o coração pesa, a melhor coisa a fazer é enroscarmo-nos com um bom romance de detectives e tentarmos esquecer tudo. Felizmente eu tinha arrumado na mala entre os meus pertences um livro chamado Assassínio na Herdade de Greystone. Comecei a virar as páginas e percebi que não podia ter feito uma jogada mais sábia. Era um desses livros em que estão sempre a descobrir baronetes mortos nas bibliotecas e em que a heroína não pode ir uma única vez para a cama sem que uma coisa surja, saída de um dos painéis de parede do quarto dela, e comece a andar por ali armada em importante, e não demorou nada a que eu me sentisse calmíssimo a ponto de apagar a luz e cair num sono revigorante, que durou, como sempre duram os meus sonos revigorantes, até à chegada da chávena de chá matinal.”

P.G. Wodehouse, Época de Acasalamento (Cotovia/Livros da Raposa; tradução de Alexandre Soares Silva; p.67)

06 dezembro 2007

Sublinhados

“Assim se passam as coisas nos carros franceses. Nas outras nações, os costumes são muito diferentes. Os ingleses empenham-se, por orgulho, em não abrir a boca; o alemão, no carro, é triste, e os italianos demasiado prudentes para conversar; os espanhóis não possuem qualquer espécie de diligências e os russos não têm estradas. A gente, portanto, só se diverte nas pesadas diligências de França, nesta terra tão tagarela, tão indiscreta, onde todos se apressam em rir e em mostrar espírito, onde o gracejo tudo anima, desde a miséria das classes baixas até aos graves interesses dos burgueses abastados.”

Honoré de Balzac, Um Começo de Vida (Guimarães Editores, 1963; tradução de Jorge Reis; p.66)