Trabalhar madrugada fora tem destes inconvenientes: só agora, às duas da tarde, é que o
Público me chega às mãos e, com ele, a notícia de que o desconto de 10% que ajudou a fazer da FNAC o gigante que é hoje vai passar a ser um privilégio dos detentores do cartão FNAC. Sobre isso, o Jorge Reis-Sá escreve no seu
blog, bem como o Paulo Ferreira nos
Blogtailors. À pergunta final deste último (“Se eu não tiver um cartão FNAC, que motivo temos para continuar a ir lá comprar livros?”), respondo com um óbvio ‘Nenhum!’. Aquilo que a FNAC parecia ser no início da sua instalação em Portugal, uma livraria com programação cultural, oferta diversificada, com novidades de todos os quadrantes, mas também com fundos sólidos, tem vindo a desaparecer aos poucos e há já alguns anos que o único motivo pelo qual valia a pena lá ir era mesmo o do desconto, ainda que às vezes isso pesasse um bocado na consciência de quem desconfia que os 10% a menos no preço seriam retirados do lucro da editora (peso que se combatia muito bem comprando apenas livros de editoras maiores e reservando a compra de livros da & etc, Antígona, Averno, Fenda, Quasi e outras para espaços mais amigos da edição). Isso e a hipótese de acumular pontos que podem ser trocados por cheques, o que em algumas alturas do mês se torna realmente simpático, permitindo a compra daquele livro que pensávamos não poder comprar tão cedo, a troco de nada. Agora a situação vai manter-se, bastando para isso aderir ao cartão. Deve ser isso que significa ‘levar o negócio dos livros a sério’, ‘crescer’ e ‘fidelizar a clientela’. Se isso vai fazer com que as vendas desçam e o público procure outros espaços ou se vai levar a um aumento exponencial do número de aderentes do cartão Fnac, ainda não se sabe. Mas que isso altere alguma coisa naquilo que tem sido a politica da loja, não me parece. Desde a abertura da loja do Chiado (a que conheço melhor) que as pequenas mudanças foram acompanhando uma degradação paulatina daquilo que podia ser um espaço de livros agradável. A redução, lenta mas substancial, dos fundos e de algumas secções em particular (a banda desenhada é um bom exemplo, mas haverá outros), a rotatividade acelerada das novidades, muitas vezes associada à desaparição rápida dos livros que há um mês estavam em destaque, a oferta cada vez mais concentrada nas edições que se encontram em qualquer sítio (acabando com aquilo que poderia diferenciar a loja de outros grandes espaços comerciais livreiros) e a constante mudança de espaços, de que o ‘encafuamento’ da secção infantil no antigo corredor de leitura, com pouco espaço para leitores e menos ainda para carrinhos de bebé, é o exemplo mais recente, mas ao qual se poderia juntar o desaparecimento misterioso dos sofás de leitura que marcavam, no início, a identidade da loja, são exemplos dessa degradação. Por entre tudo isto, e aceitando a lógica de mercado (da qual parece que não há fuga possível), o facto de o desconto de 10% passar a estar disponível apenas para os portadores do cartão nem parece a coisa mais grave. Não é assim que se fidelizam clientes no palavreado e na estratégia dos senhores do marketing?