08 outubro 2008

Amanhã, dia cheio

O livro A Faca Não Corta o Fogo. Súmula & Inédita, de Herberto Hélder, chega às livrarias, com a chancela da Assírio & Alvim.



Ah, e ao fim da manhã, conheceremos o nome do Nobel da Literatura deste ano.

Leituras

No Guardian, Lauren Elkin escreve sobre literatura e identidade nacional. Para ler aqui e acompanhar a discussão que já vai assomando nos comentários.

Miguel Esteves Cardoso, Em Portugal Não Se Come Mal, Assírio & Alvim



         É sabido que a prosa de Miguel Esteves Cardoso há muito que devia constar dos manuais escolares e que não deve haver candidato a cronista que não alimente o sonho de um dia escrever como um epígono do mestre. Poder ler assim, de seguida, mais de setenta crónicas do autor sem a angústia de esperar pela semana seguinte é, por isso, um privilégio, muito para lá da importância documental. É egoísmo puro: não importa tanto se a edição em livro permite prolongar a existência dos textos, transformá-los no objecto devocional que os livros podem ser ou dar a conhecer o autor a mais leitores, eventualmente distraídos de jornais e revistas; o que importa realmente é que assim temos todas as crónicas na mão, sem esperas, sempre que quisermos.
         Alimentado pelas colaborações do autor no extinto DNA, este volume reúne as crónicas que MEC dedicou à comida (ou, como o próprio diria, ao ‘papinho’), e especificamente à comida portuguesa. Entre restaurantes, mercados e cozinhas caseiras, MEC elogia a qualidade dos produtos nacionais e o modo tradicional de os comer. O elogio não passa pelo nacionalismo que despreza a fruta espanhola, mas antes pela constatação de que ainda temos ingredientes verdadeiramente invejáveis de qualidade e frescura, sendo o modo mais simples e antigo de os consumir quase sempre o melhor. Não é que as maçãs espanholas sejam más, mas para quê perder tempo com elas se fomos abençoados com a doçura das maçãs ‘bravo esmolfe’ à porta de casa? E como se a sua palavra não bastasse, o autor deambula por descrições suculentas e pela partilha de conversas com verdadeiros conhecedores do tema – pescadores, peixeiras, merceeiros e outros – , que ajudam à confirmação: não é preciso gastar o ordenado mínimo num restaurante premiado ou embarcar num avião para Paris ou Roma; com pouco dinheiro e o conhecimento ancestral da época certa para cada produto (ou, em alternativa, com a ajuda dos vendedores dos mercados municipais, verdadeiros repositórios de segredos culinários), come-se muito bem por cá.

Sara Figueiredo Costa

(Texto publicado na revista Time Out nº53, 1 Outubro 2008)

07 outubro 2008

Nós, os Portugueses



A apresentação do novo livro de Maria Filomena Mónica, Nós, os Portugueses, está marcada para esta noite, pelas 22 horas, no Casino da Figueira. A edição é das Quasi e a apresentação estará a cargo de Domingos Amaral.

Prémio Conto Infantil Ilustrado

As Correntes d'Escritas e a Porto Editora apresentaram um novo prémio, inserido na programação daquele que é, certamente, o encontro literário mais animado do nosso país. Como se lê no comunicado de imprensa, o prémio destina-se a distinguir anualmente um conto ilustrado, inédito, em língua portuguesa, escrito por alunos que frequentem o 4º. ano de escolaridade do 1º. ciclo do ensino básico, supervisionados por um professor. A originalidade do galardão reside no facto de premiar trabalhos colectivos, uma vez que só serão admitidos a concurso contos infantis, com ilustrações, redigidos em grupo pelos alunos, com um mínimo de três páginas e um máximo de dez.
O regulamento pode ser consultado aqui e os trabalhos deverão ser entregues até ao próximo dia 15 de Dezembro.

Obscena

O número 15 da revista Obscena (revista de artes performativas) já está disponível on-line, e ainda por cima, gratuitamente. É ir até aqui e comprovar.

06 outubro 2008

Os livros ardem mal

A época reabre hoje, com Francisco José Viegas como convidado da primeira sessão e com o painel habitual a compor a mesa (António Apolinário Lourenço, Luís Quintais, Osvaldo Manuel Silvestre e Rui Bebiano). É às 18 Horas, no Café-Teatro do TAGV, em Coimbra.

Sítios para visitar antes de morrer

Há livros que acompanham melhor as viagens do que os guias, já se sabe, ainda que os guias dêem um certo jeito. Barcelona não teria sido a mesma coisa sem a Homenagem à Catalunha e Londres seria mais luminosa (mas muito menos interessante) sem Dickens, Sherlock Holmes ou a Bloomsbury de Woolf e companhia. E foi a pensar nisso que David Del Vecchio criou a Idlewild Books, em Manhattan. A história vem no New York Times (e a livraria, claro, já consta da lista dos sítios para visitar enquanto se pode).

(Aqui, numa página pessoal do Flickr, podem apreciar-se algumas imagens do local).

Eduardo Lourenço

Assinalando os 85 anos de vida de Eduardo Lourenço, começa daqui a nada, na Fundação Calouste Gulbenkian, o congresso dedicado à obra do autor. Organizado pelo Centro Nacional de Cultura, com a colaboração de várias universidades e o apoio da FCG, o colóquio decorre hoje e amanhã. O programa pode ser consultado aqui.

03 outubro 2008

Triste notícia



Dinis Machado (ou Dennis McShade) morreu hoje, aos 78 anos. E ainda ontem, a braços com a insónia, lhe tinha relido as palavras que escreveu para a Ler, em 1992, a propósito da Barateira:

"Império empírico de um rapaz destinado a pôr o Shakespeare na sombra (se ele tivesse a lata de me pedir meças), a Barateira faz parte da minha formação, esse curriculozito tão exíguo e obstinado. E pergunto-me: - Serias capaz de te reconhecer sem todos aqueles anos de prateleiras que levavas para casa, essa feira inconcebível de trocas e baldrocas? Acho que não, confesso."

(Ler, nº18, Primavera de 1992)

Ver notícia no Público On-Line.

Livros para crianças

A partir da sua colecção de livros 'infantis', a Newberry Library programou uma exposição onde se podem ver exemplares desde o século XV até aos dias de hoje. Há livros de paragens diversas, em várias línguas, e alguns tesouros bibliográficos como a primeira edição ilustrada das Fábulas, de Esopo (1485) ou a primeira edição de Alice's Adventures in Wonderland, de Lewis Carroll (1865).


Mongolian ABC book (imagem retirada do site da biblioteca)

Intitulada Artifacts of Childhood: 700 Years of Children's Books, a exposição estará aberta ao público até ao dia 17 de Janeiro de 2009. A única coisa triste é a Newberry Library ficar em Chicago (e o Cadeirão Voltaire não dispor de pecúlio - o que eu queria escrever isto! - para ir até lá e contar como foi).

02 outubro 2008

Philip Roth



Ainda não é desta.

José Cardoso Pires

Assinalando os dez anos da morte de José Cardoso Pires (que faria hoje 83 anos), a Câmara Municipal de Lisboa preparou um programa cultural que decorrerá até ao próximo mês. Hoje, pelas 18h30, na Casa Fernando Pessoa, 'Os Amigos Recordam José Cardoso Pires' juntará António Lobo Antunes e Júlio Pomar, com moderação de Inês Pedrosa.
Mais adiante haverá exposições, um ciclo de conferências, cinema e documentários. Programação completa aqui.

Sublinhados XX

"Ficámos frente a frente, à luz do meio dia. Eu, senhor escritor da comarca de Portugal, e portanto animal tolerado, à margem, e ela, ser humilde, português, que habita ruínas da História; que cumpre uma existência entre pedras e sol, e se resigna (é espantoso); que é, ela própria, um fragmento de pedra gerado na pedra - um resto afinal, uma sobra; que se alimenta de nada (de quê?) e é rápida no despertar, e sagaz, e ladina, embora votada ao isolamento de uma memória do Império; que não tm voz, ou a perdeu, ou não se ouve..."

José Cardoso Pires, O Delfim (Dom Quixote, 18ªedição, p.81)

Fórum Fantástico 2008

Começa hoje e prolonga-se até ao próximo Domingo, no auditório da Faculdade de Belas Artes de Lisboa.
Às 18h30, debate-se o futuro do livro: “Existe ainda futuro no verbo ler?”, uma discussão sobre o futuro dos livros a nível tecnológico, terá moderação de Luís Filipe Silva e participação de Nuno Seabra Lopes, José Mário Silva, Pedro Marques e Paulo Ribeiro.
A programação completa está aqui.

01 outubro 2008

Leya e o livro escolar

A outra notícia do Público a chamar a atenção no que aos livros diz respeito é a do atraso da entrega dos manuais escolares das editoras do grupo Leya, que não é bem uma notícia, mas sim a continuação de um estado de coisas que se arrasta desde Agosto. Já estamos no início de Outubro e muitos alunos (nalguns casos, turmas inteiras) continuam sem livros essenciais, os professores começam a não saber o que fazer, os pais pressionam as livrarias e os livreiros tentam ter, sem grande sucesso, respostas da Leya.
Luís Filipe Cristóvão já tinha dado conta da situação em Agosto e Setembro, lamentando a falta de condições no armazém da Leya, a ausência de previsões sobre a data de disponibilização de vários livros do grupo no mercado e da ineficácia do atendimento, quer para venda, quer para esclarecimentos. Agora, o Público traça um panorama mais amplo, mostrando que o caos se instalou em escolas e livrarias de norte a sul. Para quem queria construir um grupo sólido, profissional e eficiente, a Leya não se tem saído nada bem.

Fnac e os 10%

Trabalhar madrugada fora tem destes inconvenientes: só agora, às duas da tarde, é que o Público me chega às mãos e, com ele, a notícia de que o desconto de 10% que ajudou a fazer da FNAC o gigante que é hoje vai passar a ser um privilégio dos detentores do cartão FNAC. Sobre isso, o Jorge Reis-Sá escreve no seu blog, bem como o Paulo Ferreira nos Blogtailors. À pergunta final deste último (“Se eu não tiver um cartão FNAC, que motivo temos para continuar a ir lá comprar livros?”), respondo com um óbvio ‘Nenhum!’. Aquilo que a FNAC parecia ser no início da sua instalação em Portugal, uma livraria com programação cultural, oferta diversificada, com novidades de todos os quadrantes, mas também com fundos sólidos, tem vindo a desaparecer aos poucos e há já alguns anos que o único motivo pelo qual valia a pena lá ir era mesmo o do desconto, ainda que às vezes isso pesasse um bocado na consciência de quem desconfia que os 10% a menos no preço seriam retirados do lucro da editora (peso que se combatia muito bem comprando apenas livros de editoras maiores e reservando a compra de livros da & etc, Antígona, Averno, Fenda, Quasi e outras para espaços mais amigos da edição). Isso e a hipótese de acumular pontos que podem ser trocados por cheques, o que em algumas alturas do mês se torna realmente simpático, permitindo a compra daquele livro que pensávamos não poder comprar tão cedo, a troco de nada. Agora a situação vai manter-se, bastando para isso aderir ao cartão. Deve ser isso que significa ‘levar o negócio dos livros a sério’, ‘crescer’ e ‘fidelizar a clientela’. Se isso vai fazer com que as vendas desçam e o público procure outros espaços ou se vai levar a um aumento exponencial do número de aderentes do cartão Fnac, ainda não se sabe. Mas que isso altere alguma coisa naquilo que tem sido a politica da loja, não me parece. Desde a abertura da loja do Chiado (a que conheço melhor) que as pequenas mudanças foram acompanhando uma degradação paulatina daquilo que podia ser um espaço de livros agradável. A redução, lenta mas substancial, dos fundos e de algumas secções em particular (a banda desenhada é um bom exemplo, mas haverá outros), a rotatividade acelerada das novidades, muitas vezes associada à desaparição rápida dos livros que há um mês estavam em destaque, a oferta cada vez mais concentrada nas edições que se encontram em qualquer sítio (acabando com aquilo que poderia diferenciar a loja de outros grandes espaços comerciais livreiros) e a constante mudança de espaços, de que o ‘encafuamento’ da secção infantil no antigo corredor de leitura, com pouco espaço para leitores e menos ainda para carrinhos de bebé, é o exemplo mais recente, mas ao qual se poderia juntar o desaparecimento misterioso dos sofás de leitura que marcavam, no início, a identidade da loja, são exemplos dessa degradação. Por entre tudo isto, e aceitando a lógica de mercado (da qual parece que não há fuga possível), o facto de o desconto de 10% passar a estar disponível apenas para os portadores do cartão nem parece a coisa mais grave. Não é assim que se fidelizam clientes no palavreado e na estratégia dos senhores do marketing?

Tirar os livros proibidos da estante e lê-los todos de uma assentada!



Estamos em plena 'Banned Books Week', o modo que a a American Library Asociation encontrou de assinalar a importância da liberdade de expressão e pensamento, defendendo o direito dos cidadãos a acederem a qualquer livro. Ou, nas palavras dos organizadores, "BBW celebrates the freedom to choose or the freedom to express one’s opinion even if that opinion might be considered unorthodox or unpopular and stresses the importance of ensuring the availability of those unorthodox or unpopular viewpoints to all who wish to read them. After all, intellectual freedom can exist only where these two essential conditions are met."
O Banned Books Read Out!, em Chicago, que juntou vários autores que já viram os seus livros serem candidatos a uma 'desaparição involuntária' das estantes das bibliotecas, já aconteceu, mas a programação segue noutras cidades, bem como no Second Life.

O Guardian, associando-se ao evento da American Library Association, dedica o seu quizz mais recente ao tema.

(A imagem lá de cima foi retirada daqui)

James Fitzgerald, O Prazer de Fumar Cigarros, Guerra & Paz



       Em anos tão higiénicos e moralizadores como estes que vivemos, publicar um livro intitulado O Prazer de Fumar Cigarros não deve ser tarefa que se abrace de ânimo leve... Mas sosseguem as mentes mais preocupadas com as más influências em letra de forma: logo no prefácio, James Fitzgerald deixa bem claro que fumar é um mau hábito e que ele próprio já tentou libertar-se dele. Pacificados os defensores dos pulmões alheios, siga-se adiante, acompanhando a relação do autor com os cigarros e partilhando da sua vastíssima informação sobre o vício mais estético do mundo (e esta não é uma opinião absoluta, estou ciente). Com um sentido de humor pleno de inteligência, capaz de rir dos outros e de si próprio, Fitzgerald agrupa dados sobre a presença do tabaco na publicidade ou no cinema com fait-divers de toda a espécie, incluindo fumadores famosos e perfis sócio-profissionais dos consumidores de marcas americanas tão populares como a Camel ou a Chesterfield. Assim, mais do que um elogio do tabaco, o autor traça um retrato antropologicamente muito interessante sobre a relação dos norte-americanos com os cigarros, apresentando histórias e fragmentos que surgem como um contributo valioso para melhor compreender a história quotidiana de uma das grandes potências do século XX. Com segurança, o leitor pode descobrir a origem de alguns ícones americanos, como o o homem do uniforme vermelho e preto, da Philip Morris, aprender a reconhecer gestos típicos de um fumador, descobrir como se enrolam cigarros ou acompanhar o processo que transformou os cigarros em serial-killers depois de anos de glória cinematográfica e glamour. E também pode rir-se um pouco com a ironia dos capítulos que propõem programas de dez dias para começar a fumar ou poses com o cigarro em função da imagem que o fumador quer transmitir aos outros. Tudo isto sem o menor impulso de acender um cigarro (a não ser que seja fumador, e aí o livro tem pouca influência). E nem foi preciso colocar um aviso na capa do livro.

Sara Figueiredo Costa

(Texto publicado na revista Time Out nº52, 24 Setembro 2008)

O Jardim Assombrado

Assim se chama o blog que a Carla Maia de Almeida acaba de inaugurar. Segue para os links.

30 setembro 2008

As cartas de Norman Mailer

Na mais recente edição da New Yorker publica-se uma selecção de cartas de Norman Mailer que, para lá da leitura quase voyeurista que a epistolografia proporciona, constitui uma visão cronológica muito pessoal sobre a segunda metade do século XX, com reflexões de carácter político, partilhas literárias e dúvidas expostas 'em voz alta', como só nas cartas se podem expor tranquilamente. Os destinatários incluem a família mais próxima e os amigos, para além de uma ou outra missiva de carácter institucional, e as cartas abarcam um período considerável, começando em 1945 e terminando em 2005, dois anos antes da morte do autor.


(imagem retirada daqui)

Aqui, a missiva natalícia para Allen Ginsberg, em 1969:

To Allen Ginsberg

December 9, 1969
Dear Allen,
. . . This is just to say love to your manse and three cheers for the organic farming.
Yours sincerely,
Norman

P.S. People keep asking me to do pieces on what I think the ’70s will be like. Do you know I don’t have the remotest idea. We were sure of what would happen in the ’60s and we weren’t far from wrong. The ’70s are just a fearful blank to me. I hope it’s age rather than presentiments. Merry Christmas dear poet.

A saga de A Jóia de Medina

Apesar da duvidosa qualidade literária do texto, cuja publicação na Porto Editora foi recusada por Manuel Alberto Valente por esse mesmo motivo, The Jewel of Medina, de Sherry Jones, parece ter garantida a edição pela inglesa Gibson Square. E isto, contra todos os avisos e ameaças, que já se concretizaram num ataque à casa particular de Martin Rynja, a editora inglesa, e depois de algumas desistências editoriais (entre elas a da Randhom House) motivadas pelo medo de consequências mais graves. A Gibson Square mantém a sua decisão e o livro, ao que parece, mauzinho, acaba por ganhar contornos de resistência contra os atentados à liberdade de expressão que vão chegando de sítios diversos. Nem uma campanha de marketing bem orquestrada faria tanto por um livro mau, cuja publicação apetece defender com todas as forças, mesmo dispensando a leitura de qualquer capítulo.

Da Galiza III

"Abecedario de árbores"

bidueira é con b de branco
branco como a lepra,
os longos rabos do b
desempenados como riscas de xiz.
Na cortiza branca da bidueira
sutil como a casca do ovo
os indios de tempos idos
(antes do alcohol barato, das plumas de plástico)
escribían mensaxes instantáneas
fráxiles como todo o que vale a pena.
bidueiras como mulleres de loito,
como prisioneiros famentos
na interminable estepa do país do Medio,
unha mitteleuropa ou outra,
montando garda ós espectros
de Dachau ou Matthausen.

ollo coas acacias,
con c de coitelo.
son máscaras de entroido
que esconden o gume das súas follas
nun estoupido de lámpadas amarelas.
Unha acacia ou mimosa nun entroido, hai anos,
partiume a lingua en dous.

e que dicir das magnolias
con m de mágoa
que te asaltan por sorpresa
con esa creación excesiva
de flores pesadas como chumbo,
as linguas ou sexos dos pétalos
murchas antes de abrirse.
Non quero ver magnolias, non
teñen contención, non
son discretas.
Esa paleta de cores carnais
non se acorda coa miña roupa
nin cos mobles do living room.

plataneiro, con p de prender,
con p de pólvora e pincel,
falsos como ningunha árbore,
que levan na codia un mapa
con promesas de viaxes incumpridas.

árbores de inverno,
o último libro que
Sylvia
antes de pousar a cabeza
no acougo enganadizo
do forno de gas.

Marilar Aleixandre, in Abecedario de árbores, 2006

29 setembro 2008

Câmara Clara e PNL

O vídeo da emissão de ontem do Câmara Clara já está disponível no site e vale a pena acompanhar a discussão entre Francisco José Viegas e Isabel Alçada a propósito do Plano Nacional de Leitura. Com o avançar da conversa, percebe-se onde é que as coisas se separam: para Isabel Alçada, o importante é que os miúdos leiam, porque só assim podem ganhar hábitos de leitura. Certo. Mas FJV levanta a problemática das escolhas, questionando, de um modo mais ou menos directo, os critérios que presidiram à definição das listas do PNL. Isabel Alçada assegura que não há livros mal escritos ou com erros. FJV insiste na necessidade de se pensar noutros critérios. E o espectador, pacatamente sentado no sofá, percebe que não houve outros critérios, ou pelo menos outros critérios directamente relacionados com a existência de um cânone, quando Isabel Alçada pergunta 'E quem é que define esse cânone?', desvalorizando o peso dos clássicos e a selecção do tempo e contrapondo à presença do cânone numa escolha do tipo do PNL a importância de dar a ler tudo, para os miúdos lhe ganharem o gosto. Subjacente a isto, e não radicalizando demasiado a qualidade do que se dá a ler (o que implicaria impedir, ou evitar, leituras menos boas, e isso parece-me obviamente pouco produtivo) fica uma ideia muito pobre do que subjaz à promoção da leitura e uma dúvida: se os miúdos só lerem manuais de instruções da Playstation até aos dez anos serão capazes de, algum dia, ler qualquer outra coisa? É uma leitura como qualquer outra, pelo que, seguindo esta lógica, devia estimular o gosto e o hábito de ler. Estimulará? Do mesmo modo, um miúdo que cresce sem qualquer acesso (adaptações incluídas) aos 'clássicos' (sim, os do cânone), algum dia terá capacidade para os ler?

Da censura

Philip Pullman, que viu o seu livro The Golden Compass sofrer várias ameaças de proibição em bibliotecas norte-americanas, escreve sobre a experiência, os motivos e os efeitos da censura. Para ler aqui, no Guardian on-line.

26 setembro 2008

V. S. Naipaul na Gulbenkian

No âmbito da exposição «Weltliteratur - Madrid, Paris, Berlim, São Petersburgo, o Mundo!», qua inaugura na próxima terça-feira na Fundação Calouste Gulbenkian, o escritor V. S. Naipaul virá a Lisboa para participar no ciclo de conferências que decorrerá em paralelo (entre 1 de Outubro e 17 de Dezembro).
A exposição, comissariada por António M. Feijó, estará aberta ao público até ao dia 4 de Janeiro de 2009.



Fonte: Diário Digital

Bibliofilias


No Leilão Ameal. Crónicas Amenas de uma Livraria A Menos
Matos Sequeira
Letra Livre, 2008

A inaugurar a colecção 'Bibliofilias', a Livraria Letra Livre reeditou No Leilão Ameal. Crónicas Amenas de uma Livraria A Menos, de Matos Sequeira (originalmente publicado em 1924). Os apontamentos cronísticos sobre o ambiente dos leilões lisboetas de livros no início do século XX ensinam tanto como divertem, expondo as manhas e os rituais dos bibliófilos, as angústias que se sucedem à compra, por outra pessoa, do livro desejado e os habitués da bibliofilia.
Aqui ficam dois pequenos excertos:

"É ainda o Sr. Potter - a quem um dos assistentes chama o Potter das Almas - quem arremata a Corographia, do padre Carvalho, por 510$00. O Dr. Perry Vidal, como não consegue comprar nada, atira com os livros para cima da mesa e entorna cinzeiros. É um verdadeiro ciclone!
Chega a vez de Camilo. Alerta, camilianistas! São só quatro obras: as Folhas Cahidas, a Historia de GAbriel Malagrida, a Maria! não me mates! e o Matricidio sem exemplo. Todas elas não chegaram a 230$00. E acabou-se." (pp.20-21)

"O Estado ainda não arrematou um único livro, nem sequer tem comparecido. Falta de verba? ou não haverá na livraria obras que o interessem?" (p.55)

Livros sem censura

Os ecos do documentário Obscene, de Neil Ortenberg & Daniel O'Connor, sobre a vida e a obra de Barney Rosset, editor da Grove Press e da Evergreen Review, chegaram esta semana ao New York Times. Dos problemas com a justiça puritana que não gostou de ver Henry Miller ou D.H. Lawrence em letra de forma, até à condecoração do National Book Foundation, que receberá em Novembro, pela sua luta pela liberdade de expressão, a vida de Barney Rosser guarda muitas histórias, nem todas tão conhecidas como estas.
Virá ao Doc. Lisboa?


Na imagem, Barney Rosset com Samuel Beckett, em Paris, 1956
(retirada da Syracuse University Library)

25 setembro 2008

Da Galiza II

Cociño a todas horas para precipitar os alimentos crus
nos abismos da pota. As galletas maría
(sutilmente esmagadas)
engordan (disque) a salsa de tomate.
Non dispoño de método pero exhumei un libro de receitas
que parece un compendio do universo.
Da natureza dixo galileo
que era un grande tecido (calceta, macramé)
e o papel de cebola serve para calcar os versos que nos gustan.
Sempre a cebola tarda (tremede, lacrimais) en desfacerse,
por iso é o primeiro que se bota.
Nos queimadores, en cuestión de segundos,
o lume ocupa o lugar da indiferencia.

María do Cebreiro, in O Estadio do Espello, Edicións Xerais, 1998

24 setembro 2008

Notas de Praga (Agosto 08) IV

Um eléctrico fotogénico deixa-me a poucos metros do Mosteiro de Strahov, um pouco acima do plano médio da cidade, de um lado casas, do outro bosque. Fundado no século XII e várias vezes reconstruído e acrescentado, o principal interesse de Strahov não está tanto na arquitectura, ou nos monges que ainda habitam o mosteiro (e que passaram ao longe, quando o sino tocou, numa revoada apressada de hábitos brancos), mas na sua biblioteca, dividida pelas Salas Filosófica e Teológica. São mais de oito séculos de livros, com predominância de textos religiosos e teológicos, estudos de biologia, astronomia e física, as obras dos grandes filósofos e alguns antifonários para o acompanhamento das diferentes horas monásticas. Em qualquer das salas, a visão é impressionante, de um modo que as imagens nunca poderão explicar. O silêncio e o facto de as salas estarem vazias de qualquer presença humana, contrastando com a riqueza que se adivinha por detrás das lombadas, criam uma solenidade difícil de descrever. Para além da beleza das estantes, dos tectos, dos objectos e do mobiliário, creio que a solenidade advém tanto da presença dos milhares de livros como da impossibilidade de nos aproximarmos deles. Por razões de preservação patrimonial, os visitantes têm o acesso restrito à porta de ambas as salas, de onde podem contemplar a imensidão bibliográfica. E isso, apesar de compreensível, cria uma angústia que só a visão da beleza de ambos os espaços serena um pouco. A vontade de entrar, folhear os livros, passar algum tempo a elaborar um plano meticuloso de leitura e estudo, mesmo sabendo que o tempo de vida útil não chegaria para todas as espécies presentes, persiste. E persiste do modo mais egoísta, porque o que se deseja é fazer tudo isso sem os grupos que constantemente se aproximam das portas, apontando para os globos e as estantes e falando alto. O que se deseja, ao fim de alguns minutos de contemplação, é deixar as pessoas saírem e ficarmos nós ali, no silêncio do mosteiro vazio, com a luz que se quebra nas janelas, percorrendo prateleiras e escolhendo leituras.


Sala Filosófica


Sala Teológica

(As imagens são retiradas de postais)