06 outubro 2008

Eduardo Lourenço

Assinalando os 85 anos de vida de Eduardo Lourenço, começa daqui a nada, na Fundação Calouste Gulbenkian, o congresso dedicado à obra do autor. Organizado pelo Centro Nacional de Cultura, com a colaboração de várias universidades e o apoio da FCG, o colóquio decorre hoje e amanhã. O programa pode ser consultado aqui.

03 outubro 2008

Triste notícia



Dinis Machado (ou Dennis McShade) morreu hoje, aos 78 anos. E ainda ontem, a braços com a insónia, lhe tinha relido as palavras que escreveu para a Ler, em 1992, a propósito da Barateira:

"Império empírico de um rapaz destinado a pôr o Shakespeare na sombra (se ele tivesse a lata de me pedir meças), a Barateira faz parte da minha formação, esse curriculozito tão exíguo e obstinado. E pergunto-me: - Serias capaz de te reconhecer sem todos aqueles anos de prateleiras que levavas para casa, essa feira inconcebível de trocas e baldrocas? Acho que não, confesso."

(Ler, nº18, Primavera de 1992)

Ver notícia no Público On-Line.

Livros para crianças

A partir da sua colecção de livros 'infantis', a Newberry Library programou uma exposição onde se podem ver exemplares desde o século XV até aos dias de hoje. Há livros de paragens diversas, em várias línguas, e alguns tesouros bibliográficos como a primeira edição ilustrada das Fábulas, de Esopo (1485) ou a primeira edição de Alice's Adventures in Wonderland, de Lewis Carroll (1865).


Mongolian ABC book (imagem retirada do site da biblioteca)

Intitulada Artifacts of Childhood: 700 Years of Children's Books, a exposição estará aberta ao público até ao dia 17 de Janeiro de 2009. A única coisa triste é a Newberry Library ficar em Chicago (e o Cadeirão Voltaire não dispor de pecúlio - o que eu queria escrever isto! - para ir até lá e contar como foi).

02 outubro 2008

Philip Roth



Ainda não é desta.

José Cardoso Pires

Assinalando os dez anos da morte de José Cardoso Pires (que faria hoje 83 anos), a Câmara Municipal de Lisboa preparou um programa cultural que decorrerá até ao próximo mês. Hoje, pelas 18h30, na Casa Fernando Pessoa, 'Os Amigos Recordam José Cardoso Pires' juntará António Lobo Antunes e Júlio Pomar, com moderação de Inês Pedrosa.
Mais adiante haverá exposições, um ciclo de conferências, cinema e documentários. Programação completa aqui.

Sublinhados XX

"Ficámos frente a frente, à luz do meio dia. Eu, senhor escritor da comarca de Portugal, e portanto animal tolerado, à margem, e ela, ser humilde, português, que habita ruínas da História; que cumpre uma existência entre pedras e sol, e se resigna (é espantoso); que é, ela própria, um fragmento de pedra gerado na pedra - um resto afinal, uma sobra; que se alimenta de nada (de quê?) e é rápida no despertar, e sagaz, e ladina, embora votada ao isolamento de uma memória do Império; que não tm voz, ou a perdeu, ou não se ouve..."

José Cardoso Pires, O Delfim (Dom Quixote, 18ªedição, p.81)

Fórum Fantástico 2008

Começa hoje e prolonga-se até ao próximo Domingo, no auditório da Faculdade de Belas Artes de Lisboa.
Às 18h30, debate-se o futuro do livro: “Existe ainda futuro no verbo ler?”, uma discussão sobre o futuro dos livros a nível tecnológico, terá moderação de Luís Filipe Silva e participação de Nuno Seabra Lopes, José Mário Silva, Pedro Marques e Paulo Ribeiro.
A programação completa está aqui.

01 outubro 2008

Leya e o livro escolar

A outra notícia do Público a chamar a atenção no que aos livros diz respeito é a do atraso da entrega dos manuais escolares das editoras do grupo Leya, que não é bem uma notícia, mas sim a continuação de um estado de coisas que se arrasta desde Agosto. Já estamos no início de Outubro e muitos alunos (nalguns casos, turmas inteiras) continuam sem livros essenciais, os professores começam a não saber o que fazer, os pais pressionam as livrarias e os livreiros tentam ter, sem grande sucesso, respostas da Leya.
Luís Filipe Cristóvão já tinha dado conta da situação em Agosto e Setembro, lamentando a falta de condições no armazém da Leya, a ausência de previsões sobre a data de disponibilização de vários livros do grupo no mercado e da ineficácia do atendimento, quer para venda, quer para esclarecimentos. Agora, o Público traça um panorama mais amplo, mostrando que o caos se instalou em escolas e livrarias de norte a sul. Para quem queria construir um grupo sólido, profissional e eficiente, a Leya não se tem saído nada bem.

Fnac e os 10%

Trabalhar madrugada fora tem destes inconvenientes: só agora, às duas da tarde, é que o Público me chega às mãos e, com ele, a notícia de que o desconto de 10% que ajudou a fazer da FNAC o gigante que é hoje vai passar a ser um privilégio dos detentores do cartão FNAC. Sobre isso, o Jorge Reis-Sá escreve no seu blog, bem como o Paulo Ferreira nos Blogtailors. À pergunta final deste último (“Se eu não tiver um cartão FNAC, que motivo temos para continuar a ir lá comprar livros?”), respondo com um óbvio ‘Nenhum!’. Aquilo que a FNAC parecia ser no início da sua instalação em Portugal, uma livraria com programação cultural, oferta diversificada, com novidades de todos os quadrantes, mas também com fundos sólidos, tem vindo a desaparecer aos poucos e há já alguns anos que o único motivo pelo qual valia a pena lá ir era mesmo o do desconto, ainda que às vezes isso pesasse um bocado na consciência de quem desconfia que os 10% a menos no preço seriam retirados do lucro da editora (peso que se combatia muito bem comprando apenas livros de editoras maiores e reservando a compra de livros da & etc, Antígona, Averno, Fenda, Quasi e outras para espaços mais amigos da edição). Isso e a hipótese de acumular pontos que podem ser trocados por cheques, o que em algumas alturas do mês se torna realmente simpático, permitindo a compra daquele livro que pensávamos não poder comprar tão cedo, a troco de nada. Agora a situação vai manter-se, bastando para isso aderir ao cartão. Deve ser isso que significa ‘levar o negócio dos livros a sério’, ‘crescer’ e ‘fidelizar a clientela’. Se isso vai fazer com que as vendas desçam e o público procure outros espaços ou se vai levar a um aumento exponencial do número de aderentes do cartão Fnac, ainda não se sabe. Mas que isso altere alguma coisa naquilo que tem sido a politica da loja, não me parece. Desde a abertura da loja do Chiado (a que conheço melhor) que as pequenas mudanças foram acompanhando uma degradação paulatina daquilo que podia ser um espaço de livros agradável. A redução, lenta mas substancial, dos fundos e de algumas secções em particular (a banda desenhada é um bom exemplo, mas haverá outros), a rotatividade acelerada das novidades, muitas vezes associada à desaparição rápida dos livros que há um mês estavam em destaque, a oferta cada vez mais concentrada nas edições que se encontram em qualquer sítio (acabando com aquilo que poderia diferenciar a loja de outros grandes espaços comerciais livreiros) e a constante mudança de espaços, de que o ‘encafuamento’ da secção infantil no antigo corredor de leitura, com pouco espaço para leitores e menos ainda para carrinhos de bebé, é o exemplo mais recente, mas ao qual se poderia juntar o desaparecimento misterioso dos sofás de leitura que marcavam, no início, a identidade da loja, são exemplos dessa degradação. Por entre tudo isto, e aceitando a lógica de mercado (da qual parece que não há fuga possível), o facto de o desconto de 10% passar a estar disponível apenas para os portadores do cartão nem parece a coisa mais grave. Não é assim que se fidelizam clientes no palavreado e na estratégia dos senhores do marketing?

Tirar os livros proibidos da estante e lê-los todos de uma assentada!



Estamos em plena 'Banned Books Week', o modo que a a American Library Asociation encontrou de assinalar a importância da liberdade de expressão e pensamento, defendendo o direito dos cidadãos a acederem a qualquer livro. Ou, nas palavras dos organizadores, "BBW celebrates the freedom to choose or the freedom to express one’s opinion even if that opinion might be considered unorthodox or unpopular and stresses the importance of ensuring the availability of those unorthodox or unpopular viewpoints to all who wish to read them. After all, intellectual freedom can exist only where these two essential conditions are met."
O Banned Books Read Out!, em Chicago, que juntou vários autores que já viram os seus livros serem candidatos a uma 'desaparição involuntária' das estantes das bibliotecas, já aconteceu, mas a programação segue noutras cidades, bem como no Second Life.

O Guardian, associando-se ao evento da American Library Association, dedica o seu quizz mais recente ao tema.

(A imagem lá de cima foi retirada daqui)

James Fitzgerald, O Prazer de Fumar Cigarros, Guerra & Paz



       Em anos tão higiénicos e moralizadores como estes que vivemos, publicar um livro intitulado O Prazer de Fumar Cigarros não deve ser tarefa que se abrace de ânimo leve... Mas sosseguem as mentes mais preocupadas com as más influências em letra de forma: logo no prefácio, James Fitzgerald deixa bem claro que fumar é um mau hábito e que ele próprio já tentou libertar-se dele. Pacificados os defensores dos pulmões alheios, siga-se adiante, acompanhando a relação do autor com os cigarros e partilhando da sua vastíssima informação sobre o vício mais estético do mundo (e esta não é uma opinião absoluta, estou ciente). Com um sentido de humor pleno de inteligência, capaz de rir dos outros e de si próprio, Fitzgerald agrupa dados sobre a presença do tabaco na publicidade ou no cinema com fait-divers de toda a espécie, incluindo fumadores famosos e perfis sócio-profissionais dos consumidores de marcas americanas tão populares como a Camel ou a Chesterfield. Assim, mais do que um elogio do tabaco, o autor traça um retrato antropologicamente muito interessante sobre a relação dos norte-americanos com os cigarros, apresentando histórias e fragmentos que surgem como um contributo valioso para melhor compreender a história quotidiana de uma das grandes potências do século XX. Com segurança, o leitor pode descobrir a origem de alguns ícones americanos, como o o homem do uniforme vermelho e preto, da Philip Morris, aprender a reconhecer gestos típicos de um fumador, descobrir como se enrolam cigarros ou acompanhar o processo que transformou os cigarros em serial-killers depois de anos de glória cinematográfica e glamour. E também pode rir-se um pouco com a ironia dos capítulos que propõem programas de dez dias para começar a fumar ou poses com o cigarro em função da imagem que o fumador quer transmitir aos outros. Tudo isto sem o menor impulso de acender um cigarro (a não ser que seja fumador, e aí o livro tem pouca influência). E nem foi preciso colocar um aviso na capa do livro.

Sara Figueiredo Costa

(Texto publicado na revista Time Out nº52, 24 Setembro 2008)

O Jardim Assombrado

Assim se chama o blog que a Carla Maia de Almeida acaba de inaugurar. Segue para os links.

30 setembro 2008

As cartas de Norman Mailer

Na mais recente edição da New Yorker publica-se uma selecção de cartas de Norman Mailer que, para lá da leitura quase voyeurista que a epistolografia proporciona, constitui uma visão cronológica muito pessoal sobre a segunda metade do século XX, com reflexões de carácter político, partilhas literárias e dúvidas expostas 'em voz alta', como só nas cartas se podem expor tranquilamente. Os destinatários incluem a família mais próxima e os amigos, para além de uma ou outra missiva de carácter institucional, e as cartas abarcam um período considerável, começando em 1945 e terminando em 2005, dois anos antes da morte do autor.


(imagem retirada daqui)

Aqui, a missiva natalícia para Allen Ginsberg, em 1969:

To Allen Ginsberg

December 9, 1969
Dear Allen,
. . . This is just to say love to your manse and three cheers for the organic farming.
Yours sincerely,
Norman

P.S. People keep asking me to do pieces on what I think the ’70s will be like. Do you know I don’t have the remotest idea. We were sure of what would happen in the ’60s and we weren’t far from wrong. The ’70s are just a fearful blank to me. I hope it’s age rather than presentiments. Merry Christmas dear poet.

A saga de A Jóia de Medina

Apesar da duvidosa qualidade literária do texto, cuja publicação na Porto Editora foi recusada por Manuel Alberto Valente por esse mesmo motivo, The Jewel of Medina, de Sherry Jones, parece ter garantida a edição pela inglesa Gibson Square. E isto, contra todos os avisos e ameaças, que já se concretizaram num ataque à casa particular de Martin Rynja, a editora inglesa, e depois de algumas desistências editoriais (entre elas a da Randhom House) motivadas pelo medo de consequências mais graves. A Gibson Square mantém a sua decisão e o livro, ao que parece, mauzinho, acaba por ganhar contornos de resistência contra os atentados à liberdade de expressão que vão chegando de sítios diversos. Nem uma campanha de marketing bem orquestrada faria tanto por um livro mau, cuja publicação apetece defender com todas as forças, mesmo dispensando a leitura de qualquer capítulo.

Da Galiza III

"Abecedario de árbores"

bidueira é con b de branco
branco como a lepra,
os longos rabos do b
desempenados como riscas de xiz.
Na cortiza branca da bidueira
sutil como a casca do ovo
os indios de tempos idos
(antes do alcohol barato, das plumas de plástico)
escribían mensaxes instantáneas
fráxiles como todo o que vale a pena.
bidueiras como mulleres de loito,
como prisioneiros famentos
na interminable estepa do país do Medio,
unha mitteleuropa ou outra,
montando garda ós espectros
de Dachau ou Matthausen.

ollo coas acacias,
con c de coitelo.
son máscaras de entroido
que esconden o gume das súas follas
nun estoupido de lámpadas amarelas.
Unha acacia ou mimosa nun entroido, hai anos,
partiume a lingua en dous.

e que dicir das magnolias
con m de mágoa
que te asaltan por sorpresa
con esa creación excesiva
de flores pesadas como chumbo,
as linguas ou sexos dos pétalos
murchas antes de abrirse.
Non quero ver magnolias, non
teñen contención, non
son discretas.
Esa paleta de cores carnais
non se acorda coa miña roupa
nin cos mobles do living room.

plataneiro, con p de prender,
con p de pólvora e pincel,
falsos como ningunha árbore,
que levan na codia un mapa
con promesas de viaxes incumpridas.

árbores de inverno,
o último libro que
Sylvia
antes de pousar a cabeza
no acougo enganadizo
do forno de gas.

Marilar Aleixandre, in Abecedario de árbores, 2006

29 setembro 2008

Câmara Clara e PNL

O vídeo da emissão de ontem do Câmara Clara já está disponível no site e vale a pena acompanhar a discussão entre Francisco José Viegas e Isabel Alçada a propósito do Plano Nacional de Leitura. Com o avançar da conversa, percebe-se onde é que as coisas se separam: para Isabel Alçada, o importante é que os miúdos leiam, porque só assim podem ganhar hábitos de leitura. Certo. Mas FJV levanta a problemática das escolhas, questionando, de um modo mais ou menos directo, os critérios que presidiram à definição das listas do PNL. Isabel Alçada assegura que não há livros mal escritos ou com erros. FJV insiste na necessidade de se pensar noutros critérios. E o espectador, pacatamente sentado no sofá, percebe que não houve outros critérios, ou pelo menos outros critérios directamente relacionados com a existência de um cânone, quando Isabel Alçada pergunta 'E quem é que define esse cânone?', desvalorizando o peso dos clássicos e a selecção do tempo e contrapondo à presença do cânone numa escolha do tipo do PNL a importância de dar a ler tudo, para os miúdos lhe ganharem o gosto. Subjacente a isto, e não radicalizando demasiado a qualidade do que se dá a ler (o que implicaria impedir, ou evitar, leituras menos boas, e isso parece-me obviamente pouco produtivo) fica uma ideia muito pobre do que subjaz à promoção da leitura e uma dúvida: se os miúdos só lerem manuais de instruções da Playstation até aos dez anos serão capazes de, algum dia, ler qualquer outra coisa? É uma leitura como qualquer outra, pelo que, seguindo esta lógica, devia estimular o gosto e o hábito de ler. Estimulará? Do mesmo modo, um miúdo que cresce sem qualquer acesso (adaptações incluídas) aos 'clássicos' (sim, os do cânone), algum dia terá capacidade para os ler?

Da censura

Philip Pullman, que viu o seu livro The Golden Compass sofrer várias ameaças de proibição em bibliotecas norte-americanas, escreve sobre a experiência, os motivos e os efeitos da censura. Para ler aqui, no Guardian on-line.

26 setembro 2008

V. S. Naipaul na Gulbenkian

No âmbito da exposição «Weltliteratur - Madrid, Paris, Berlim, São Petersburgo, o Mundo!», qua inaugura na próxima terça-feira na Fundação Calouste Gulbenkian, o escritor V. S. Naipaul virá a Lisboa para participar no ciclo de conferências que decorrerá em paralelo (entre 1 de Outubro e 17 de Dezembro).
A exposição, comissariada por António M. Feijó, estará aberta ao público até ao dia 4 de Janeiro de 2009.



Fonte: Diário Digital

Bibliofilias


No Leilão Ameal. Crónicas Amenas de uma Livraria A Menos
Matos Sequeira
Letra Livre, 2008

A inaugurar a colecção 'Bibliofilias', a Livraria Letra Livre reeditou No Leilão Ameal. Crónicas Amenas de uma Livraria A Menos, de Matos Sequeira (originalmente publicado em 1924). Os apontamentos cronísticos sobre o ambiente dos leilões lisboetas de livros no início do século XX ensinam tanto como divertem, expondo as manhas e os rituais dos bibliófilos, as angústias que se sucedem à compra, por outra pessoa, do livro desejado e os habitués da bibliofilia.
Aqui ficam dois pequenos excertos:

"É ainda o Sr. Potter - a quem um dos assistentes chama o Potter das Almas - quem arremata a Corographia, do padre Carvalho, por 510$00. O Dr. Perry Vidal, como não consegue comprar nada, atira com os livros para cima da mesa e entorna cinzeiros. É um verdadeiro ciclone!
Chega a vez de Camilo. Alerta, camilianistas! São só quatro obras: as Folhas Cahidas, a Historia de GAbriel Malagrida, a Maria! não me mates! e o Matricidio sem exemplo. Todas elas não chegaram a 230$00. E acabou-se." (pp.20-21)

"O Estado ainda não arrematou um único livro, nem sequer tem comparecido. Falta de verba? ou não haverá na livraria obras que o interessem?" (p.55)

Livros sem censura

Os ecos do documentário Obscene, de Neil Ortenberg & Daniel O'Connor, sobre a vida e a obra de Barney Rosset, editor da Grove Press e da Evergreen Review, chegaram esta semana ao New York Times. Dos problemas com a justiça puritana que não gostou de ver Henry Miller ou D.H. Lawrence em letra de forma, até à condecoração do National Book Foundation, que receberá em Novembro, pela sua luta pela liberdade de expressão, a vida de Barney Rosser guarda muitas histórias, nem todas tão conhecidas como estas.
Virá ao Doc. Lisboa?


Na imagem, Barney Rosset com Samuel Beckett, em Paris, 1956
(retirada da Syracuse University Library)

25 setembro 2008

Da Galiza II

Cociño a todas horas para precipitar os alimentos crus
nos abismos da pota. As galletas maría
(sutilmente esmagadas)
engordan (disque) a salsa de tomate.
Non dispoño de método pero exhumei un libro de receitas
que parece un compendio do universo.
Da natureza dixo galileo
que era un grande tecido (calceta, macramé)
e o papel de cebola serve para calcar os versos que nos gustan.
Sempre a cebola tarda (tremede, lacrimais) en desfacerse,
por iso é o primeiro que se bota.
Nos queimadores, en cuestión de segundos,
o lume ocupa o lugar da indiferencia.

María do Cebreiro, in O Estadio do Espello, Edicións Xerais, 1998

24 setembro 2008

Notas de Praga (Agosto 08) IV

Um eléctrico fotogénico deixa-me a poucos metros do Mosteiro de Strahov, um pouco acima do plano médio da cidade, de um lado casas, do outro bosque. Fundado no século XII e várias vezes reconstruído e acrescentado, o principal interesse de Strahov não está tanto na arquitectura, ou nos monges que ainda habitam o mosteiro (e que passaram ao longe, quando o sino tocou, numa revoada apressada de hábitos brancos), mas na sua biblioteca, dividida pelas Salas Filosófica e Teológica. São mais de oito séculos de livros, com predominância de textos religiosos e teológicos, estudos de biologia, astronomia e física, as obras dos grandes filósofos e alguns antifonários para o acompanhamento das diferentes horas monásticas. Em qualquer das salas, a visão é impressionante, de um modo que as imagens nunca poderão explicar. O silêncio e o facto de as salas estarem vazias de qualquer presença humana, contrastando com a riqueza que se adivinha por detrás das lombadas, criam uma solenidade difícil de descrever. Para além da beleza das estantes, dos tectos, dos objectos e do mobiliário, creio que a solenidade advém tanto da presença dos milhares de livros como da impossibilidade de nos aproximarmos deles. Por razões de preservação patrimonial, os visitantes têm o acesso restrito à porta de ambas as salas, de onde podem contemplar a imensidão bibliográfica. E isso, apesar de compreensível, cria uma angústia que só a visão da beleza de ambos os espaços serena um pouco. A vontade de entrar, folhear os livros, passar algum tempo a elaborar um plano meticuloso de leitura e estudo, mesmo sabendo que o tempo de vida útil não chegaria para todas as espécies presentes, persiste. E persiste do modo mais egoísta, porque o que se deseja é fazer tudo isso sem os grupos que constantemente se aproximam das portas, apontando para os globos e as estantes e falando alto. O que se deseja, ao fim de alguns minutos de contemplação, é deixar as pessoas saírem e ficarmos nós ali, no silêncio do mosteiro vazio, com a luz que se quebra nas janelas, percorrendo prateleiras e escolhendo leituras.


Sala Filosófica


Sala Teológica

(As imagens são retiradas de postais)

23 setembro 2008

Dose dupla II

Na quinta-feira, às 18h30, a FLAD prossegue o ciclo 'Asas Sobre a América', onde Rui Zink falará sobre Saul Bellow.

No mesmo dia, às 21h30, a Casa Fernando Pessoa recebe mais uma sessão dos Livros em Desassossego, desta vez sobre o 'efeito Nobel', a propósito do décimo aniversário da entrega do Nobel da Literatura a José Saramago. Participam o professor universitário Carlos Reis, o crítico e escritor Miguel Real e o editor Zeferino Coelho (Leya/ Caminho). Para além disso, João Tordo apresentará o seu mais recente romance, As 3 Vidas (QuidNovi). Moderação a cargo de Carlos Vaz Marques.

Dose dupla

Mais logo, pelas 18h30, Manuel Alberto Valente assinala o lançamento do primeiro livro da recente Divisão Editorial Literária de Lisboa da Porto Editora, chancela que coordena. As Esquinas do Tempo, de Rosa Lobato Faria, será apresentado por Rodrigo Guedes de Carvalho na Fundação Medeiros de Almeida, em Lisboa.

E às 21h30, na Pó dos Livros, Fernanda Câncio, Rui Tavares e Pedro Mexia debatem a crise financeira norte-americana e a crise politica europeia com João César das Neves, em mais uma sessão 'Nãõ Perca os 3'.

22 setembro 2008

VVAA, Cabeça de Ferro, Imprensa Canalha



Desde o início da sua actividade, em 2006, a Imprensa Canalha tem sido responsável por edições que congregam a minúcia no ofício de fazer livros e a vontade de atribuir visibilidade a um conjunto de autores que, circulando entre a banda desenhada e a ilustração, começam a configurar um caso raro de coerência artística e programática, sem com isso perderem a afirmação das suas vozes individuais.
Com a participação de dezasseis autores, Cabeça de Ferro é uma antologia gráfica sobre a Revolução Industrial. O prefácio do arqueólogo Luís Luís é elucidativo do programa que orienta o volume: não se trata de reunir versões historiográficas através da banda desenhada ou da ilustração, mas antes de reflectir sobre um dos momentos de viragem da História a partir do seu carácter fundacional. Nesta antologia, as marcas da mudança introduzida a partir do século XVIII não se associam ao simples deslumbre pela inovação tecnológica, mas antes incorporam nessa enorme mutação da sociedade a marca intemporal de todos os vícios e virtudes que configuram a natureza humana. É dessa perspectiva comum que os artistas partem para a construção de imagens ou sequências, ainda que cada um o faça de modo individual.
Por entre as várias colaborações, que incluem nomes como Filipe Abranches, Pedro Burgos, José Feitor ou Richard Câmara, a de Dr. Orango constitui um ponto de vista revelador da abordagem que todo o livro configura. São dez pranchas em sequência alternada: de um lado, num registo composto por silhuetas, encena-se o advento do automóvel no quotidiano, primeiro como raridade de luxo por entre carroças puxadas a cavalo e senhoras de sombrinha passeando a pé, mais tarde como elemento essencial e omnipresente, sufocando todo o espaço imagético disponível ao mesmo tempo que os desastres se multiplicam numa inevitável violência; do outro lado, com traço e pormenores definidos, a evolução da indústria automóvel e de tudo o que se lhe associa, das linhas de montagem à aglomeração de carcaças metálicas em lixeiras. Entre o quotidiano de seres humanos concretos e as implicações sociais, económicas e políticas de uma mudança fundadora, o embate deixa marcas sobre as quais importa reflectir.

Sara Figueiredo Costa
(Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso, 30 Agosto 08)

Literatura Infanto-Juvenil em Fórum

A iniciativa é da Bruaá e pretende juntar todos os que, de modo mais ou menos directo, se relacionam com a literatura infanto-juvenil (incluindo os que não acreditam muito na adequação desta 'etiqueta'...). O Fórum da Literatura Infanto-Juvenil está alojado aqui e quer ser um espaço animado de discussão e troca de informações em torno do tema.

Philip Roth aos 75 anos

Com o novo livro, Indignation, já disponível nas livrarias, Philip Roth conversa com Robert McCrum sobre o seu trabalho, a disciplina da escrita e o tempo que passa.

"Similarly, Roth can't quite believe his age. 'I'm 75, a strange number,' he volunteers. 'It's a strange discovery, for me at any rate. In your early years you don't go to funerals every six months.' Among his peers, there has been a steady winnowing: Arthur Miller, George Plimpton, Kurt Vonnegut, and most recently, Norman Mailer. These were not all close friends, but he knows he's playing in injury time."

Para ler na íntegra, aqui.

Machado de Assis

Cem anos depois da morte de Machado de Assis, a Fundação Calouste Gulbenkian e a Missão do Brasil Junto à CPLP organizam um colóquio internacional sobre a sua obra.



O programa completo está disponível aqui.

21 setembro 2008

Crónicas do Baú IV

       Com algumas memórias ainda frescas de manifestações e assembleias estudantis, e com dedicações mais recentes a outros movimentos, ficaria bem começar esta crónica falando da influência de algumas leituras ‘revolucionárias’ na minha formação juvenil precoce, do Pequeno Livro de Marx Explicado aos Pequeninos ou da infância passada às cavalitas de alguém entre o 1º de Maio e uma qualquer reunião. Mas seria mentira, claro. Em 68 ou em 74 eu não existia. Isso custou-me durante alguns anos, sobretudo durante as manifestações, e às vezes ainda acho que perdi o melhor da festa, mas nada a fazer. E o meu Capital, Livro Vermelho ou Revolução Permanente chamou-se Os Sótãos Furados e hoje, quando penso nisso, concluo que talvez tenha ficado melhor servida. Desde logo, porque aprendi mais cedo que o esperado que havia palavras portuguesas com dois acentos. Pode parecer pouco, mas para quem tinha o fascínio das letras e a vontade de querer escrever sem mácula (mais do que 0 erros nos ditados costumavam deixar-me à beira da depressão, o que, vejo agora, devia fazer de mim uma miúda um bocado chata, facto apenas compensado por saber jogar bem à bola), era uma conquista. Mas centremo-nos nos sótãos.



       Na colecção ‘Picapau’, da Verbo, que tinha começado a ler há um ou dois anos, o volume de Os Sótãos Furados foi dos últimos que li. Talvez porque tinha uma única história, em vez das habituais três ou quatro, e eu achasse que livros com uma só história eram exclusivo de outras colecções (como a do Círculo de Leitores, onde tinha lido O Feiticeiro de Oz), achei sempre que aquele livro não fazia parte dos outros e tratei de o deixar de lado. E quando finalmente lhe peguei, não podia prever o efeito. Para quem não conheça o texto, a história de Os Sótãos Furados é a de duas crianças que vivem numa rua muito parecida com aquele em que eu vivia, com a diferença de terem acesso (e exclusivo, ainda por cima) ao sótão do seu prédio, local de brincadeiras e leituras várias. Foi assim que, nas primeiras páginas, tudo o que o livro conseguiu produzir em mim foi um enorme sentimento de inveja, coisa pouco saudável se pensarmos na ideia bonitinha de crianças leitoras que aprendem as coisas boas da vida nas páginas que lêem, mas talvez muito saudável se não acharmos que a leitura ‘serve’ para isso. E para mim, naquela altura, os livros não tinham ‘serventia’; estavam lá, guardavam mundos que eu queria conhecer, faziam medo, desafiavam, obrigavam-me a abrir os olhos e a procurar. Seria isto algo parecido com aquela ideia dos livros que nos salvam, mas felizmente só mais tarde vi a coisa desse prisma, o que me garantiu alguma sanidade mental. Assumida a inveja, até pela impossibilidade de ocupar o sótão do meu prédio (ocupado por um casal sui generis: ela, de voz potente e desbragada, capaz de dizer um chorrilho de palavrões enquanto a minha mãe ainda estava a pensar no gesto de nos tapar os ouvidos, ele, fumador compulsivo de ‘mata-ratos’, com dois cães anões de chocalho ao pescoço que o acompanhavam para a caça – como é belo o nosso Portugal, da serra ao subúrbio – e que obrigavam todos os vizinhos a tomarem conhecimento da madrugada em que a época dos tiros se iniciava), passei adiante. Numa tarde de brincadeiras, os dois irmãos ouvem uma pancada na parede, seguida do aparecimento de um par de olhos no fino tabique que delimitava o seu espaço. Ao lado desse sótão, um outro, igualmente território de uma criança. Uniram-se os dois primeiros sótãos por acidente, mas o movimento que daqui surgiria havia de revolucionar a rua inteira! Em dias sucessivos de adrenalina infantil, os miúdos deram cabo das paredes que os separavam do vizinho, descobrindo mais vizinhos da mesma idade e as vantagens de brincar em grupo. No fim do livro, a rua inteira tem uma fileira de sótãos unidos por portas improvisadas, na sequência de assembleias para tomar decisões e de arriscadas operações em segredo, para os pais não darem cabo da festa. E claro que no último sótão se revela uma descoberta, envolvendo o velho que vende balões na rua, mas isso na altura não pareceu nada previsível, o que só confirma que há livros que nos podem mudar a vida, desde que lidos na altura certa.
       Olhando para este enredo, e mesmo não fazendo a menor ideia de quem seja Maria do Carmo de Almeida, é óbvio que tudo isto cheira a cravos e a boas intenções para com a infância no fervor revolucionário pós-Abril. Afinal, se a festa tinha sido bonita, pá, para toda a gente, os putos também tinham direito ao seu quinhão, nem que fosse de sótãos ocupados e ruas libertadas do cinzentismo dos prédios e dos trabalhos de casa a horas certas. Só que eu, com oito ou nove anos e sem sótão para ocupar, ainda não tinha tido a minha revolução. E queria uma. Faltavam-me, é claro, os soldados do MFA e o povo disposto a lutar, mas tinha a minha cadela Joana, e isso superava todas as organizações. Se eu e a Joana, sem a ajuda de ninguém, fazíamos tanto estrago, era mais do que certo que aquela revolução estava ganha. Nessa altura, o passeio da tarde com a Joana pela trela estava por minha conta e isso garantia-me a ocasião e os reforços necessários. E foi assim que começámos (está bem, comecei eu) a observar o topo dos prédios do Monte Abraão com a atenção de um falcão. Com um levantamento satisfatório dos prédios cujas portas fechavam mal, passámos à segunda etapa e lançámo-nos, escadas acima, até aos últimos andares. E nessa altura aprendi duas coisas sobre os prédios suburbanos: primeiro, que a maioria dos pequenos caixotes de cimento que se vislumbravam do lado de fora com toda a pinta de serem um sótão pronto a ocupar eram, apenas, a caixa do elevador; segundo, que os sótãos propriamente ditos estavam invariavelmente trancados. E aqui, o fervor revolucionário foi esmagado num instantinho pelo peso da responsabilidade, e pelo pavor de imaginar a reacção materna quando descobrisse que eu – com a Joana pela trela – andava a invadir a propriedade alheia. Depois de alguns meses desta dura clandestinidade e da indecisão sobre entrar ou não entrar pelas portas trancadas, lá contei o plano à minha irmã, que conseguiu pôr-me algum juízo na cabeça, explicando que os sótãos serviam de arrumação, que as pessoas os trancavam e que dificilmente haveria miúdos a brincarem lá dentro. E eu cedi, nada convencida, e ainda reli o livro umas duas ou três vezes, na esperança de viver no texto aquilo que não podia viver de facto. E depois ainda cultivei a infelicidade de não ter um sótão durante mais algum tempo, antes de passar a outras empresas, e imagino que a minha irmã terá sentido algum alivio por não ver a sua irmã mais nova enredada nas teias do crime à conta de uma senhora que só queria escrever histórias edificantes para os petizes. Pela minha parte, estarei eternamente grata à Maria do Carmo de Almeida. A minha revolução dos sótãos ficou por cumprir, mas a disponibilidade para, às vezes, deitar uma ou outra parede ao chão ainda cá anda. E o único velho de barbas que começou tudo isso foi mesmo o velho dos balões.

20 setembro 2008

Leituras de fim de semana

No Guardian, Christopher Tayler escreve sobre David Foster Wallace.
E no Telegraph, o dossier semanal é dedicado aos vilões da literatura.