18 setembro 2008

Da Galiza

"Hipopótamo (babilonio)"

Ser un pousón. Ter mundo (subacuático).
Pousón do subacuático, animal de pel mol,
un animal con paxaros no lombo
(no pouquiño do corpo que levanta das augas).

Estar no río (a cousa heraclitana) a catro patas.
Te-las orellas a rentes das augas,
tirar por veces as ventas das augas.
Vivir na lama.

-Je suis l'hipopotame, le veuf, l'inconsolé,
le prince ad aquas, Taine a la tour abolie.


Manuel Outeiriño, in Deposito de Espantos, Edicións Positivas, 1994

NOTA: Esta será, a partir de hoje, uma rubrica frequente neste blog, com o intuito de divulgar alguma da melhor literatura galega, recente e não só. Discussões ortográficas à parte, que eu também tenho as minhas opiniões sobre a norma vigente para o galego e o reintegracionismo, mas esse não é um tema sobre o qual se decida de ânimo leve, os textos serão reproduzidos tal e qual como foram publicados.

17 setembro 2008

Outros modos de arrumar as estantes

Títulos, autores, géneros, cores... Ou então, organizar as lombadas de modo a que os livros falem connosco.

Livros de Bolso

Muito brevemente, a Leya terá uma colecção de livros de bolso nas livrarias e em vários espaços comerciais do país. Chama-se Bis e entre clássicos, contemporâneos, portugueses e estrangeiros, imperdíveis e de sucesso, há títulos para todos os gostos e a escolha parece acertada, sobretudo tendo em conta a disponibilidade dos catálogos das várias editoras agora unidas sob a mesma chancela.
Mas o nome... Com tantos nomes, expressões, siglas, acrónimos e marabalismos linguísticos possíveis em português, não se arranjou nada menos parecido com a BI (a colecção de livros de bolso, precisamente, que resultou da cooperação entre a Assírio & Alvim, a Cotovia e a Relógio d'Água)?

16 setembro 2008

Tudo o que uma capa pode dizer

No Bookseller, um artigo de Simon Creasy dá conta de algumas diferenças essenciais entre as capas de livros feitas nos EUA ou no Reino Unido. Para ler aqui e descobrir (ou confirmar) que há coisas que a velha Inglaterra não tolera mudar... E quanto a mim, olhando para alguns exemplos de capas, ainda bem.

15 setembro 2008

Arrastados

Ainda não se conhecem os contornos do processo, estando por apurar se o arrasto do Pedro Sales e do Pedro Vieira para o blog do Daniel Oliveira foi violento e de arma em punho ou pacífico. Mas o certo é que eles já lá estão e o Arrastão é agora um blog colectivo, ainda por cima cheio de opções que aproveitam bem as novas (ainda se podem chamar 'novas'?) tecnologias e com uma tal 'Santa Aliança' - um agregador de blogs que podem ser acompanhados numa mesma página - que inclui este modesto Cadeirão entre uma série de outros blogs sobre política e cultura escritos por gente de esquerda. Deixemo-nos arrastar, que a coisa promete animar.

O caderno de Saramago (ou o dia em que Saramago chegou à blogosfera)

Com a notícia da conclusão do seu próximo romance já para trás, José Saramago acaba de inaugurar um espaço mais pessoal no blog da Fundação com o seu nome. Intitulado 'O Caderno de Saramago', as suas páginas abrem com a redescoberta, entre papéis velhos, de um texto sobre Lisboa que o autor partilha com os leitores. Ao texto propriamente dito, segue-se uma montagem vídeo que selecciona excertos do texto e muitas imagens sobre Lisboa, com a companhia sonora de Carlos Paredes. Se a anunciada disciplina do autor de O Ano da Morte de Ricardo Reis se concretizar, temos blog!

Novidades Quasi

Vêm aí Férias de Agosto, de Cesare Pavese, Poemas Escolhidos, de Elio Pecora, Pequena Enciclopédia da Noite. 50 Poemas, Carlos Nejar e Os Esquilos de Long Island, de Jorge Reis-Sá. São as propostas da Quasi para a rentrée que ainda não se instalou.

Leituras

No Guardian, Ruth Rendell escreve sobre Conan Doyle e Sherlock Holmes. Para ler aqui.

12 setembro 2008

Isabel Minhós Martins e Bernardo Carvalho, O Mundo Num Segundo, Planeta Tangerina



       A arrumação dos livros em categorias etárias de recepção poderá garantir algumas vantagens didácticas e de mercado, mas tende igualmente a eliminar as particularidades que fazem de cada livro um objecto único e de cada conteúdo, verbal ou pictórico, um universo, aberto a outros universos. Um álbum ilustrado é um álbum ilustrado; nem é mais fácil de ler porque tem imagens, nem se destina exclusivamente às crianças que ainda não conhecem as letras, e sobretudo não recorre à ilustração como mero acrescento visual ao texto. O Mundo Num Segundo, de Isabel Minhós Martins e Bernardo Carvalho, é um bom exemplo de um trabalho autoral em torno do objecto livro que procura acentuar a harmonia entre texto e imagem (de tal modo que a dependência se torna mútua e equivalente), criando um livro que se desenvolve a partir de um conceito narrativo e visual ancorado numa certa deriva filosófica. O livro apresenta um percurso por diferentes partes do mundo, com os fusos horários por referência (apresentada nas guardas finais, sob a forma de um planisfério) e uma amostra da imensidão de acontecimentos que fazem da vida uma narrativa indefinível, mas passível de aproximações – textuais, interpretativas, visuais... –, como esta. No centro, a subversão de duas categorias essenciais: o tempo, suspenso, e o espaço, sequencializado, estruturam esta narrativa, com as cenas a remeterem para o momento exacto da suspensão temporal (a bola que voa em direcção a uma janela, na Grécia, mostra-se estacada em pleno voo, um pouco antes de partir, ou não, o vidro) e a sua sucessão a marcar o ritmo compassado de um percurso pelo globo.
       O acto de percorrer o planisfério associa-se à sequência, convocando uma leitura que, podendo fazer-se a diferentes níveis, permite várias respostas à indagação sobre o mundo e a infinitude de coisas que acontecem em simultâneo. Independentemente do leitor e da sua idade, a inquietação prevalece e O Mundo Num Segundo constrói uma visão do mundo enriquecida por pormenores e pequenas histórias possíveis dentro da estrutura principal, abrindo a leitura a um potencial de visões, muito para lá da simplicidade com que, por vezes, se encaram os livros ilustrados.

Sara Figueiredo Costa
(Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso, 9 Agosto 08)

11 setembro 2008

A alma de cada cidade: um post de felicitações

Conheço poucas cidades estrangeiras (e tenho pena), mas em todas as que já visitei ou onde estive algum tempo há sempre uma ou mais livrarias a definirem os momentos que a memória decidiu guardar.
Londres será sempre Londres, é claro, mas as ruas onde passeei, os museus que vi, os pubs onde bebi e conversei, todas as memórias que guardo da cidade seriam pobres sem incluir nelas as livrarias da Charing Cross, aquela loja de banda desenhada perto do British Museum e um certo alfarrabista que me levou à ruína. E nem é preciso pensar tão alto. Qualquer habitante de Serpa, Montemor-o-Novo ou Braga sabe que as suas cidades não seriam as mesmas sem o espaço, os serviços e o convívio da Vemos, Ouvimos e Lemos, da Fonte de Letras e da 100ª Página. Parece um pormenor insignificante, mais uma livraria, menos uma livraria, mas apenas para quem não sabe que os livros nos podem mesmo salvar.
E todo este solilóquio vem a propósito de quê? Do primeiro aniversário da Pó dos Livros, cumprido ontem sem grande alarido. Quem conhece o local sabe do que falo. Quem não conhece, tem de estar consciente do que anda a perder. As Avenidas Novas já tinham alguns locais dignos de ocupar um espaço privilegiado na relação de cada um com Lisboa, é certo. No meu caso, a Gulbenkian, a FCSH e o Nimas serão sempre locais que me fazem pertencer à cidade onde vivo e dos quais guardo memórias que me definem. Mas, e livrarias? Sim, houve a Arco-Íris, mais marcante pela ampla oferta bibliográfica que tinha e pelo serviço de encomendas de livros ‘académicos’ do que pelo espaço acolhedor (para quem não se lembre, ficava dentro de um centro comercial algo decrépito) ou pelo ambiente. Houve também a Tema, que durou pouco tempo, e que eu conheci mal, apesar dos conselhos sempre sábios do meu amigo Rui. E há a Bulhosa, mas fica fora do raio sentimental que o meu mapa estabeleceu e já não tem o interesse de há dez anos, quando havia fanzines e livros de poesia com tiragens limitadas, livreiros que conversavam de ser humano para ser humano, e não de vendedor para cliente (agora não sei como estará, mas há poucos anos era assim e não era bom) e o Olímpio, sempre com um livro ou muitos para aconselhar. Essas Avenidas Novas deixaram de ser o meu espaço afectivo quando mudei de casa e de vida, passando a habitar o território nostálgico da memória, e isto apesar de visitas constantes. Quando a Pó dos Livros abriu, começou uma nova vida para as ruas onde em tempos passei parte considerável dos meus dias. O espaço, acolhedor, a selecção de livros, exigente e completa, e a disponibilidade de quem lá trabalha, tanto para os serviços que se esperam de uma livraria como para a conversa em torno dos livros, fizeram daquele lugar uma livraria 'a sério'. Não é um lugar onde vamos comprar um livro concreto nem o sítio onde podemos encomendar livros estrangeiros, embora possamos fazer ambas as coisas; é um espaço com identidade, uma loja que, adivinhamos na primeira visita, guarda tesouros, revelações, portos seguros e até desilusões. Os livros da Pó dos Livros podiam bem estar quase todos na estante de nossa casa, e até as estantes podiam estar em nossa casa, bem como o sofá, os candeeiros ou os pequenos objectos que se espalham pelas prateleiras, marcando pontos aleatórios como as afinidades que vamos estabelecendo com algumas páginas lidas. Os livros que nos salvam são, ali, uma realidade tangível e é isso que faz da Pó dos Livros uma livraria 'a sério'. Não tem figuras recortadas de escritores famosos em tamanho natural nem os livros todos que saíram para o mercado na última semana. Tem livros velhos, já usados, fundos de edição que esperam pelo leitor que os vai resgatar do esquecimento dos anos e livros de que os jornais não falaram. Tem alma, seja lá o que isso for. Como o tal alfarrabista da Charing Cross, a velha Leitura do Porto ou a Couceiro, em Santiago de Composela, ali tão perto da padaria com os melhores palmiers de chocolate do mundo, com o Alexandre e o Damián a discutirem se o melhor para o futuro do galego seriam as terminações em –ión ou em -om... E como outras livrarias que Lisboa vai vendo aparecer ou que ainda preserva. Mas é esta que faz anos e, recostada no Cadeirão, aqui lhes deixo um brinde e votos de prosperidade (e para a semana passo lá para resgatar o meu Kurt Vonnegut novo-velho, pode ser?).

Notas de Praga (Agosto 08) III

Em frente ao hotel, a montra com livros velhos e ex-libris que parecia pertencer a uma tipografia revela-se, afinal, um alfarrabista. E onde eu esperava encontrar o chumbo dos tipos, as velhas máquinas e, sem pedir muito, um tipógrafo checo fluente em inglês ou francês para me contar algumas histórias do ofício (aqui já se desenhavam na minha mente histórias possíveis de clandestinidade, folhetos de resistência ao velho regime impressos no escuro da tipografia e outras imagens românticas do mesmo calibre), encontro o corredor de um pátio cheio de caixotes de bananas Chiquita (juro) oferecendo livros a 5 coroas.



Mesmo sem saber nada de checo, a imagem redime o apagamento do alfarrabista da Karlova e não é difícil reunir alguns álbuns ilustrados, um livro de culinária com ilustrações da velha escola e um volume dos anos 40 que será, pelas partículas morfológicas que consigo identificar no título, uma história da literatura checa. Nunca se sabe se um dia vou saber lê-lo e, além disso, o livro é muito bonito. Sem saber muito bem onde pagar os livros escolhidos, desço as escadas que se seguem à única porta aberta no pátio e deparo-me com uma cave de chão de pedra e estantes até ao tecto. O cheiro a pó não engana e a minha pulsação também não: um relance sobre aquela versão organizada do caos confirma que ali há livros sobre muitos temas, mesmo que eu não consiga ler a maior parte deles. Cumprimentando o alfarrabista, pergunto-lhe pela ilustração checa, em particular a infantil, um dos motivos da minha demanda bibliográfica em terras de Praga, e logo três estantes indicadas com simpatia se oferecem à minha cobiça. Josef Lada, Josef Capek e um álbum dos anos 40 ilustrado por Jaroslav Vodrazka, que não conhecia, juntaram-se aos livros dos caixotes. Agora faltava apenas descobrir como encaixar tantos volumes na mala de viagem, e lutar contra a angústia de alguém a perder entre porões e carrinhos de carga.

10 setembro 2008

Novos contos de E. Annie Proulx



Enquanto se espera pela tradução portuguesa (alguém avança?), a crítica do Telegraph destaca alguns aspectos desta nova colecção de contos da autora de Shipping News, Crimes do Acordeão (ambos na Cavalo de Ferro) ou Terreno Vedado (Bico de Pena).

09 setembro 2008

VVAA, Venham + 5, Bedeteca de Beja



       Depois de quatro números em registo de fanzine, poucas páginas e um só caderno alçado, o Venham + 5 regressa em formato livro, numa edição cuidadosamente paginada que assinala os três anos de actividade da Bedeteca de Beja. O volume, editado por ocasião do último Festival Internacional de Banda Desenhada de Beja (FIBDB), configura uma panorâmica bastante completa da banda desenhada portuguesa contemporânea e das suas relações com artistas estrangeiros que são presença habitual no FIBDB.
       Como se lê na apresentação, a escolha dos autores baseou-se mais na cumplicidade construída ao longo destes três anos do que em qualquer outro critério. O resultado é revelador, apresentando desequilíbrios óbvios ao nível do domínio da linguagem, da mise en page e do traço, com trabalhos de artistas consagrados e contributos mais ingénuos, alguns deles ainda presos a uma aprendizagem que se adivinha no início. Mas se esse seria um elemento de fraqueza numa antologia baseada em critérios de representatividade e excelência, não o é num volume que procura reunir a imensa constelação de autores que tem mantido relações com Beja, sobretudo porque as escolhas do FIBDB são, na generalidade, exemplares e de grande qualidade formal.
       Entre os 58 autores participantes, com trabalhos maioritariamente inéditos, a variedade temática e de registos é extensa. Há presenças menos regulares fora da auto-edição, como Teresa Câmara Pestana ou Maria João Worm – que apresenta duas pranchas de lirismo acentuado, buriladas na exigente técnica da linogravura –, nomes seguros e de reconhecimento pleno por um público mais vasto, como Miguel Rocha, David Rubin, José Carlos Fernandes – regressando a um registo que remete para o início da sua actividade – ou Lourenço Mutarelli, e contributos de autores fulcrais na cena portuguesa, independentemente da sua notoriedade, como André Lemos, Filipe Abranches ou Pepedelrey. E cumprindo, também, uma certa visão de futuro, importante em volumes antológicos como este, registam-se algumas confirmações, entre as quais é imprescindível destacar a de Susa Monteiro, de quem se ouvirá falar, com toda a certeza, nos próximos anos da banda desenhada portuguesa.

Sara Figueiredo Costa
(Texto publicado no suplemento Actual do jornal Expresso, 5 Julho 08)

Textos Expresso-Actual

Em Julho, na sequência de um convite feito pelo José Mário Silva, iniciei a minha colaboração com o suplemento Actual, do Expresso, escrevendo sobre banda desenhada e ilustração, área à qual me dedico há já alguns anos e sobre a qual vou escrevendo aqui, entre outros sítios. Quando saiu o primeiro texto, decidi disponibilizá-lo no Beco das Imagens e não aqui, visto que o tema se adequava melhor. Mas a verdade é que, sendo este um blog sobre livros e leituras, e não acreditando eu em compartimentos estanques (que, no caso da banda desenhada e da ilustração, de modos diferentes e por motivos diversos, são sempre muito alimentados, sobretudo pelos seus ‘fãs’ – nem sempre os seus melhores leitores, diga-se), pareceu-me que poderia colocá-los também aqui, o que farei de seguida. E assim, os textos que vou publicando ficam todos arrumados no mesmo sítio.

08 setembro 2008

Notas de Praga (Agosto 08) II

Na Rua Karlova, o alfarrabista que merecera tantos elogios do autor do guia American Express já não existe. No seu lugar encontra-se agora uma ourivesaria ampla e luxuosa, mas o brilho dos ouros não me causa qualquer faísca no olhar e acabo por deixar a rua com o pensamento ancorado nas longas filas de livros que ali moraram um dia.
Noutros pontos da cidade, como a Nerudova ou a zona de Kampa, encontro alguns alfarrabistas, mas a promessa agora impossível de cumprir do paraíso anunciado da Karlova ficou definitivamente fora do meu alcance e é como se a cidade que visito tivesse perdido para sempre uma parte vital da sua essência.

Novas na rede

Já está on-line o novo portal PNET dedicado à literatura. A coordenação é de Luís Carmelo e as colaborações regulares contam, entre outros, com Almeida Faria, Jorge Reis-Sá e Gonçalo M. Tavares. Segue já para a barra dos links.

Encontros felizes III



Por entre livros sobre a reforma agrária e a luta de classes, com alguns romances e ensaios à mistura, lá estava ele.

Nos bastidores do Booker Prize

Um elemento do júri das várias edições do Booker Prize conta como aconteceu a escolha do vencedor. Para ler aqui.

05 setembro 2008

Leituras

Na edição on-line do Telegraph podem ler-se alguns excertos do livro More About Boy: Roald Dahl's Tales from Childhood, de Roald Dahl, publicado esta semana com chancela da Puffin.

João Pereira Coutinho, Avenida Paulista, Quasi Edições




       As crónicas de João Pereira Coutinho (cronista do semanário Expresso e da Folha de São Paulo) despertam inquietações várias à esquerda (sobretudo) e à direita, por vezes motivadas por antipatia automática e visceral com a personagem que acaba por impedir uma discussão mais clara sobre o conteúdo dos escritos. Claro, há motivos de sobra para embirrações em todos os quadrantes, seja pela veia conservadora, assumida e apregoada, seja pela recusa de valores tão caros a alguns conservadorismos. Mas há sobretudo matéria suficiente para reflectir, muito para além das opiniões de cariz político ou do imediatismo da actualidade noticiosa. Aliás, é quando se afasta dos temas da agenda política que JPC concretiza com maior sucesso o seu próprio programa de escrita, que assume a crónica como um género literário, e dos mais nobres. Não porque os textos sobre a actualidade sofram de alguma mácula na escrita, mas porque neles são mais visíveis a análise e o comentário do que a reflexão sobre a natureza humana e a deambulação pelas leituras, vícios, prazeres e observações de que se alimenta a prosa culta do autor.
       Mas o que importa reter nesta antologia é, afinal, aquilo que perdurará para além de polémicas efémeras: estilo, elegância e uma forte marca autoral. JPC escreve com esmerada dedicação à forma, erguendo raciocínios por vezes inesperados, alimentando uma personagem que esbanja charme e flanerie e prestando frequentes homenagens aos cronistas cuja influência se reconhece de modo sincero na sua escrita, como Auberon Waugh, Paulo Francis ou Jeffrey Bernard. As crónicas de Avenida Paulista, publicadas na Folha de São Paulo entre 2005 e 2008, podem versar sobre os píncaros da fruição estética, sobre temas políticos actuais ou sobre quotidianos e banalidades várias, mas não se encontrará uma linha deslocada, uma palavra prescindível ou qualquer descuido relativamente à elegância com que se podem alinhar frases num texto. E isso não é dizer pouco quando se fala da imprensa actual.

Sara Figueiredo Costa
(Texto publicado na revista Time Out nº45, 5 Agosto 2008 )

04 setembro 2008

Sublinhados XIX

"Foi inútil porque todos sabemos
Foi o teu orgulho
o teu desprezo
que desesperou os esguios e os obesos
Sentiram-se meros instrumentos condenados
à Insignificância do seu tempo Mental
e às suas cruzes e caveiras vivas
isto é ao seu ambiente
que lhes prometia quem sabe a indulgência plenária
por estipêndio do pecado

E tu continuavas a iluminar
a fenda da noite
com o brando fogo das tuas pétalas
talvez já
a começar a fechar-se
e só depois te juntavas
com o áspero sono
debaixo da ponte
ou junto duma fonte
Para lhe ouvir o fio de água
e acordar com ele
a luzir
quase como um haiku"

Alberto Pimenta, Indulgência Plenária (& etc, p.38)

03 setembro 2008

Notas de Praga (Agosto 08) I

Depois do aeroporto, do autocarro e do metro, o primeiro contacto mais descontraído com a cidade dá-se na Praça Velha. E não há melhor forma de nos sentirmos em casa numa cidade do que a descoberta de uma livraria acolhedora que, neste caso funciona como uma espécie de refúgio para escapar à multidão de turistas que se aglomera na praça, esperando pela hora certa e pelo desfilar das figuras do famoso relógio astronómico. A Kafkovo Knihkupectvi, ou Kafka Bookshop, é uma livraria com pé direito baixo, largamente compensado pelo aproveitamento do espaço em comprimento, com longas bancadas cheias de livros e uma secção de arte de fazer inveja. Depois da primeira visita e de um olhar atento à montra e aos livros em destaque, confirmam-se todas as opiniões favoráveis sobre o design checo e o cuidado na elaboração dos livros. Mesmo que não se perceba uma palavra, dá vontade de ficar ali a folhear um livro após o outro, na esperança de que o contacto visual com as letras permita uma súbita compreensão do texto. Tal nunca acontece, claro, mas a experiência não deixa de ser muito boa.

Para quem gosta de 'quizzes'...

Na semana em que começa a segunda parte dos Jogos Olímpicos, por qualquer razão que nunca compreendi, separada da primeira (não seria muito mais lógico e desportivo que os Olímpicos e os Paralímpicos decorressem na mesma altura, permitindo aos atletas trocarem experiências e aos espectadores verem todo o tipo de provas?), os mais versados na bibliografia olímpica podem testar conhecimentos no 'quizz' que o Guardian preparou sobre o tema.

02 setembro 2008

A rentrée: algumas novidades

As Edições Nélson de Matos preparam-se para lançar mais um livro de José Cardoso Pires. Depois do inédito Lavagante, sairá agora Histórias de Amor, publicado pela primeira vez em 1952, cortado pelo lápis azul da Censura e não mais reeditado.

O tão aguardado regresso de Manuel Alberto Valente às lides editoriais, agora com a divisão de Lisboa da Porto Editora, está marcado para o próximo dia 8, com As Esquinas do Tempo, de Rosa Lobato Faria (cujo vídeo promocional pode ser visto aqui).

A Assírio & Alvim voltará de férias com alguns títulos prometedores. Para começar, o regresso da prosa de Miguel esteves Cardoso, com Em Portugal Não se Come Mal. Mas também teremos nas livrarias a correspondência entre Mário Cesariny e Vieira da Silva, com Gatos Comunicantes, Pedro Strecht com A Minha Escola Não É Esta e António Barahona com O Sentido da Vida É Só Cantar.

Na Antígona, destaque para os Crimes Exemplares, de Max Aub, em versão ilustrada por trinta artistas, Os Ventos e Outras Histórias, de Eudora Welty, Bestas de Lugar Nenhum, de Uzodinma Iweala e A Economia Moral da Multidão na Inglaterra do Século XVIII, de E.P. Thompson.

Annemarie Schwarzenbach, Morte na Pérsia, Tinta da China




     Escrito na primeira metade dos anos 30, o diário da viagem de Annemarie Schwarzenbach às terras da Pérsia manter-se-ia inédito até 1995, alimentando o culto gerado à volta da autora. Nascida na Suíça, no seio de uma família rica, Schwarzenbach preferiu o confronto com o mundo e a afirmação dos seus desejos ao recato a que o estatuto social a obrigaria. Fotógrafa, jornalista e escritora, viajou pelo mundo, alcançando regiões onde uma mulher dificilmente sobreviveria por sua conta e risco, e afastou-se da Europa na altura em que Hitler iniciava a sua escalada. A Morte na Pérsia constitui o testemunho de uma dessas viagens, invocando a recordação de viagens anteriores e prolongando os seus sentidos para além do mero registo da passagem pelos locais assinalados.
     Schwarzenbach constrói o seu percurso pela Pérsia alimentando-se de uma estética do trágico, visível no modo como a aridez da paisagem, natural ou humana, se descreve a par das deambulações por entre os demónios da existência. Na imensidão nocturna do deserto, o ruído dos animais, as secretas movimentações das dunas ou a certeza da pesada solidão que se abre para lá das tendas são feitas da mesma matéria verbal que o medo e a ânsia de um destino que a narradora nunca logra encontrar, nem definir. Estruturado como um livro de viagens, a que não faltam descrições de portos, paragens e encontros, Morte na Pérsia é sobretudo o registo verbal de um percurso atormentado, a forma possível de uma procura angustiada e sufocante que é difícil ler sem a remissão constante para a biografia da autora. E apesar disso, esquecendo a biografia e as tentações de uma leitura nela baseada, o texto que agora se traduz em português é, por si só, um registo dilacerante sobre a solidão e a sua consciência, sobre a impossibilidade da fuga e sobre o modo como a distância se apresenta sempre como garantia (vã) de uma saída para as incertezas. Seria um lugar comum, esta fuga de si própria, se houvesse algo de comum na escrita de Schwarzenbach.

Sara Figueiredo Costa

(Texto publicado na revista Time Out nº44, 29 Julho 2008)

01 setembro 2008

De férias, sem lenço nem documento I

A desolação nas praias portuguesas bem pode medir-se pelo calibre das leituras registadas no areal, retrato fiel dos onze meses em que nem nos lembramos dos metros de costa que temos. Em Porto Covo, a da laranja e do pessegueiro, tropeço em dois calhamaços do Dan Brown, partilhados por um jovem casal enamorado (um era a Fortaleza Digital, o outro não consegui ler porque estava sem óculos), vários jornais Sexta, de distribuição gratuita, alguns Correio da Manhã, muitas revistas com páginas repletas de fotografias daquilo a que chamam a vida social dos famosos (e que, com nomes como Bibas, Pituchas e Miquinhas, devem ser famosos na rua deles) e um livro não identificado (uma vez mais, os óculos que, ficando na toalha na hora do mergulho, não permitem focar o que se vai lendo no percurso até à água), mas com uma capa suficientemente limpa em termos de design para me fazer suspeitar que a focagem das letras do título poderia ter salvo as estatísticas bibliográficas do meu Verão. E fica feito o balanço da praia.

Coisas que planeara ler nas férias...



...e que agora transitam para os planos 'até ao fim do ano'.

Regressemos, pois

O mês em que uns dias de férias vão alternando com uns dias de trabalho acelerado (para deixar tudo feito para os dias de férias que se seguirão, que isto de trabalhar sem horários tem muitas vantagens, mas também alguns inconvenientes, sempre agravados em Agosto) já lá vai. Regresso, por isso, ao Cadeirão Voltaire com o ritmo habitual, prometendo para os próximos dias alguns textos que o caderno de notas foi guardando no último mês, os artigos que foram saindo na minha ausência e os espaços habituais sobre livros, edição e outras deambulações livrescas. As novidades que se costumam apresentar na rentrée ficarão para mais tarde, que a preguiça é um bem a conservar e os recomeços sabem melhor com a calma outonal do que com a agitação do início de Setembro.

02 agosto 2008

Pausa sazonal

Durante os próximos dias, o Cadeirão Voltaire fica arrumado a um canto, devidamente coberto com um lençol branco por causa do pó.
Na última semana de Agosto, o regresso está garantido. Até lá, o mais certo é não haver nada para ler por estas bandas.

01 agosto 2008

A biblioteca no quiosque

Ainda não tinha falado dela aqui, o que é injusto, mas falo agora: a pequena biblioteca que o Diário de Notícias está a oferecer às 2º, 4º, 6º, Sábados e Domingos é da responsabilidade das Quasi e constitui motivo mais do que suficiente para voltar a comprar o DN, pelo menos por estes dias. Hoje é dia de O Ingénuo, de Voltaire, amanhã sairá A Morte de Ivan Ilitch, de Lev Tolstoi e, no Domingo, A Peste Escarlate, de Jack London.