10 julho 2008

Maiores de..., o debate continua

Em Inglaterra, o debate em torno da idade das leituras infanto-juvenis prossegue e os oponentes da colocação de uma idade recomendada num sítio visível da capa ou da contracapa dos livros parecem estar a levar a melhor. Para acompanhar aqui.

Pelos escaparates

Se todos os romances juvenis mais ou menos fantásticos apresentados com uma cinta que proclama 'o novo Harry Potter' fossem mesmo 'o novo Harry Potter' havia muito escritor sem saber onde guardar os milhões.

09 julho 2008

Thomas Bailey Aldrich, A História de Um Rapaz Mau, Tinta da China



Dizem as biografias que Mark Twain assumiu publicamente a influência que este livro teve na criação do seu Tom Sawyer, e só não é tremendamente injusto começar por esse facto porque ele pode ajudar a confirmar a importância do trabalho de Thomas Bailey Aldrich, um nome menos sonante que o de Twain, mas cuja leitura mostra bem o quanto a literatura americana deve a este Rapaz Mau.
Publicada pela primeira vez em 1869, já Aldrich se contava entre os escritores reconhecidos da América, A História de Um Rapaz Mau narra os anos da infância de Tom Bailey, alter-ego assumidamente autobiográfico do seu autor, passados na fictícia localidade de Riversmouth. Deixando para trás a Nova Orleães da primeira infância, Tom vai viver com o avô paterno para a enorme casa de família, entregando-se a todas as descobertas que a vida numa pequena cidade, a liberdade concedida por um avô atento mas compreensivo e uma incontrolável tendência para o disparate lhe proporcionam. E onde se esperaria uma aventura juvenil para gáudio dos pequenos leitores de há mais de um século, Aldrich ergue uma notável reflexão sobre a infância, alicerçada na voz de um narrador já adulto que, recordando o seu passado, escreve sobre a ilusão, a consciência do mundo e a inexorabilidade do tempo. A idade adulta do narrador e o modo, tão nostálgico como desencantado, com que olha para a sua infância fazem deste um livro de memórias, muito mais do que um volume de aventuras juvenis, transformando a infância num tempo literário que guarda uma parte importante do que seremos sempre, mas também o momento inevitável em que abdicamos de tudo o que achávamos que permaneceria.
Que A História de Um Rapaz Mau é um dos clássicos da literatura norte-americana, diz-nos a história literária e confirma-nos a sua leitura; que a edição portuguesa nos tenha chegado, tão cuidada, pela Tinta da China, na belíssima colecção dos livrinhos de lombada vermelha, só pode contribuir para perpetuar a obra de Aldrich para as próximas gerações.

Sara Figueiredo Costa

(Texto publicado na revista Time Out, nº40, 02-08 Jul 08)

08 julho 2008

Homenagem a Jorge de Sena

Prosseguindo o seu programa de actividades, a Fundação José Saramago organiza, na quinta-feira, uma sessão de homenagem a Jorge de Sena. A sessão decorrerá no Teatro de São Carlos, em Lisboa, com início às 21h30.

Programa

- Leitura de poemas por Jorge Vaz de Carvalho
- Recital de piano por António Rosado
- Leitura de depoimento de Mécia de Sena
- Intervenções de Eduardo Lourenço, Vítor Aguiar e Silva,
Jorge Fazenda Lourenço, António Mega Ferreira
e José Saramago
- Encerrará a sessão o Ministro da Cultura, José António Pinto Ribeiro

Entrada livre, condicionada pela lotação da sala

O Catálogo de Manuel Alberto Valente

A Porto Editora apresentou hoje à imprensa a sua nova divisão editorial, chamada Divisão Editorial Literária de Lisboa (DELL), que será da responsabilidade de Manuel Alberto Valente.
Em quase três décadas de trabalho editorial, Manuel Alberto Valente passou pela Dom Quixote (entre 1981 e 1991) e pelas Edições Asa, onde construiu um catálogo sólido e coerente, até estas terem sido compradas pelo grupo Leya e o editor ter decidido sair. Livre de compromissos, Manuel Alberto Valente anunciou há alguns meses (em entrevista ao Público) que estava determinado a prosseguir o seu labor editorial e que poderia fazê-lo a título individual, como aconteceu com outros editores que saíram das grandes casas editoriais, ou inserido num projecto mais amplo, desde que lhe fossem dadas condições de autonomia. A Porto Editora viu nestas declarações uma oportunidade imperdível e passou a contar com um dos editores de referência deste país na sua casa.
Pelo que foi dito na apresentação da DELL, o editor terá toda a autonomia para construir o seu catálogo, bem como as condições necessárias para o fazer prosseguir. E outra atitude não seria de esperar: quem conta com Manuel Alberto Valente como editor, sabe que não precisa de preocupar-se com os resultados do seu trabalho.
Não tenho quota no mercado, nem gosto de todos os livros que Manuel Alberto Valente já editou. Mas é fácil, olhando para as últimas décadas da edição portuguesa, ver que o seu trabalho foi sempre feito no rigoroso equilíbrio entre a qualidade, a inovação e a estratégia de mercado, e tudo indica que essa postura vai ter continuidade na nova divisão da Porto Editora.

A partir de Setembro, os primeiros livros começarão a chegar às livrarias. A Lâmpada de Aladino, de Luis Sepúlveda (um livro de contos), As Esquinas do Tempo, de Rosa Lobato Faria (romance), Feminino Singular, de Sveva Casati Modignani (romance), Instruções Para Salvar o Mundo, de Rosa Montero (romance), O Priorado de Cifrão, de João Aguiar (uma paródia em torno de O Código Da Vinci, cujas primeiras linhas prometem...) e O Silêncio dos Outros, de Lydya Gouardo (testemunho, inserido na nova chancela que integrará a DELL, a Pelicano). Anunciou-se também o futuro romance de Artur Pérez-Reverte. Muitos nomes da Asa? Certamente. E Manuel Alberto Valente comentou o facto ainda antes de algum jornalista perguntar, dizendo que o trabalho editorial resulta muitas vezes em sólidas relações entre autor e editor, não sendo de admirar que o autor queira acompanhar o seu editor independentemente da chancela onde este trabalha. Faz sentido. Sobretudo quando o editor faz o seu trabalho a sério, não se limitando a escolher livros e a gerir o deve e o haver da casa.

Dos títulos apresentados, poucos me causam entusiasmo pessoal, e não quero deixar de dizê-lo. Mas olhando para eles, e ouvindo o editor falar das perspectivas futuras, é fácil perceber que da DELL virá a nascer um grande catálogo, sólido a vários níveis (o do mercado, claro, não há como fugir dele querendo ter uma editora grande e lucrativa, mas também o da qualidade e o da actualidade literária nacional e internacional) e capaz de se afirmar por entre a torrente que todos os dias inunda as livrarias. A partir de Setembro, cá estaremos para o começar a confirmar.

A solo

Aquilo que combinámos, eu e a Andreia, quando preparámos este Cadeirão, foi que não haveria compromissos de actualização. Já se sabia que eu iria escrever mais vezes, e que a Andreia seria mais comedida, mas isso não me fez hesitar no convite e não me trouxe nenhum arrependimento. Mas por uma questão de coerência, a Andreia pede-me agora para retirar o nome dela do cabeçalho do blog. Zanga? Nada disso. Só que o pouco tempo que tem para escrever e a crítica que tantas vezes faz aos blogs colectivos onde há mais do que um nome, mas onde é quase sempre a mesma pessoa a escrever, não a estava a deixar dormir de consciência tranquila. Por isso, respeito o pedido, é claro. Mesmo reafirmando que não me causava nenhum desconforto que ela escrevesse pouco - escrevia o que e quando lhe apetecesse, que foi a combinação. Mas compreendo o argumento, e elogio a coerência. O nome da Andreia vai, então, deixar de figurar no cabeçalho. No entanto, as portas do blog continuarão abertas para as suas colaborações, é claro, e quando houver textos por si assinados, serão bem vindos. Fica o esclarecimento.

07 julho 2008

Por fora

No blog da Ler, podem acompanhar-se alguns momentos da VI Festa Literária Internacional de Paraty, no Brasil.
A partir de amanhã, Eduardo Pitta juntar-se-á ao XVIII Festival Internacional de Poesia de Medellín, na Colômbia, e imagino que nos próximos dias nos dará conta do que por lá se passou.

06 julho 2008

José Leite de Vasconcelos

Inaugura amanhã, no Museu Nacional de Arqueologia, uma exposição comemorativa do 150º aniversário do nascimento de José Leite de Vasconcelos, fundador do museu que acolhe a exposição e um dos filólogos de referência dos estudos portugueses. Leite de Vasconcelos interessou-se por quase tudo, recolhendo alfaias agrícolas, romances populares ou vestígios arqueológicos com a mesma dedicação com que escreveu milhares de páginas que são, e continuarão a ser, de relevância incontornável para os estudos linguísticos, etnográficos ou arqueológicos em Portugal e na Peninsula Ibérica.
A abertura da exposição, intitulada Impressões do Oriente: de Eça de Queiroz a Leite de Vasconcelos, será assinalada com uma Sessão Solene, na Academia das Ciências de Lisboa, onde se apresentarão uma fotobiografia, um volume com mais de 300 páginas e vários documentos inéditos sobre a vida e obra de Leite de Vasconcelos, incluindo cartas pessoais, bilhetes e fotos de viagens.


(imagem retirada do site do MNA)

04 julho 2008

Parabéns! E que contem muitos mais!



A A-das-Artes faz cinco anos e merece todas as felicitações, pela oferta ampla e criteriosa que oferece e pelo labor constante de disponibilizar leituras e uma programação cultural variada. Podem visitá-la no blog ou, melhor ainda, in loco, na Av. 25 de Abril, 8 - loja C, em Sines.

Curso Livre: José Saramago

Acompanhando a exposição A Consistência dos Sonhos, Fundação José Saramago, em parceria com o Instituto dos Museus e da Conservação e a Direcção Geral do Livro e das Bibliotecas, organiza um curso livre sobre a obra do autor. Nos próximos dias 10 e 11 de Julho, vários especialistas falarão sobre diferentes aspectos da obra de José Saramago. O curso decorrerá no Palácio da Ajuda, na Galeria de Pintura do Rei D. Luís I e a entrada é livre (as inscrições devem ser feitas até ao próximo dia 7, para um dos seguintes contactos: saramago.expo@dglb.pt; Tel. - 21 798 21 43 ou 45; Fax - 21 798 21 41).

03 julho 2008

Leituras

No Hoja Por Hoja deste mês, Joaquín Díez-Canedo assina a primeira parte de um longo artigo sobre as técnicas artesanais de produção de livros no México, destacando o trabalho do taller Martín Pescador, responsável por algumas edições memoráveis, pelo cuidado posto em todas as fases do processo, mas sobretudo pela forma dedicada e exclusiva com que se fazem os seus livros.

...Leituras destas recordam-me, sem dó nem piedade, um projecto em pousio, à espera de uns metros quadrados que teimam em não surgir milagrosamente por entre estantes, ou de uma muito improvável casa nova, com um cubículo isolado onde tipos de chumbo e tintas tipográficas não se vejam à mercê do gato.

Rodrigo Fresan, Jardins de Kensington, Cavalo de Ferro




       O início deste livro soa a dupla blasfémia: anuncia-se, sem tempo para mistérios, uma morte, e logo depois revela-se que a morte é um suicídio e que o suicida é Peter Pan. Perante este início, nem a certeza de um inevitável registo humorístico nem a probabilidade de um lamento fúnebre pelo fim da infância se cumprem, erguendo-se, antes, uma narrativa densa e bem articulada onde se cruzam duas épocas e uma só história.
       A narração, que ocupa as mais de quatrocentas páginas do romance, decorre numa única noite, mas à mestria de Peter Hook, o narrador que é também um conhecido autor de livros infantis, basta esse curto período para relatar os factos que seleccionou da vida de J.M.Barrie, escritor que assinou Peter Pan, e da sua própria vida. Entre a Inglaterra vitoriana de Barrie e a Londres afogada em ácidos dos anos sessenta, em que os seus pais acabaram por perder-se, Hook situa a sua história num plano intemporal, saltando em direcção aos muitos passados enquanto tenta decidir o que fazer com o seu presente. Tal como Barrie, Hook guarda a memória viva de uma infância traumática, marcada, no seu caso, pela morte do irmão mais novo, seguido pelos pais. E refém dessa ligação, intensificada pelo suicídio do homem que inspirou a personagem de Peter Pan no mesmo dia em que Hook nasceu, o narrador alimentará uma divagação cruel pelo passado de ambos, o seu e o de Barrie, procurando respostas que, tal como a Terra do Nunca, já não estão ao seu alcance.
       É a essência do Peter Pan original, e não os sucedâneos coloridos da Disney – que o narrador tão duramente caricatura – que alimenta os muitos enredos deste romance: a capacidade de imaginar sem entraves, mas também um certo negrume e uma noção muito clara do medo e da morte, elementos que teimam em ser afastados do modo como os adultos entendem as crianças (sobretudo os adultos que escrevem para crianças). No fim, uma só certeza: depois de Kensington, não voltaremos a olhar para os autores de bestsellers infantis do mesmo modo.

Sara Figueiredo Costa

(Texto publicado na revista Time Out, nº39, 25Jun-01 Jul 08)

02 julho 2008

Pré-Publicação: O Heresiarca e C.ª, Guillaume Apollinaire (Assírio & Alvim)




     A INFALIBILIDADE

     No dia 25 de Junho de 1906, o cardeal Porporelli acabava de jantar quando lhe anunciaram a visita de um padre francês, o clérigo Delhonneau. Eram três da tarde. O implacável sol que exaltou a finura triunfalista dos Romanos antigos, e agora tem dificuldade em aquecer a velhacaria gelada dos modernos, deixava cair insuportáveis raios na praça de Espanha, que é onde se ergue o palácio cardinalício, embora respeitasse o apartamento de sua eminência (1). Persianas mantinham-no com frescura agradável e meia-luz quase voluptuosa.
     O clérigo Delhonneau foi introduzido na sala de jantar. Era um padre do Morvan. O seu aspecto carrancudo não deixava de mostrar uma qualquer analogia com o dos Peles Vermelhas.
     Natural de Autun, é provável que tivesse nascido nos baluartes célticos da antiga Bibracte, no monte Beuvray. Em Autun, cidade de origem galo-romana, e nos seus arredores, ainda há gauleses com veias onde não corre sangue latino, e o clérigo Delhonneau estava entre esse número. Aproximou-se do príncipe da Igreja, e de acordo com o uso beijou-lhe o anel. Depois de recusar os frutos da Sicília que o cardeal Porporelli lhe oferecia numa cesta, expôs o objectivo da sua diligência.
     — Desejo — disse ele — ter uma entrevista com o nosso Santo Padre o papa, mas em audiência privada.
     — Missão secreta do governo? — perguntou-lhe o cardeal, com uma piscadela de olho.
     — Nada disso, eminência! — respondeu o clérigo Delhonneau. — As razões que me fazem solicitar esta audiência não só interessam à Igreja da França como a todo o mundo católico.
     — Dio mio! — exclamou o cardeal enquanto mordia uma passa de figo recheada com avelã e erva-doce. — É assim tão importante?
      — Muito importante, eminência — repetiu o padre francês, que ao mesmo tempo reparava nalgumas nódoas de estearina da sotaina e esforçava-se, esfregando-as, por as tirar.
     O prelado gemeu:
     — Mas o que pode ainda acontecer? Já temos aborrecimentos que bastam com a vossa lei sobre a separação (2) e com as divagações desse tal cónego Bierbaum de Landshut, na Baviera, que não pára de escrever sobre a Infalibilidade...
      — Que imprudente! — interrompeu o clérigo Delhonneau.
      O cardeal Porporelli mordeu os lábios. Na sua juventude, quando não passava de um padre mundano de Florença, tinha combatido a Infalibilidade mas depois vergara-se perante o dogma.
     — Terá audiência amanhã, signor clérigo — disse ele. — Conhece o cerimonial?
     Estendeu a mão; o padre inclinou-se, depôs nela um beijo sonoro e às arrecuas foi até à porta, onde fez uma segunda vénia enquanto o cardeal, mostrando um ar fatigado, com a mão direita lhe dava a bênção e com esquerda apalpava os pêssegos da cesta.

(...)

(1) As edições francesas dão a ler monseigneur (monsenhor) em todas as referências feitas ao cardeal. No entanto, numa carta que Apollinaire escreveu a Madeleine (1915/8/23) lamenta as gralhas e os erros existentes neste seu livro, e esclarece: Em «A Infalibilidade», sempre que o padre francês se dirige ao cardeal, em vez de «monsenhor» deve dizer «eminência». Façamos-lhe, portanto, a vontade. (N. do T.)

(2) Dois anos antes de Apollinaire ter escrito este conto (1907), a Terceira República da França tinha decretado a separação entre a Igreja e o Estado. (N. do T.)


Guillaume Apollinaire
O Heresiarca e C.ª
(tradução de Aníbal Fernandes)
Assírio & Alvim (disponível a partir do próximo dia 10 de Julho)

O melhor trailer publicitário de sempre...

Bom, pode não ser o melhor de sempre, mas vale a pena vê-lo. É um filme promocional do cartão de cliente da Pó dos Livros, apresentando as inúmeras vantagens do cartão. Eu ainda acrescento uma, de grande relevância nos tempos que correm: não é um cartão de crédito.

Para quem pode

Os tempos nãõ estão para grandes compras, mas fica o aviso do leilão de livros marcado para amanhã e depois, no Palácio do Correio Velho. Entre os livros a leiloar há Mário de Sá Carneiro, Fernando Pessoa e Cecília Meireles em primeira edição.

Fonte: Diário Digital

01 julho 2008

Ler no Chiado



Amanhã, pelas 18h30, na Bertrand do Chiado, a Tertúlia Ler discute estratégias para pôr os mais jovens a ler.

30 junho 2008

Pronto-a-ler

A exposição Pronto-a-Ler. Design de Livros em Espanha inaugura amanhã no Palácio Pombal, sede cultural do IADE (à Rua do Alecrim, em Lisboa), e estará patente até ao dia 10 de Agosto. A mostra reune mais de 400 livros editados em Espanha, entre 2000 e 2006, ilustrando a preocupação com os aspectos gráficos que forma parte intrínseca do cuidado com a edição (ou, pelo menos, com alguma edição).
A acompanhar a exposição, duas mesas redondas e um seminário: no dia 2 de Julho, a abertura académica da mostra inclui uma mesa redonda, moderada por Bárbara Coutinho (Museu do Design e da Moda), com a participação de dois editores, um espanhol e um português (não designados), bem como intervenções sobre o design de livros, a cargo de Jorge Silva e João Bicker. No dia 8 de Julho, um seminário com Henrique Cayatte e Manuel Estrada. No dia 15 do mesmo mês, um seminário sobre 'Capas Portuguesas', orientado por Jorge Silva.

Como se lê no convite, "tanto a exposição, que depois da sua exibição em Nova Iorque, Washington, México DF, Buenos Aires, São Paulo e Madrid, como as mesas redondas e o catálogo que a complementam, constituem um projecto destinado a promover o conhecimento mútuo e as relações de cooperação entre designers e editores de Espanha e os países anfitriões, mas sobretudo pretende convocar os inúmeros e afortunados amantes desse complex e fascinante objecto a que chamamos livro e que vive entre nós há mais de 500 anos."

Novidades Orfeu Negro



Lacrimae Rerum, Slavoj Žižek
Edição Orfeu Negro

29 junho 2008

Crónicas do Baú III

O maior e mais acicatado debate que pode desenrolar-se em torno da dita literatura juvenil prende-se, em Portugal, com a oposição Cinco / Uma Aventura. Há outros debates decorrentes deste: Cinco por oposição a Sete, Cinco e Sete versus As Gémeas, etc... São tudo debates que podem começar numa alegre sessão nostálgica e acabar com insultos entre amigos que descobrem, de repente, que os seus oponentes nunca compreenderam o fascínio dos scones ingleses com geleia ou, em alternativa, a maravilha de embarcar em aventuras rocambolescas com um caniche como uma das companhias, mas não creio falhar se disser que a escolha entre os Cinco e Uma Aventura reúne as intervenções mais apaixonadas, pelo menos pela geração que apanhou ambas as séries. A minha posição é muito peremptória, como convém a tais debates: Os Cinco são infinitamente melhores. Desde logo porque a escrita de Enid Blyton aproveita de modo exemplar a herança literária anglo-saxónica, sabendo incorporar tudo o que alguns clássicos legaram (Mark Twain, Daniel Defoe ou C.S.Lewis, por exemplo), lidando com o humor sem a necessidade do estardalhaço do riso e criando narrativas que, mesmo sendo facilmente situáveis num tempo em que o entretenimento e a descoberta passavam por espaços e brincadeiras bem diferentes das que hoje predominam, possuem um carácter intemporal, marcado pelas descobertas do crescimento, por uma ingenuidade só aparentemente inocente e por um espírito de risco que a consciencialização posterior só pode abrandar. Para além disso, a galeria de personagens criada por Blyton é imbatível, reconhecendo-se com facilidade em leituras posteriores de alguns escritores de gabarito incontestável.
Apesar disso, depois de esgotada a série dos Cinco – e por esgotada quero dizer lida e relida várias vezes – , a leitura de Uma Aventura ganhou o seu espaço. Se a memória não me atraiçoa, o primeiro livro que li foi o volume 3, Uma Aventura na Falésia, que a minha irmã tinha na estante (e penso que foi o único que ainda a apanhou, embora, suspeito, já sem grande entusiasmo). Seguiram-se mais dois ou três, até que me foi oferecido o volume 22: Uma Aventura em Lisboa.



E este, sim, desencadeou alvoroços vários. Pelo que vejo na ficha técnica, a edição é de 1988, o que me coloca nos dez anos de idade. Nessa altura, para além de querer ser veterinária, outro projecto futuro preenchia os meus sonhos: eu queria trabalhar numa rádio pirata, de preferência instalada no meu quarto. Na verdade, um dos cantos do meu quarto tinha sido transformado num estúdio de rádio que, pelas óbvias limitações orçamentais, apenas transmitia para... o meu quarto. Em cima de uma arca branca, para além de um teclado oferecido pelo meu avô, onde eu aprendia os primeiros acordes que haveriam de alimentar sonhos mais tardios, um pequeno gravador de cassetes, um painel de cartão com botões feitos de caricas e, o ex-libris da instalação, um cabo de vassoura ao qual se acoplava, com metros de fita cola, um pequeno microfone feito, pela minha mãe, a partir de um pedaço de madeira, uma bola de algodão e um plástico que envolvia o algodão, amarrado com um elástico. O estaminé garantia horas de entretenimento, com emissões non-stop de discos pedidos, programas informativos e reportagens, tudo acompanhado por algumas notas tiradas do teclado. Acontece que no número 22 de Uma Aventura, o grupo de personagens principais encontra um companheiro, um tal Eduardo que, no sótão do seu prédio, tinha uma rádio pirata. Era o delírio, e mesmo que o sótão do meu prédio estivesse ocupado com moradores (imagino que na sequência de um daqueles golpes de imaginação de senhorios dedicados ao aproveitamento total do espaço, já que nas garagens também vivia gente...), passei a alimentar o projecto de fazer sair a minha rádio do quarto, conferindo-lhe potencial para transmitir para todo o bairro. A Aventura do número 22 centra-se no desaparecimento misterioso de umas jóias, obviamente recuperadas pelos oito amigos, mas o que ocupou para sempre a minha memória foi aquela rádio impossível.
Ora, em 1988, Cavaco Silva era Primeiro-Ministro e estava no segundo ano da sua maioria absoluta. É certo que, com dez anos, eu percebia pouco de política, embora soubesse que, lá por casa, Cavaco não tinha apoiantes. Mas nesse ano, Cavaco ganhou uma feroz opositora em Queluz: eu mesma que, do alto dos meus dez anos, descobri que o Governo ia proibir – ou já o teria feio, não sei bem – as rádios pirata. Não me lembro bem dos contornos do processo, que ouvi em alguns telejornais e que os adultos me terão explicado. Em pesquisas no google encontro algumas referências e uma delas aponta, precisamente, para 1988, o que dará credibilidade às minhas lembranças. Aquilo foi um golpe nos meus sonhos infantis, uma machadada impiedosa no meu futuro radiosamente garantido aos microfones de uma rádio. A partir daquele momento, Cavaco tornou-se num inimigo figadal, do calibre de um Skeletor ou de uma Bruxa do Oeste. Só que, com dez anos, a minha capacidade reivindicativa era diminuta; ainda não tinha descoberto o potencial do megafone nem a possibilidade de organizar protestos através de reuniões e panfletos. Não fiz nada, portanto, limitando-me a vociferar contra o Primeiro-Ministro aos microfones da minha rádio de frequência limitadíssima, para divertimento da família que, imagino eu, ouvia as emissões do quarto sem ter de sintonizar qualquer aparelho. E essas foram, estou certa, as emissões radiofónicas mais duras e críticas que Cavaco enfrentou, mesmo que nunca as tenhas ouvido. Cavaco levou por diante a sua proibição e eu, que graças ao número 22 de Uma Aventura tinha descoberto a possibilidade real de concretizar um sonho, nunca mais lhe perdoei. Anos mais tarde, de megafone nas mãos por entre gigantescas manifestações contra as propinas e uma ou outra saraivada de bastões, aquela ofensa ainda morava no meu rol de queixas e exigências, mesmo que os meus companheiros de protesto nunca o tenham imaginado.

27 junho 2008

Etty Hillesum, Diário 1941-1943, Assírio & Alvim



Passaram mais de quatro décadas até que os Diários de Etty Hillesum, holandesa, judia e intelectual morta em Auschwitz, em 1943, fossem publicados na Holanda, iniciando-se a sua tradução para várias línguas nos anos seguintes. A Assírio & Alvim publica-os agora em português, na colecção Teofanias, tornando acessível um texto que merece inúmeras releituras, não só pela saúde daquilo a que chamamos memória, como pelo abismo de questões e reflexões que cada página convoca.
A capacidade premonitória com que faz uma análise, sempre nítida, do momento histórico que vive tem tanto de assombroso como de angustiante. Etty prepara-se para o campo de concentração como quem sabe, sem espaço para dúvida, que esse passo será inevitável, e ainda assim não o faz de modo resignado ou desistente, ainda que todo o edifício teórico e espiritual que sustenta tal estado de alma seja, em muitos passos da leitura, de difícil assimilação: “«Quando uma pessoa leva uma vida interior, talvez nem haja assim tanta diferença entre estar fora ou dentro dos muros de um campo. » Será que irei conseguir justificar a mim mesma estas palavras mais tarde? Será que as conseguirei pôr em prática?” (p.175). E quando, perto do fim do Diário, esse momento se prefigura para breve, a leitura dos registos dos últimos dois anos torna-se mais clara, como se toda a aprendizagem de si que Etty fez ao longo desse tempo tivesse sido também uma espécie de lucidez crescente, um conjunto de passos cada vez mais seguros para a vivência que se seguiria, e que os leitores já não poderão acompanhar. Apesar disso, a lucidez com que Etty afirma a necessidade de uma memória futura do momento histórico que vive é constante, ainda que a sua opção tenha sido a de construir essa memória menos pela descrição dos factos (“Não quero ser a cronista dos horrores. Há-de haver outros em número suficiente.”, p.326) do que pela análise, levada às últimas consequências da indagação e do auto-enfrentamento, da humanidade e da sua condição.

Sara Figueiredo Costa

(Texto publicado na revista Time Out, nº38, 18-24 Jun 08)

Efeito Borboleta

Efeito Borboleta, o primeiro livro de contos de José Mário Silva, será apresentado mais logo, pelas 18h30, na Casa Fernando Pessoa. Se essa apresentação vai cumprir o título do livro e fazer sentir os seus efeitos nalgum outro ponto da cidade, ainda não se sabe...

26 junho 2008

Lembrança

Hoje é dia de Livros em Desassossego:

Nos 120 anos do nascimento de Fernando Pessoa, a famosa arca continua a ter segredos por revelar e o Ministro da Cultura declarou recentemente que “Pessoa, enquanto produto de exportação, talvez seja mais valioso que a PT”. Na próxima edição dos Livros em Desassossego vamos debater como valorizar (ainda mais) a marca Pessoa, agora que se anuncia o leilão de parte do espólio em poder da família do poeta. Na mesa, para o debate, vão estar o Ministro José António Pinto Ribeiro, a sobrinha do poeta, Manuela Nogueira, o professor universitário António M. Feijó, o investigador Jerónimo Pizarro e o editor Manuel Rosa, que escolherá três livros publicados recentemente que gostaria de ter no catálogo da Assírio & Alvim. A edição de Junho dos Livros em Desassossego realiza-se dia 26, a partir das 21.30, na Casa Fernando Pessoa. Carlos Vaz Marques modera a sessão. A entrada é livre.

Prémios de Edição Ler/Booktailors

Este blog apoia os Prémios de Edição Ler/Booktailors, mas conclui, depois de várias tentativas goradas, que não reúne o engenho necessário para conseguir colocar o logotipo respectivo na barra lateral. Está dito.

Albert Cossery (1913-2008)

No Le Monde, Marion Van Renterghem assina um longo obituário de Albert Cossery. Mas é o Irmão Lúcia que lhe capta o aceno de despedida, simultaneamente lúcido e blasé.


© rabiscos vieira

Leya bem o regulamento...

Bem sei que a piadinha do título é forçada, mas a hora já vai adiantada e a história merece. O Jorge Reis-Sá deu-se ao trabalho, louvável, de ler o regulamento do Prémio Leya na íntegra e descobriu duas coisas muito interessantes: o júri lerá apenas uma selecção de textos (feita por um comité de leitura que ninguém sabe quem é) e o prémio, na realidade, anda um bocadito longe dos volumosos 100.000 euros anunciados. Para conferir aqui.

25 junho 2008

Doutor Sousa Homem

Hoje, pelas 18h30, na livraria Pó dos Livros, Francisco José Viegas e Maria Filomena Mónica apresentam o livro Os Males da Existência - Crónicas de um Reaccionário Minhoto, de António Sousa Homem (edição da Bertrand). E para quem não conheça a personagem, garante-se que o Dr. Sousa Homem é um verdadeiro reaccionário minhoto, o que pode causar alguma urticária em função dos temas tratados (e às vezes causa, confirma-se), mas um reaccionário que vale a pena ler até ao fim. Fica o aviso.

24 junho 2008

Leituras de férias

«Era, aliás, um caso singular no que às leituras se refere. Era oficial de cavalaria e não apreciava livros. Desprezava igualmente romances e filosofia. Quando lia, não queria ser obrigado a reflectir sobre opiniões e polémicas, mas sim, logo ao abrir do livro, entrar, como por uma porta secreta, no âmago de conhecimentos específicos. Tinham de ser livros cuja simples posse fosse já uma espécie de sinal iniciático de uma ordem e garantia de revelações sobrenaturais. E só encontrava isso nos livros da filosofia indiana, que para ele não pareciam ser apenas livros, mas revelações, coisas reais - chaves de mistérios, como os livros de alquimia e magia da Idade Média.»
(pp. 55,56)

Robert Musil, As perturbações do pupilo Törless, D. Quixote, 2005

E pur si muove!

Mais notícias sobre a renovação da Sá da Costa, associada ao relançamento da Portugália e à livraria Buchholz (estando esta última parte ainda por esclarecer).

No capítulo livreiro, a associação de Livrarias Independentes deu o seu primeiro passo formal no passado Domingo, com a constituição de corpos dirigentes provisórios e de grupos de trabalho que prepararão as actividades futuras.

23 junho 2008

António Botto: Obra Completa

As Quasi apresentaram recentemente a edição da obra completa de António Botto, poeta dos mais significativos no século XX português e, ainda assim, nem sempre merecedor da atenção devida. Agora, com edição da responsabilidade de Eduardo Pitta, a obra de António Botto volta às livrarias organizada em oito volumes: Canções e Outros Poemas; Fátima; Cartas Que Me Foram Devolvidas; O Livro das Crianças; Contos; Cantares; Teatro e Ele Que Diga Se Eu Minto. Os dois primeiros já estão disponíveis.

Novidades Bruáa

Depois de A Árvore Generosa, de Shel Silverstein, a Bruáa apresenta agora o seu segundo livro, confirmando todas as boas expectativas que se criaram aquando da chegada deste editora ao mercado português.
Eu Espero, de David Cali e Serge Bloch deve estar a chegar às livrarias por estes dias.