26 maio 2008

Pessoana



No próximo dia 28 (Quarta-Feira), Eduardo Lourenço apresentará Pessoana: Bibliogafia Passiva, Selectiva e Temática, de José Blanco (Assírio & Alvim). A sessão está marcada para as 18h30, no auditório 3 da Fundação Calouste Gulbenkian.

Entretanto, o Público de hoje refere a possibilidade de uma parte do espólio de Fernando Pessoa, com leilão agendado para OUtubro deste ano, poder ser vendida a um comprador estrangeiro, o que impossibilitaria o seu estudo e edição a par com o resto do espólio.

365



Chegou-nos às mãos a mais recente edição da 365, revista que Fernando Alvim dirige e António Gregório edita. Não atinge a fasquia de números anteriores, como aquele, inesquecível, dedicado ao Verão Azul, mas o formato A5 assenta-lhe bem. Tem textos de Pedro Paixão, Jorge Palma ou Fernando Ribeiro, para além de um poema de Rui Lage e de várias outras colaborações, e anuncia a recepção de textos ou trabalhos gráficos para a próxima edição. Está à venda em livrarias, papelarias e associações de Estudantes, cobrindo uma área considerável do território. É espreitar aqui e descobrir o resto.

Alfredo Saramago

Comer e beber são muito mais do que duas necessidades. Aprendemo-lo com muitos autores ao longo dos séculos, e aprendemo-lo também com Alfredo Saramago, que morreu este fim de semana, deixando uma obra extensa e apetecível para memória dos vindouros. É lê-la e aprender.


Para uma História da Alimentação de Lisboa e seu Termo
Lisboa, Assírio & Alvim, 2004

25 maio 2008

Romance em Lyon

A partir de amanhã, e até ao dia 1 de Junho, Lyon será palco da segunda edição dos Assises Internationales du Roman. No Le Monde, co-organizador do evento, pode conhecer-se o programa e acompanhar, nos próximos dias, algumas das sessões.

Subindo e descendo o Parque

Entre um aguaceiro e uma aberta solarenga, o Cadeirão lá foi até ao Parque Eduardo VII. Sem fugir aos rituais de sempre, houve passagem obrigatória pelos alfarrabistas, pela tenda dos pequenos editores e pelas editoras de sempre. Mais do que um momento para descobrir novidades, a Feira é sempre uma boa altura para relembrar catálogos e títulos mais antigos, quase nunca visíveis nas livrarias e quase sempre a preços simpáticos. Foi assim que da Antígona veio O Comércio da Literatura, de Manuel Portela, que a minha biblioteca andava a reclamar desde o lançamento. E da banca da Letra Livre, duas edições velhinhas da & Etc: O Eubage (Nos Antípodas da Unidade), de Blaise Cendrars, e Zaroff - O Jogo Mais Perigoso, de Richard Connel, um livro que não pensei encontrar disponível. Cavalo de Ferro, Tinta da China, Cotovia, Relógio d'Água e Quasi terão as suas visitas mais tarde. Assim não se arruina uma família logo no primeiro dia da Feira... Na Assírio & Alvim não chegou a haver compras, mas houve conversa prolongada com quem sabe de livros e tem histórias para contar. A Feira e os livros também se fazem disso, de conversas, memórias e experiências.

A tão falada praça Leya viu-se de passagem, entre a subida e a descida, e não impressionou. Bem sei que o preconceito (aqui entendido também no sentido etimológico do termo) não torna a visão mais límpida, mas ainda assim, a dita praça não impressionou de todo: os caixotes ainda por abrir foram apenas um pormenor sem importância; já o facto de olhar para os pavilhões, maiores do que os outros - mesmo sem fita métrica, é óbvio - e não só não distinguir umas editoras de outras como ainda por cima ficar com a ideia de que há poucos livros, pareceu estranho. Pensar que há ali editoras com catálogos extensos e de referência e só conseguir vislumbrar capas expostas e pouco mais causa estranheza. Se calhar é má vontade, se calhar foi por ser o primeiro dia; dou o benefício da dúvida e volto lá durante a semana para confirmar.

22 maio 2008

Annemarie Schwarzenbach

Amanhã, dia 23 de Maio, passam cem anos sobre o nascimento de uma escritora suiça (Annemarie Schwarzenbach) que só no final do século XX começou a ser (re)descoberta. Nessa noite haverá uma sessão de leitura (à semelhança do que acontecerá nesse mesmo dia em vários pontos do mundo) e a projecção de um documentário sobre a autora na Fábrica de Braço de Prata.



E em Junho, Annemarie Schwarzenbach inaugura uma nova colecção, de livros de viagens, na Tinta da China, com o título Morte na Pérsia.

21 maio 2008

Leituras Gastronómicas

No Hoja Por Hoja, Giorgio De’Angeli escreve sobre os livros de gastronomia que se editam no México, apontando lacunas (como a da cozinha não mexicana), sugerindo leituras e reflectindo sobre o estranho hábito que algumas pessoas têm: o de comprarem livros de receitas mesmo sabendo que nunca as vão cozinhar...



Aqui no Cadeirão, a leitura faz-se com A Ferver, de Bill Buford, daSextante (sobre o qual vale a pena ler o que Eduardo Pitta escreveu, no Ípsilon do dia 2 de Maio - disponível aqui).

Feiras

A Feira do Livro do Porto já funciona. A de Lisboa abre no Sábado.

20 maio 2008

Entretanto...

...as notícias sobre a abertura da Feira de Lisboa (afinal, marcada para Sábado) foram surgindo em catadupa ao longo da tarde, pelo que se recomenda uma espreitadela ao Público, à Ler e aos Blogtailors para ficar a par de tudo o que se passou.

Uma longa resposta IV

E aqui entra outra ordem de questões, úteis para a minha resposta ao comentário referido. Eu não acredito nas boas graças do funcionamento do mercado. Será uma questão ideológica, claro, mas as questões ideológicas pesam quando há opiniões. Quer isto dizer que acho que o Estado devia controlar as editoras, etc, etc, etc...? Nada disso. Não só não acredito nas boas graças do funcionamento do mercado como também desprezo a ideia do centralismo estatal, a ideia do controlo total a partir de um centro benfeitor e timoneiro do povo e até a ideia de ser possível apontar uma ideia que resolva de modo satisfatório todas as inquietações, dúvidas e paixões políticas que alimento. O que posso fazer? Misturo uma costela anarquista com um socialismo de determinadas características, acredito no contrato entre Estado e cidadãos, mas também no direito à desobediência, na importância da responsabilidade e da responsabilização (sempre, a todo o custo e por mais contraditório que seja o que se fez ou pensou), simpatizo com as barricadas quando elas fazem falta, com a diplomacia sempre que possível, com o respeito no debate e com a falta de papas na língua. Mas que fique descansado o senhor do comentário: a responsabilidade é o que mais pesa, e por isso não lerá nenhum texto meu num órgão de informação que não tenha sido feito com a máxima dedicação ao rigor (e isto não significa que eu seja imune aos erros, que esses todos cometemos). Mas uma vez mais, isto não é um órgão de informação, ainda que às vezes possa servir como tal. E o que tem tudo isto a ver com a Feira do Livro e com a minha opinião sobre o modo como o processo tem decorrido? Tem tudo.
Não acreditando nas benesses do funcionamento do mercado, antipatizo com a concentração editorial e o modo como esta está a acontecer em Portugal porque acredito que daí não virá nada de bom para a edição (consequentemente, para tudo o resto que deriva da leitura e da existência de livros para serem lidos). Se calhar, vamos ter vendas mais altas, capas mais berrantes, autores mais sonantes, e com mais bonecos em tamanho real às portas das livrarias, mas nada disso me interessa no que aos livros diz respeito. E se tudo isso for conseguido sacrificando a qualidade dos catálogos, a diversidade dos títulos e a possibilidade de edição de alguns autores menos óbvios para o mercado, então passa a interessar-me, mas pela negativa. Dir-me-ão que se editoras pequenas e de qualidade desaparecerem à conta disso, se as pequenas livrarias ficarem sem acesso aos livros que encomendam porque as editoras dão preferência às grandes cadeias livreiras, se autores menos lucrativos – mas com textos que ninguém devia morrer sem ler – deixarem de publicar, isso é o mercado a funcionar. Pois bem, que não funcione. Se o mercado funcionar é sinónimo de termos estarolas dos negócios a granel a destruírem catálogos que editores de referência levaram anos a construir, livrarias transformadas em supermercados, onde não se encontram livros que não sejam novidades – e mesmo assim, só se forem da semana anterior –, e um panorama onde todos os espaços, Feiras incluídas, são ocupados pela eficiência do marketing, mas pela ausência de conteúdo (conteúdo mesmo, daquele que não precisa de ser espremido, daquele que a gente lê e a seguir tem de pensar no que leu, e às vezes não volta a ser a mesma pessoa depois de ter lido), então que se dane o mercado e o seu funcionamento.
Tenho alguma proposta proteccionista para resolver a questão? Claro que não. Percebo pouco do deve e do haver e, se tivesse uma editora, tenho a certeza de que ela não só não daria lucro como o mais provável era que desse prejuízo. Mas acredito que órgãos como a Câmara Municipal (a de Lisboa, mas também a do Porto, e até seria interessante pensar nas outras e no que poderiam fazer nas respectivas localidades) poderiam atenuar o efeito de mina armadilhada que estruturas gigantescas podem ter no panorama editorial. Como? Talvez passando a apoiar a instalação de editoras menos abonadas nas Feiras do Livro, em vez de subsidiar directamente a APEL, por exemplo. É uma medida de caridade, pseudo-comuna, pobrezinha... Não faço ideia, mas soa-me bem independentemente da etiqueta. E também me soaria bem que as editoras que não pretendem vender-se se associassem de algum modo, para fazerem face aos problemas de organização das Feiras – que certamente se irão agravar – e sobretudo para garantirem que não perdem margem de negócios com os pontos de venda. Mas isto, claro, são só ideias minhas.

Uma longa resposta III

Quanto à Feira propriamente dita, e à participação da Leya neste processo, digo o seguinte: pessoalmente, parece-me muito bem que os editores proponham alterações ao modelo da Feira, se disso sentem necessidade, assim como me parece muito bem que não o façam, se para aí não estiverem virados. Mas parece-me bem que o façam nos locais onde se associam e, já agora, de um modo o mais transparente possível. O que cheirou a esturro (e a prepotência, e a desprezo pelo debate e pelas próprias associações) foi a ausência da Leya nos espaços de debate, em pé de igualdade com os restantes editores (seus pares, ou não?). E o que esturricou de vez toda a credibilidade do processo foi o facto de, depois dessa ausência, a Leya surgir constantemente como uma terceira associação, apesar de ser um grupo editorial, e de a Leya insistir em não entregar a sua inscrição na Feira, à semelhança do que fizeram as restantes editoras. Ora, a partir daqui, parece legítimo que todas as outras editoras e todos os outros grupos editoriais tenham o mesmo direito de participar, como a Leya participou, nas reuniões que foram existindo. E que se perguntem para que andam a tratar de inscrições e a respeitar os regulamentos da Feira. Não sendo assim, concluo que para a Leya, as restantes editoras não são, de facto, seus pares e que, depois disto, talvez as associações não tenham grande sentido... O melhor é mesmo deixar o mercado funcionar.

Uma longa resposta II

Se algum dia me for pedido um artigo, notícia ou reportagem, sobre as disputas entre a APEL e a UEP relativamente à Feira do Livro, não haverá lugar para outro procedimento que não o de contactar todos os envolvidos, dentro de cada associação, bem como os elementos que, parecendo menos óbvios na sua relação com as ditas disputas, terão alguma coisa a dizer sobre o assunto. Não comecei ontem a acompanhar o mundo editorial e compreendo o que diz o comentário. Mas isto é um blog pessoal, onde para além de partilhar leituras e notícias, me reservo o direito de opinar sobre o que se passa no dito mundo editorial. Ora, a opinião não é isenta e eu nunca escondi a minha pouca simpatia pela concentração editorial. Não há imparcialidade aqui: a concentração do mercado nas mãos de uns poucos não me agrada. E para quem lê este blog, isso não é exactamente uma novidade. Mas eu volto a explicar: este blog não é imparcial; faz, aliás, questão de ser parcial sempre que assim o entender. Para escritas anódinas já basta o dia a dia.

Uma longa resposta

Um comentário a este post ficou sem resposta até agora, e seria uma tremenda falta de educação da minha parte se assim se mantivesse. Primeiro, foi a falta de tempo nestes últimos dias; depois, foi a necessidade de dar uma resposta completa, aproveitando para esmiuçar um pouco mais toda esta telenovela e o que ela implica para o futuro da edição em Portugal. A resposta acabou por sair mais longa do que eu imaginava, por isso passou a ser um post, e partido em três, para não abusar da vista de ninguém.

Dor de cotovelo

O acompanhamento diário do Hay Festival, para ler e ouvir aqui.

Será desta?

Segundo notícia avançada pelo Público on-line, o acordo entre a APEL e a UEP (e a Leya, é preciso dizer, que também lá estava apesar de não ser uma associação) foi assinado ontem à noite, na Câmara Municipal de Lisboa. A Leya terá os seus pavilhões diferenciados, a APEL ficará com a organização da Feira do próximo ano e o evento propriamente dito deve abrir este fim de semana, faltando apenas acertar alguns pormenores técnicos.
Em compensação, a Feira do Porto abre mesmo no dia 21, tal como estava anunciado.

19 maio 2008

Galego-Português

Foram vários milhares na Praça da Quintana. em Santiago de Compostela, exigindo que a sua língua seja usada em todas as ocasiões, e não apenas nos contextos familiares, e que lhe seja reconhecida a dimensão que, de facto, tem.
Do Cadeirão, um abraço para os amigos que por lá andaram e o desejo de que a festa ainda venha a ser bonita, pá.

17 maio 2008

Os foguetes e as canas

Afinal, tudo na mesma... O que ontem foi divulgado já não é bem verdade e o que será anunciado amanhã ou depois, logo se verá. Até agora, a Leya fica para a história como o motivo pelo qual não temos feira em Lisboa para a semana. Esperemos que não fique também para a história como o motivo pelo qual não temos feira em Lisboa, nem para a semana nem este ano.

E agora vou ler os jornais do fim de semana, descobrir se as mudanças do Actual são para saudar ou para lamentar e descobrir as novidades da Feira do Livro de Madrid... essa, pelos vistos, vai mesmo acontecer (e com as mesmas barraquinhas de sempre, vejam só!).

16 maio 2008

Temos Feira, sim senhora!

Segundo o blog da Ler, a Feira do Livro de Lisboa vai realizar-se, e com todos os pavilhões. Os das editoras que se inscreveram de acordo com o regulamento, iguais aos de sempre, os da especial de corrida Leya, diferentes de todos os outros. Uma verdadeira festa...

(Des)Acordos

A discussão sobre o protocolo modificativo do Acordo Ortográfico está marcada para hoje, na Assembleia da República.

Leituras (para acalmar um bocado os ânimos)

No New York Times, Alberto Manguel assina um belo texto sobre os seus trinta mil volumes bibliográficos (e o ‘drama’ da respectiva arrumação).

15 maio 2008

Troca de argumentos

O debate entre Vasco Teixeira, da APEL, e Rosália Vargas, da Câmara Municipal de Lisboa acabou de acabar. Ficou por perceber se a CML tem noção do que andou a fazer nos últimos dias ou se foi apanhada de surpresa, ingenuamente, quando se lembrou de autorizar a montagem de pavilhões por parte de um grupo editorial que nunca se inscreveu na Feira do Livro, como fizeram todos os outros editores.
Mais novidades sobre a clarificação da CML, só amanhã.

O Fórum da Discórdia

Foi-se ouvindo, mas nada de muito novo surgiu da conversa. As mesmas trocas de acusações, a mesma prepotência de quem tem o bolso cheio e a certeza de que já se deu a volta às leituras permitidas pelas notícias que vão saindo: a Leya passou de desestabilizadora a vítima e daqui a uns dias, já ninguém se vai lembrar da ausência prepotente do grupo nas reuniões convocadas para a organização da Feira, nem das propostas que fizeram directamente à CML, passando por cima das organizações de editores e demonstrando uma postura e um modo de funcionamento que não auguram nada de bom para o futuro (por exemplo, ao nível das relações com as livrarias, sobretudo com as que têm menos margem de negociação). De resto, Isaías Gomes Teixeira foi falando, ora pela Leya, ora pela UEP. Mas foi sempre dizendo que não tem nada a ver com as guerras entre APEL e UEP e que a Leya só apareceu em Janeiro. E foi dizendo, de cinco em cinco minutos, que era a primeira vez que estava a falar em público, e que por isso queria continuar a falar, como se isso lhe desse direito ao monopólio das ondas de rádio. E o pior é que deu... e ele aproveitou, claro.

Quanto à Feira, a última versão (mas só até agora, que isto tem tudo para mudar mais umas dez vezes até ao dia 21, e até pode ser que não haja Feira para ninguém) diz que os pavilhões da APEL estarão no sítio combinado e que, como estes não ocupam todo o Parque (deixando livre uma área que a CML pode gerir como quiser), a Leya ocupa o espaço livre. Afinal, sempre se dividiu o Parque ao meio e afinal, a Leya fará o que quer e lhe apetece (coisa de que ninguém duvidou). E ficámos todos a saber um bocadinho melhor como serão as coisas daqui para a frente.

14 maio 2008

Subir... até ao Norte?

Parece ser uma boa opção. Veja-se o post do Jorge Reis-Sá, aqui.

Também podemos assinar?

No Blogtailors, pode ler-se a proposta de abaixo-assinado lançada pela Gradiva.
É uma pena que, para além dos editores, não possa ser assinado também pelos restantes interessados (leitores, por exemplo)... Eu assinaria de bom grado.

Até ver, não há subidas ou descidas do Parque para ninguém

E quando toda a gente pensava que a novela tinha acabado, eis que chegam novos capítulos. Agora, a Feira do Livro de Lisboa está suspensa, segundo noticiou o Público há poucos minutos, por ordem da Câmara Municipal de Lisboa. O motivo: a APEL não entregou o plano final da distribuição do espaço. Porquê? Segundo a mesma notícia, a APEL - responsável pela Feira este ano - continua a recusar a participação da Leya sem inscrição e sem o cumprimento das regras previamente definidas (ver notícias de ontem). A CML reuniiu hoje com a APEL, a UEP e a própria Leya (que, apesar de ter uma associação que a representa, como todos os editores, tem um estatuto especial qualquer que ainda ninguém deslindou... e a esse propósito, vale a pena ler o post do Jorge Reis-Sá, aqui) e decidiu suspender a Feira. Aguardam-se as cenas dos próximos capítulos.

Na notícia do Público, lá para o meio, lê-se a seguinte frase:

"Mostrando-se intransigente em relação aos pavilhões da Leya, que representa autores como Lobo Antunes, Lídia Jorge e Saramago, a APEL corre o risco de perder o subsídio camarário: a autarquia pode vir a invocar a perda de interesse público do evento, por via da possível ausência destes autores."

E com esta frase ficamos a saber que Feira sem Lobo Antunes, Lídia Jorge e Saramago, não tem interesse público... E ficamos a saber também que com este trunfo, a Leya tem toda a gente na mão, invertendo qualquer lógica minimamente aceitável.

Adenda: No blog da Ler, pode ler-se o comunicado da CML sobre o folhetim.

Não Perca os 3



Na próxima sexta-feira, pelas 21h30, a Pó dos Livros inicia o seu ciclo de debates mensais 'Não Perca os 3', com Pedro Mexia, Fernanda Câncio e Rui Tavares. O convidado da primeira sessão é Eduardo Lourenço e a conversa andará à volta do público e do privado, bem como do Maio de 68.

Mais Leya, inevitavelmente

A ideia da concentração editorial não me agrada. A notícia de ontem não foi por isso recebida com agrado. Haverá romantismo e uma ideologia a presidir às minhas convicções. Tentarei, por isso, confrontar argumentos.
A Leya dominará uma avassaladora parcela da edição que se faz em Portugal. Expectativas:
Maior capacidade para negociar com as livrarias no que respeita a escaparates, montras e destaques;
Maior capacidade para negociar com as livrarias percentagens de vendas e modos de pagamento;
Maior capacidade para negociar com gráficas os custos de produção;
Maior capacidade para negociar publicidade e promoção dos livros;
Maior capacidade para negociar direitos de autor no estrangeiro.
Resultados esperados:
Livros mais baratos em Portugal;
Melhor distribuição a nível nacional (entre hipermercados, grandes cadeias de livrarias, livrarias de bairro e livrarias/papelarias);
Maior e melhor divulgação de obras portuguesas fora de Portugal;
Melhores condições para os autores;
Aquilo a que se tem assistido:
Não se consegue, ao ligar para a Leya, chegar com facilidade aos responsáveis pela comunicação das diversas editoras que a integram (quem o tentou pode confirmá-lo).
Periódicos, revistas e blogues têm dificuldade em receber os livros que pedem às editoras, a menos que sejam novidades (mesmo estas nem sempre chegam de acordo com pedidos prévios).
As livrarias mais pequenas não recebem livros do grupo, principalmente se escolhem, de acordo com os seus critérios, livros menos mediáticos ou vendáveis.
A polémica em torno da Feira do Livro deu tempo de antena e espaço mediático à Leya, que desrespeitou regras e prazos de inscrição, assumindo sem pejo que quer (e muito provavelmente vai) furar as regras que as outras editoras aceitam.
Possivelmente, a aquisição da Explorer contribuirá para pôr ordem num grupo onde não se consegue trabalhar, e ainda não é visível nenhuma destas consequências positivas da concentração. Quando estiveram na Casa Fernando Pessoa, os discursos de Isaías Gomes Teixeira e António Lobato Faria diferiram. Enquanto o primeiro tinha preparado um discurso demagógico, megalómano e provocatório, assente em sensos comuns, trejeitos economicistas e auto-elogiosos, o segundo falava da edição fundamentando argumentos com exemplos de quem conhece a área em que trabalha. O que é, aliás, inegável.
Enquanto promotora da leitura, desejo efectivamente que a Leya possa contribuir para aumentar o número de leitores e o acesso ao livro. Distingo leitura de literatura e aceito as preferências individuais. Mas enquanto cidadã acredito que a base social está na educação, na formação, no desenvolvimento de competências a par do sentido crítico e da escolha responsável. O que é avesso a arremessos consumistas que dependem de nomes famosos e tops de vendas. E temo que a Leya não privilegie estes valores em detrimento de capas e títulos apelativos, de livros consumíveis e da criação de fenómenos artificiais. Porque tem todos os meios para o fazer, o mercado não poderá reagir e obrigar as editoras do grupo a terem padrões de qualidade elevados, se assim não quiserem. As ‘marcas’ do prestígio (Caminho e D. Quixote, essencialmente) podem perder-se entretanto, se mantiverem autores de prestígio que lhes assegurem essa imagem. As leis da concorrência foram esmagadas por este gigante, e o desequilíbrio de forças é sempre perigosamente autocrático.
Vamos esperar. Felizmente há sobreviventes, ainda. Espero que assim se mantenham, e que, por exemplo, a poesia ou a tradução dos clássicos continuem bem entregues. Desejo que os pequenos guetos dialoguem, e que desse diálogo nasçam propostas saudáveis, como aconteceu com a BI (Biblioteca Independente). Desejo continuar a admirar as capas da Tinta da China ou o design do Henrique Cayatte para a Sextante, ou as traduções da Cavalo de Ferro. Desejo encontrar raridades na Tenda dos Pequenos Editores, quando, na próxima semana subir e descer novamente o Parque Eduardo VII.

13 maio 2008

Agora sim, a notícia do dia



A Antígona acaba de editar um volume de ensaios de George Orwell, seleccionados por John Carey para a Everyman's Library: Porque Escrevo e Outros Ensaios.
Chega às livrarias no próximo dia 22.

Em havendo muito dinheiro, tudo se faz

Esta só não foi a notícia do dia no mundo editorial porque a notícia da compra da Explorer Investments a abafou. Afinal, a Leya lá terá os seus pavilhões personalizados na Feira do Livro de Lisboa. Afinal, e segundo o Correio da Manhã, nem precisa de inscrever-se junto da APEL, ao contrário de todas as outras editoras que participarão na Feira (incluindo as da UEP). Não está em causa o direito de os editores mudarem o formato da feira, nem de lutarem por fazer passar as suas posições sobre o tema. Mas talvez esteja em causa uma outra coisa: o facto de o dinheiro comprar muito mais do que um espaço, o direito de fazer o que nos passar pela cabeça sem cumprir as regras que foram estabelecidas previamente (e previamente ignoradas - inclusive nos espaços onde as próprias regras se discutiram - por quem tem o dito dinheiro).
Para o ano, não vale a pena discutir se o Parque Eduardo VII é entregue à APEL ou à UEP, que talvez acabassem por se entender se a Leya não tivesse aparecido entretanto (mas os 'ses', já se sabe, de pouco servem). O Paes do Amaral compra tudo, da rotunda do Marquês ao falo do Cargaleiro e instala uma mega-tenda, com vários corredores e muitas caixas registadoras. Ou então, manda-se a Leya para um espaço à altura de um grupo a séria, o Pavilhão Atlântico, por exemplo, e deixa-se o Parque para as editoras que ainda não tiverem sido vendidas. Pelo menos, os passeantes amadores de livros sempre continuavam a subir e descer o Parque com a pacatez do costume, folheando os livros que ainda são feitos por editores e trocando dois dedos de conversa sem a sombra das tendas de circo.

Deve e haver

Desde o meio da tarde que não se fala de outra coisa: a Leya lá comprou as editoras da Explorer Investments, amealhando no seu pé de meia a Oficina do Livro, a Casa das Letras, a Editorial Teorema, a Estrela Polar e a Sebenta (ver Público Digital). E se calhar, ainda a história vai no seu início... Certo é que o pé de meia livresco do senhor que gosta é de carros se agiganta, deixando no ar duas perguntas: Quantas editoras ainda estarão à venda? Quem será o futuro feliz proprietário de tamanho império editorial? Ficamos à espera para ver.