12 maio 2008
Tentações
Já aqui falei sobre a minha vontade de visitar Hay-on-Wye, instalada desde o momento em que descobri a peculiar existência da pacata terrinha galesa. Mas o Guardian gosta de desinquietar as pessoas e divulga, aqui, o programa completo do Hay Festival deste ano. Conformo-me pensando que Hay-on-Wye deve ser mais interessante fora da agitação do festival, sem centenas de pessoas a acotovelarem-se à volta dos alfarrabistas...
09 maio 2008
Pausa
Bem sei que o Cadeirão anda lento e pouco produtivo, à conta de um novo horário de trabalho, e que é aos fins de semana que a coisa se vai compondo. Mas amanhã e depois, nada de posts (meus, pelo menos). Vou estar pelo Festival Internacional de BD de Beja e prometo dar conta de tudo aqui, no regresso.
08 maio 2008
Subir e Descer o Parque VI
Quem diz que sim, quem diz que não ('são os movimentos de libertação', cantava o Sérgio Godinho)... O mais certo é nunca sabermos a verdade, já que cada uma das partes (das três partes, diga-se, porque o debate há muito que saiu da troca de argumentos entre a APEL e a UEP para passar a contar também com a Leya) diz uma coisa diferente. Em resumo, se isto pode resumir-se, e de acordo com o Público de hoje (edição impressa, secção Local), a APEL diz que a Leya não se inscreveu na Feira de Lisboa, e a UEP, à qual a Leya pertence, diz que a Leya se inscreveu e que a APEL a autorizou a usar pavilhões diferentes dos tradicionais. A APEL, por outro lado, diz que alguém da Leya telefonou, depois do prazo de inscrições ter encerrado, pedindo que prolongassem o prazo de inscrições... Enfim, a saga continua, e parece que vai continuar. Talvez depois da Feira se possa fazer uma reflexão séria e pertinente sobre o que tudo isto implica em termos de mudanças no mercado e de atitudes de promoção e comunicação, de edição de livros e de promoção de fenómenos livrescos, de ricos e pobres e de como essa riqueza e pobreza se manifesta, para além da escolha de uma tasca ou de um restaurante, na capacidade ou incapacidade de fazer frente às gigantescas máquinas de promoção de livros que até podiam estar a promover carros... Até lá, o melhor é pensarmos mais nos passeios pelo Parque e menos no resto.
Subir e descer o Parque V
As telenovelas dão sempre reviravoltas inesperadas; quando parece que tudo caminha num determinado sentido, pumba! Afinal, as editoras da Leya não participam na Feira do Livro. Será que o patamar de eficiência/ dependência do marketing e das grandes operações de promoção já é tão grande que só se conseguem vender livros em tendas de circo, com fanfarras à porta e um ou outro leão, não compensando, por isso, tentar vender livros na feira de sempre, assim, cara a cara com o leitor, sem intermédio de outras distracções, só o livrinho a valer por si?
Adenda: é claro que isto é um retrato exagerado dacoisa. Os editores têm todo o direito de alterar a configuração da Feira do Livro e de apresentarempropostas para outro tipo de pavilhões, para além, é claro, de terem todo o direito a não terem uma opinião unânime sobre tudo isto. A ideia de que a unidade, ainda que forçada, é a melhor coisa do mundo nunca deu bons resultados e este caso não é excepção. O que irrita é perceber que o caos da Feira deste ano não se deve tanto ao esgrimir de posições antagónicas das associações, e sim ao aparecimento de um grupo como a Leya, que parece estar pouco preocupado com os efeitos que tudo isto terá no meio editorial, desde que leve a sua avante. E levar a sua avante não é, parece-me, dar espaço às propostas alternativas que a UEP vem defendendo relativamente à APEL, mas sim ganhar o braço de ferro do ‘cash’: temos dinheiro e queremos investir à grande para transformar o mercadinho numa coisa a sério. Se levamos tudo à frente, inclusive as tentativas recentes de reaproximação entre as duas associações de editores, isso pouco importa. É a lei do mercado? Pois será. E a lei do mercado costuma dar bons frutos quando se trata de editar livros? Pois costuma, mas só para os grandes best-sellers, nomes famosos, escritores garantidos e outras coisas certas. O risco, a edição de obras difíceis – mas imprescindíveis –, a disponibilização de textos fundamentais mas cujos autores não aparecem na televisão todos os dias, aí os frutos não costumam ter muito espaço para crescer. E sim, bem sei que têm surgido muitas declarações de intenções dizendo que os catálogos vão continuar a ser feitos com enormes preocupações de qualidade, que vão continuar a editar-se autores que não vendem tanto mas são importantes, que nenhuma catástrofe bibliográfica vai acontecer... Mas também sei que essas declarações têm sido contrariadas pela saída de grandes editores das casas que os acolheram (e que viram os catálogos por si construídos crescerem) durante anos, que as pequenas livrarias começam a sofrer com a preferência dada pelos grandes à colocação das edições nas grandes superfícies, que alguns autores relevantes começam a pensar em alternativas para se editarem. E vamos ver o que os próximos tempos reservam... Ainda teremos muito que ver, e isto também é o mercado a funcionar, para o sossego de todas as almas liberais. No fim, veremos quantas editoras independentes sobram para contar a história, e quantas se safaram do embate. Não temos todos de comer na tasca? Pois não, mas talvez tenhamos todos de garantir que a tasca não desaparece. E isso ainda está para se ver.
Adenda: é claro que isto é um retrato exagerado dacoisa. Os editores têm todo o direito de alterar a configuração da Feira do Livro e de apresentarempropostas para outro tipo de pavilhões, para além, é claro, de terem todo o direito a não terem uma opinião unânime sobre tudo isto. A ideia de que a unidade, ainda que forçada, é a melhor coisa do mundo nunca deu bons resultados e este caso não é excepção. O que irrita é perceber que o caos da Feira deste ano não se deve tanto ao esgrimir de posições antagónicas das associações, e sim ao aparecimento de um grupo como a Leya, que parece estar pouco preocupado com os efeitos que tudo isto terá no meio editorial, desde que leve a sua avante. E levar a sua avante não é, parece-me, dar espaço às propostas alternativas que a UEP vem defendendo relativamente à APEL, mas sim ganhar o braço de ferro do ‘cash’: temos dinheiro e queremos investir à grande para transformar o mercadinho numa coisa a sério. Se levamos tudo à frente, inclusive as tentativas recentes de reaproximação entre as duas associações de editores, isso pouco importa. É a lei do mercado? Pois será. E a lei do mercado costuma dar bons frutos quando se trata de editar livros? Pois costuma, mas só para os grandes best-sellers, nomes famosos, escritores garantidos e outras coisas certas. O risco, a edição de obras difíceis – mas imprescindíveis –, a disponibilização de textos fundamentais mas cujos autores não aparecem na televisão todos os dias, aí os frutos não costumam ter muito espaço para crescer. E sim, bem sei que têm surgido muitas declarações de intenções dizendo que os catálogos vão continuar a ser feitos com enormes preocupações de qualidade, que vão continuar a editar-se autores que não vendem tanto mas são importantes, que nenhuma catástrofe bibliográfica vai acontecer... Mas também sei que essas declarações têm sido contrariadas pela saída de grandes editores das casas que os acolheram (e que viram os catálogos por si construídos crescerem) durante anos, que as pequenas livrarias começam a sofrer com a preferência dada pelos grandes à colocação das edições nas grandes superfícies, que alguns autores relevantes começam a pensar em alternativas para se editarem. E vamos ver o que os próximos tempos reservam... Ainda teremos muito que ver, e isto também é o mercado a funcionar, para o sossego de todas as almas liberais. No fim, veremos quantas editoras independentes sobram para contar a história, e quantas se safaram do embate. Não temos todos de comer na tasca? Pois não, mas talvez tenhamos todos de garantir que a tasca não desaparece. E isso ainda está para se ver.
Sublinhados XV
"A distribuição das tarefas pelo conjunto dos funcionários satisfaz uma regra simples, a de que os elementos de cada categoria têm o dever de executar todo o trabalho que lhes seja possível, de modo a que só uma mínima parte dele tenha de passar à categoria seguinte. Isto significa que os auxiliares de escrita são obrigados a trabalhar sem parar de manhã à noite, enquanto os oficiais o fazem de vez em quando, os subchefes só muito de longe em longe, o conservador quase nunca."
José Saramago, Todos os Nomes, Caminho,1997 (p.12)
José Saramago, Todos os Nomes, Caminho,1997 (p.12)
07 maio 2008
Escolhas
Hoje, será preciso escolher. Na Fnac do Chiado, apresenta-se o monumento de Cortázar, Rayuela – O Jogo do Mundo, numa edição da Cavalo de Ferro (muito mais bonita e legível do que a de bolso que conheci em Espanha, com letras demasiado pequenas para a dimensão do texto e as minhas dioptrias). Na livraria Assírio & Alvim (Rua Passos Manuel, 67 B, Lisboa), dá-se a conhecer o volume Leitura Infinita, de José Tolentino Mendonça, dedicado à exegese bíblica, com chancela da Assírio & Alvim. E no Centro Nacional de Cultura, Guilherme d’Oliveira Martins apresenta Vozes Íntimas, de António Osório, igualmente com chancela da Assírio & Alvim. Tudo em Lisboa, tudo às 18h30. Agora arranjem-se.
LER no Chiado
A primeira sessão está marcada para amanhã, às 18h30, na Bertrand do Chiado. A partir daí, as primeiras quintas-feiras de cada mês serão dedicadas à LER no Chiado, com debates em torno do mundo dos livros.
05 maio 2008
O curto passo para o abismo
Foi numa aula dada por um professor particularmente consciente desta problemática (Artur Anselmo) que percebi, pela primeira vez, que o gosto pelos livros se pode transformar num vício perigoso. E não, não estou a referir-me ao perigo de perder o espaço das paredes e do chão de casa num processo caótico de aniquilação do espaço. O vício chama-se bibliomania e, como nos contou Artur Anselmo, pode transformar um amante dos livros e da cultura impressa num verdadeiro 'agarrado' (ele não deve ter dito 'agarrado', mas eu registei assim), capaz de entregar quase todo o ordenado de um mês a um vendedor de raridades bibliográficas em troca daquela primeira edição, daquele livro impossível de conseguir, daquela encadernação saída de uma oficina particularmente feliz, ficando, depois, a comer raspas até à chegada do vencimento seguinte.
No Guardian on-line há um artigo sobre o tema, assinado por David McKie, mostra como o passo seguinte, mesmo que impensável à primeira vista, é ainda possível: passar da bibliomania à bibliofobia. Scary...
No Guardian on-line há um artigo sobre o tema, assinado por David McKie, mostra como o passo seguinte, mesmo que impensável à primeira vista, é ainda possível: passar da bibliomania à bibliofobia. Scary...
Subir e descer o parque IV
Afinal, tudo em paz. Parece que toda a gente vai à feira e que as discussões sobre os stands ficarão para o ano. O site da Feira já está online e os pormenores estão prometidos para breve. E se sobre o tema já muito se escreveu - e, seguramente, muito ainda há-de escrever-se -, o post mais recomendável tem de ser atribuído ao Irmão Lúcia. Ora vejam lá.
Agora, é começar a preparar a lista de compras...
Agora, é começar a preparar a lista de compras...
Subir e descer o parque III
Ontem, ao fim da tarde, a saída da estação de metro do Marquês de Pombal revelou um Parque Eduardo VII soalheiro polvilhado de estruturas coloridas em construção. Garantida a Feira, faltou apenas conseguir contar os pavilhões para esclarecer o mistério da participação das editoras da Leya... É que se estas ainda não apresentaram a sua decisão final sobre a participação na Feira do Livro, como é que os stands já estão a ser postos de pé? Vão erguer uns quantos a mais, just in case?
02 maio 2008
Balanço e contas
É um dos motivos para ler o Ípsilon com o fervor religioso dos viciados em jornais. Mas a crónica semanal de Alexandra Lucas Coelho é, esta semana, muito mais do que a dose regular que satisfaz o vício. Chama-se "Bagagem de Mão" e começa assim:
"Há um momento em que toda a vida se leva ao ombro. Temos 20 anos, mudamos a cada estação, sentamo-nos num caixote de fruta, empilhamos os livros, amanhã podemos ir viver para Uruk ou Bucareste, mesmo quando só vamos ali dar uma volta.
E quando esse momento passa temos 30 anos, 30 mil contos de empréstimo a 30 anos, talvez não 30 mil livros, mas três mil, talvez não livros mas discos, pedras, moedas, perdemos a cabeça num antiquário, mobilámo-nos no IKEA, trouxemos um kilim de Marrocos e passámos aquela semana a pintar a parede de azul-petróleo, aquela semana a assentar o chão flutuante, e ele há tantas maneiras de compor uma estante, o candeeiro dito do Japão e o espelho em talha, os lençóis bordados da avó e a bússula, a colecção de canivetes e a do Cavaleiro Andante, o cartaz da revolução e as fotografias, caixas-sacos-envelopes, álbuns-de-plástico-de pano-de cartão, as fotografias e as cassetes com autocolantes que identificam a primeira coisa gravada por baixo de todas as outras depois não identificadas (...)."
"Há um momento em que toda a vida se leva ao ombro. Temos 20 anos, mudamos a cada estação, sentamo-nos num caixote de fruta, empilhamos os livros, amanhã podemos ir viver para Uruk ou Bucareste, mesmo quando só vamos ali dar uma volta.
E quando esse momento passa temos 30 anos, 30 mil contos de empréstimo a 30 anos, talvez não 30 mil livros, mas três mil, talvez não livros mas discos, pedras, moedas, perdemos a cabeça num antiquário, mobilámo-nos no IKEA, trouxemos um kilim de Marrocos e passámos aquela semana a pintar a parede de azul-petróleo, aquela semana a assentar o chão flutuante, e ele há tantas maneiras de compor uma estante, o candeeiro dito do Japão e o espelho em talha, os lençóis bordados da avó e a bússula, a colecção de canivetes e a do Cavaleiro Andante, o cartaz da revolução e as fotografias, caixas-sacos-envelopes, álbuns-de-plástico-de pano-de cartão, as fotografias e as cassetes com autocolantes que identificam a primeira coisa gravada por baixo de todas as outras depois não identificadas (...)."
30 abril 2008
Vinha mesmo a calhar...
...uma ida a Londres, para ver a exposição Blood
on Paper - the Art of the Book, no Vitoria & Albert
Museum.
on Paper - the Art of the Book, no Vitoria & Albert
Museum.
28 abril 2008
Ao domicílio
Quem não simpatiza com os habituais lançamentos de livros, com croquetes, beberetes e fretes sociais, pode optar pela modalidade 'lançamento ao domicílio'. Recebe o autor em casa e está o livro lançado. A proposta é de Rui Manuel Amaral, que acaba de publicar Caravana, na recém regressada Angelus Novus.

Mais informações e o contacto para a combinação do lançamento aqui.

Mais informações e o contacto para a combinação do lançamento aqui.
27 abril 2008
Novidades da Assírio & Alvim


Chegam esta semana às livrarias. O lançamento de Diário 1941-1943, de Etty Hillesum, está marcado para amanhã, pelas 18h30, com apresentação de Esther Muznick, José Tolentino Mendonça e Nélio Pita. Na terça, Guilherme d'Oliveira Martins apresenta Portugal e os Portugueses, de Manuel Clemente, às 19h. Ambos os lançamentos decorrerão na Livraria Assírio e Alvim (Rua Passos Manuel, 67B, em Lisboa.
Leituras de fim de semana
No Guardian, Peter Conrad escreve sobre The Library at Night , de Alberto Manguel. E no Telegraph, há um dossier que escolhe 50 livros de culto para ler.
24 abril 2008
...o dia inicial inteiro e limpo...
É assim há vários anos: na semana do 25 de Abril, o dono da Livraria Ler (em Campo de Ourique, no Jardim da Parada) esvazia totalmente a montra principal de novidades e destaques recentes e preenche-a com uma espécie de exposição bibliográfica. Ali se encontram exemplares preciosos de livros editados (e proibidos) antes do 25 de Abril, bem como vários autos de apreensão referentes a livros que a Livraria Ler tentou colocar à venda sem que a PIDE deixasse. Alguns terão sido vendidos apesar disso, às escondidas, naturalmente.

Os livros expostos não estão à venda, mas não é o lucro que anima esta exposição anual. Quem se dispõe a 'sacrificar' uma montra inteira de novidades durante uma semana tem, acredito, outras prioridades.

Os livros expostos não estão à venda, mas não é o lucro que anima esta exposição anual. Quem se dispõe a 'sacrificar' uma montra inteira de novidades durante uma semana tem, acredito, outras prioridades.
22 abril 2008
Caprisone e bolachas araruta (Crónicas do Baú)
O ano era o de 1985, o Dartacão passava aos fins de semana e os iogurtes da Vigor eram quadrados e tinham sabores tão impensáveis como chocolate, avelã ou chila. Com sete anos, as primeiras leituras sem imagens iniciadas há mais ou menos um ano, os meus desejos quotidianos centravam-se na denúncia da maldade de Milady – era urgente que Julieta e o próprio Dartacão percebessem que ela era mesmo má! – e na descoberta de mais livros. Já tinha percebido que a faculdade de juntar letras sem a ajuda de ninguém me permitia longas horas de deambulação por mundos diferentes do meu, onde os iogurtes podiam não ter sabores impensáveis, mas onde eu experimentava e descobria coisas que a casa, a escola e os outros espaços que constituíam o meu horizonte não podiam dar-me. Foi nesse ano que a minha mãe, sócia do Círculo de Leitores há vários anos, descobriu uma colecção de livros infantis que oferecia a passagem dos livros ilustrados, de formatos grandes e quase sem texto para os livros com mais texto do que imagem, com um formato semelhante à maioria dos livros ‘adultos’ que eu via à minha volta. A colecção chamava-se Arlequim e marcou, definitivamente, a minha chegada às leituras que já não necessitavam do apoio das imagens para se tornarem interessantes.

O Pequeno Fantasma, de Orfried Preussler, foi o primeiro livro da colecção a chegar-me às mãos. E a história de um fantasma que habitava um velho castelo e não compreendia porque é que só à noite podia exercer os seus dotes de assombração conquistou a minha devoção à colecção Arlequim. Assim, entre aniversários e natais, seguiram-se mais títulos. Konrad ou O Menino Que Saiu de Uma Lata de Conservas, de Christine Nostlinger, que para além da hilaridade de uma lata de conservas a guardar uma criança (teoria muito mais apelativa do que a história das cegonhas... afinal, nunca se viam cegonhas nos céus de Queluz, e latas de conservas havia-as por todo o lado), oferecia uma certa afirmação de personalidade, mais preocupada com aquilo que somos do que com aquilo que os outros pensam de nós, lição impagável para o crescimento que se desenrolava. Jim Botão e Lucas o Maquinista, de Michael Ende, com a locomotiva Emma levando os dois protagonistas por locais de aventuras, bem como Um Gnomo na Corte do Rei Dólar, de Upton Sinclair, trazendo o tema da devastação das florestas, que na altura parecia tão fantasioso como os gnomos, e falando de ganância e de solidariedade. E, claro, o memorável Emílio e os Detectives, do alemão Erich Kastner (entretanto reeditado na Vega), uma das mais sólidas memórias que guardo da infância e também um dos livros mais importantes do meu percurso de leitora.
Imagino que alguns destes livros tenham esgotado, ou que ainda sobrem exemplares nalgum armazém perdido. Imagino também que a sua reedição não seria disparatada. Se algum editor se quiser aventurar...

O Pequeno Fantasma, de Orfried Preussler, foi o primeiro livro da colecção a chegar-me às mãos. E a história de um fantasma que habitava um velho castelo e não compreendia porque é que só à noite podia exercer os seus dotes de assombração conquistou a minha devoção à colecção Arlequim. Assim, entre aniversários e natais, seguiram-se mais títulos. Konrad ou O Menino Que Saiu de Uma Lata de Conservas, de Christine Nostlinger, que para além da hilaridade de uma lata de conservas a guardar uma criança (teoria muito mais apelativa do que a história das cegonhas... afinal, nunca se viam cegonhas nos céus de Queluz, e latas de conservas havia-as por todo o lado), oferecia uma certa afirmação de personalidade, mais preocupada com aquilo que somos do que com aquilo que os outros pensam de nós, lição impagável para o crescimento que se desenrolava. Jim Botão e Lucas o Maquinista, de Michael Ende, com a locomotiva Emma levando os dois protagonistas por locais de aventuras, bem como Um Gnomo na Corte do Rei Dólar, de Upton Sinclair, trazendo o tema da devastação das florestas, que na altura parecia tão fantasioso como os gnomos, e falando de ganância e de solidariedade. E, claro, o memorável Emílio e os Detectives, do alemão Erich Kastner (entretanto reeditado na Vega), uma das mais sólidas memórias que guardo da infância e também um dos livros mais importantes do meu percurso de leitora.
Imagino que alguns destes livros tenham esgotado, ou que ainda sobrem exemplares nalgum armazém perdido. Imagino também que a sua reedição não seria disparatada. Se algum editor se quiser aventurar...
21 abril 2008
Cinquenta anos depois: La región más transparente
La región más transparente, de Carlos Fuentes, foi publicado há cinquenta anos e Georgina García Gutiérrez Vélez assinala a importância da obra, um dos livros fundamentais da literatura sul-americana, no Hoja Por Hoja.
Subir e descer o parque II
Quem acompanhou as notícias dos últimos dias, nos jornais e nos blogs, sabe que a confusão continua instalada à volta da Feira do Livro de Lisboa. Apesar disso, a APEL já disse que a Feira abrirá no dia 21 de Maio. Falta saber com que editoras, mas parece que as subidas e descidas do parque estarão asseguradas.
20 abril 2008
Da retórica: a disposição de «Dies irae»
Quando tentamos chegar ao âmago da arte de Mário de Carvalho, no conto «Dies irae» (A inaudita guerra da Avenida Gago Coutinho, Caminho,1984), sentimos que o efeito de irrealidade surpreende pela sua aceitação. As personagens da narrativa vão reagindo com alguma normalidade a acontecimentos estranhos e surpreendentes. O falcão que está no quarto do protagonista, ou o grupo de pessoas do bairro que dispara sobre o avião que sobrevoa um bairro lisboeta, são acontecimentos descontextualizados no espaço e na razão de ser. O absurdo é assim provocado pela ausência dos nexos causais necessários para validarem tais situações. 

Mas o processo de captação de atenção do leitor passa pela gradação do insólito, que começa de forma ambígua, pela aparição de um animal (aparentemente um réptil) na casa de banho de Teles. A sequência cresce em intensidade com o aparecimento do falcão. Em seguida, as atitudes e discursos das pessoas amplificam a estranheza daquilo que seria um dia normal na rotina repetitiva de um empregado de escritório. A conversa do colega sobre o jogador de futebol que só tem uma perna, a oscilação da entrada de luz natural no restaurante, ou a inútil tarefa que o patrão entrega a Teles na jornada vespertina sustentam uma ideia social de alienação, que atinge o seu clímax quando o colega do protagonista abre a porta de casa e se depara com o céu, optando por ir jantar ao uma cervejaria, em consequência disto. A partir daqui, o desenlace já não espanta o leitor, agora que tudo parece possível: uma sala triangular e uma nova vista da janela.
A disposição interna deste texto actua em coerência com a sua intenção crítica, e por isso apresenta-se tripartida (no que tradicionalmente se designaria por princípio, meio e fim), sem momentos de oposição ou contraste. A ordenação das partes obedece a uma gradação de intensidade que serve o estranhamento como principal relação entre o texto e o leitor. A ordem retórica é seguida para destacar um sentido temático fora da ordem causal suposta ou reconhecível. Neste paradoxo estético reside uma das forças do texto, e na acumulação de situações o seu ritmo. Há que salientar o título, que justifica o estranhamento, devolvendo-o a um universo ficcional lógico. Mas será efectivamente assim? Ou a recuperação do título, no final do conto, terá como efeito transformar a sua totalidade linear numa totalidade circular, conferindo ao pensamento orientador do texto, à sua intenção, uma posição mais clara? A crítica da passividade, da mesquinhez, mediocridade e indiferenciação dos indivíduos torna-se mais veemente pelo percurso original que o leitor tem de seguir. O tema, por si só, não bastaria para dimensionar o conto como objecto literário. Já a sua construção, não deixa dúvidas.
A disposição interna deste texto actua em coerência com a sua intenção crítica, e por isso apresenta-se tripartida (no que tradicionalmente se designaria por princípio, meio e fim), sem momentos de oposição ou contraste. A ordenação das partes obedece a uma gradação de intensidade que serve o estranhamento como principal relação entre o texto e o leitor. A ordem retórica é seguida para destacar um sentido temático fora da ordem causal suposta ou reconhecível. Neste paradoxo estético reside uma das forças do texto, e na acumulação de situações o seu ritmo. Há que salientar o título, que justifica o estranhamento, devolvendo-o a um universo ficcional lógico. Mas será efectivamente assim? Ou a recuperação do título, no final do conto, terá como efeito transformar a sua totalidade linear numa totalidade circular, conferindo ao pensamento orientador do texto, à sua intenção, uma posição mais clara? A crítica da passividade, da mesquinhez, mediocridade e indiferenciação dos indivíduos torna-se mais veemente pelo percurso original que o leitor tem de seguir. O tema, por si só, não bastaria para dimensionar o conto como objecto literário. Já a sua construção, não deixa dúvidas.
19 abril 2008
Leituras de fim de semana
18 abril 2008
Sexta
Há muitas sextas-feiras que não estava em casa, com algum tempo disponível para a leitura calma que os jornais pedem. Hoje estou, mas a chuva ainda não parou durante os minutos necessários para eu ir ali buscar os jornais e voltar. E já sei, desde ontem, que a edição de O Homem Sem Qualidades faz capa do Ípsilon, o que só aguça a urgência de sair...
17 abril 2008
Subir e descer o Parque...
Parece que é hoje que vai saber-se alguma coisa sobre a Feira do Livro. Lá mais para a tarde, ou mesmo pela noitinha, que afinal parece que ainda falta muito tempo...
15 abril 2008
Orange
A contagem decrescente para o anúncio do Orange Prize deste ano está a ficar renhida. O resultado final será anunciado no próximo dia 4 de Junho.
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