29 fevereiro 2008

Galiza regressa de Cuba

A delegação galega que esteve presente em Cuba, na Feira do Livro de Havana (onde a Galiza foi o país convidado), fez o balanço da sua participação no evento.
A visibilidade da cultura galega, o estabelecimento de novos contactos e parcerias e a pluralidade da delegação que conseguiu reunir-se para a feira foram alguns dos aspectos positivos destacados.

28 fevereiro 2008

Pré-Publicação: O Hipnotizador, Paulinho Assunção (Campo das Letras)

.




Em Ouro Preto, numa noite fria

Centenas de nomes eu tive pela vida afora.
Foram tantos nomes que não posso nem sou capaz de enumerar
todos eles. Os nomes vinham, apareciam, eu os aceitava.
Alguns duravam em mim o tempo de uma viagem, outros duravam
apenas um dia ou dois, uma noite ou duas, e logo alguém
decidia por novo chamamento. Isto até que outros nomes fossem
em mim aplicados, uns sobre os outros, tal como a folha
rasurada de um palimpsesto.
Tive nomes de guerra, como Cedric, e de paz, como Francisco.
Em certa época, fui chamado por nomes claros, como
Lambert, ou escuros, como o esquisito nome Nigelo. Mas puseram-
me também nomes oceânicos, como Marmaduke, o líder
do mar, e nomes para serem falados em voz baixa, em murmúrio,
em rumor, do modo como são falados os segredos. E este
nome era Esaú.
Hoje me chamam de Ferdinando Flauta Mágica.
Se agora, aqui onde estou, eu viajo pelas recordações, se agora
sou residente das lembranças, se agora me dedico ao único
e insubstituível prazer de relembrar peripécias e aventuras, devo
também dizer que andei por mundos e caminhos em busca das
chamadas coisas inacreditáveis. Ou improváveis. Ou duvidáveis.
Certo é que muitas coisas, das quais me lembro, eu não pude
ver. Não vi Paris em chamas, não vi Londres bombardeada pelos
aviões da Alemanha, não vi a queda de Berlim.
Mas afundei os pés na neve das estepes russas e observei,
como se fossem delicados desenhos e delicadas aquarelas, o voo
do condor sobre a Cordilheira dos Andes.
Mais eu fiz, sim, fiz muito mais do que o novelo dos meus
lembrares pode hoje alcançar. E vi mais, vi muito mais do que
os olhos de um homem sonham um dia ver em nossas sempre
curtas existências. Sim, pois o que vi transborda de uma vida
e vai preencher outras vidas mais, tantas vidas, as inumeráveis
vidas que vazam de uma para outra vida, todas transbordantes.
E viver, talvez, seja água demais para pouca vasilha.
Do que fiz e do que vi, eu digo um pouco.
Provei tâmaras no deserto em dias de solidão e silêncio. Bebi
vinho da adega de uns frades mexicanos, uns frades com enormes
e lustrosos narizes. E viajei, empreendi a perigosa viagem
entre Zedrev e Lumes, duas cidades fantasmas nos desfiladeiros
do rio Got, só para seguir as trilhas de uns anões peregrinos.
Conheci condes e condessas, príncipes e princesas, reis e rainhas,
ladrões, sacripantas, rufiões, putas, bucaneiros, bêbados e
engolidores de facas.
E assisti à floração de cerejeiras em quintais japoneses.
Até que, já em uma curva próxima da minha aposentadoria,
já na ponta das minhas derradeiras, eu recebi a dádiva de um
chamado.
Acabo de dizer que recebi um chamado, mas poderia ter dito
de outro modo. Dizer, por exemplo, que recebi o convite para
um encontro com o mistério do meu nome.
Sim, o meu nome — eis o tema desta história que, toscamente,
e com a respiração desgovernada, eu conto a você, leitor, e
a você, leitora.
A história tem o seu começo numa certa noite de Inverno,
quando me vi na cidade de Ouro Preto, diante de um homem,
diante de inúmeros e terríveis acontecimentos.
Esse homem de quem falo atendia pelo apelido de Língua-
-Solta e possuía uma cicatriz em forma de lua minguante na face
esquerda.
Refiro-me a essa cicatriz, mas só pude enxergar verdadeiramente
a cicatriz quando esse homem de quem falo acendeu um
fósforo na escuridão e segurou o palito aceso perto do rosto.
A cicatriz parecia o resultado de um corte, um corte feito com
certos punhais que, só de imaginá-los, deduzo que eram uns
punhais demoníacos.
Mas enquanto eu via aquela marca em seu rosto sob a luz
ténue e trémula do palito de fósforo, eu nada disse. Nada comentei
com ele sobre aquela cicatriz. Só olhei, calado, o corte,
aquele corte que lhe descia em curva desde perto da costeleta
até o canto da boca. Só olhei para a cicatriz e nada falei.
Ouro Preto dormia encoberta por uma neblina espessa e estávamos
nas proximidades da Casa dos Inconfidentes, bem de
acordo com o que, semanas antes, fora combinado por intermédio
de uma carta.
Essa carta. Sempre há uma carta no dia-após-dia da minha
existência.
Devo dizer que a carta me chegou em hora apropriada, em
dia apropriado, no momento mais apropriado da minha vida
de viajante, justo quando me preparava para o meu refúgio de
leituras e pensares, de silêncios e filosofias, de vigílias e murmúrios.
Refúgio de um viajante que percorreu mundos e caminhos,
e, agora, quieto, em quietude, vê com serenidade os poentes e as
auroras, os crepúsculos e as manhãs, os começos e os fins.
Mas eu mencionei uma carta. Sim, eu disse algo sobre uma
carta.
De todos os modos, peço a benevolência do leitor para falar
disto mais adiante, ao longo da história que contarei. Uma
história que começava ali, ao lado daquele homem, num dos
lugares mais misteriosos da cidade de Ouro Preto.


Paulinho Assunção
O Hipnotizador
Campo das Letras (disponível a partir do próximo dia 5 de Março)
ISBN: 978-989-625-217-5
Colecção: Campo da literatura - 158

27 fevereiro 2008

Asas sobre a América II

Amanhã, pelas 18h30, na Fundação Luso-Americana (Rua do Sacramento à Lapa, 21, em Lisboa), Gonçalo M. Tavares falará sobre Philip Roth, prosseguindo o ciclo 'Asas Sobre a América'.

Ruy Belo

Ruy Belo faria hoje setenta e cinco anos. A nossa singela homenagem, lembrando um poema de País Possível.
Na Assírio e Alvim pode encontrar-se a obra completa do autor (e hoje - até à meia-noite - os livros têm 30% de desconto no site da editora).



MORTE AO MEIO DIA

No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça

Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul

que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol

No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente

E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transístor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol

Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?

Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe,
atenta a gravidade do momento

O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz
pois a areia cresceu e a gente em vão requer
curvada o que de fronte erguida já lhe pertencia

A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer

26 fevereiro 2008

Leituras, take II

No 1979, o Luís Filipe Cristóvão entrevista Eduardo Halfon, autor de O Anjo Literário (recentemente editado pela Cavalo de Ferro e apresentado nas Correntes d'Escritas), que ando a ler por estes dias.

Leituras

No site do Rascunho, escreve-se sobre a obra de Jorge Luís Borges.

Próximo romance de Saramago

A Viagem do Elefante, próximo romance de José Saramago, tem data prevista de lançamento para o Outono deste ano.

Em entrevista à Lusa, o autor declarou: "Voltei a escrever, já tenho 70 ou 80 páginas. Tive de interromper a escrita pelo período da minha convalescença e doença".

Fonte: Diário Digital

25 fevereiro 2008

Respirar

Vários amigos e familiares costumam descrever o meu trabalho como o ideal para alguém que sempre gostou de ler. Até certo ponto, é verdade: passar parte do tempo laboral a ler é um luxo, e passar outra parte a escrever sobre o que se leu, de modos diversos e em função da linha editorial dos sítios para onde se escreve, é outro luxo, para além de um óptimo exercício de disciplina (diferentes publicações, on-line ou em papel, exigem diferentes registos que, mesmo que possam não ser sempre os que desejávamos utilizar, implicam um trabalho de pensamento e reescrita que só pode ser positivo). O único senão é que, em determinadas alturas do mês, o que há para ler é muito e o tempo para ler outras coisas, exteriores ao plano laboral, é nenhum. É o que se passa esta semana. Assim sendo, os textos especialmente concebidos para este Cadeirão Voltaire vão ter de esperar uns dias e o blog seguirá até ao fim de semana em regime quase exclusivamente noticioso, pelo menos no que às minhas contribuições diz respeito. Pede-se, por isso, alguma paciência aos potenciais leitores e prometem-se textos de maior fôlego para a próxima semana.

24 fevereiro 2008

Leituras

A revista Malagueta regressou, depois de algum tempo de interregno, e entre as várias colaborações, conta com textos de Sérgio Lavos. Duas boas notícias, portanto.

Sublinhados IX

"En la ciudad, los tanques habían sido substituidos por la soledad, con efectos similares. Las heridas parecían no cerrar. Todos nosotros pertenecíamos a una generación de príncipes idiotas, hemofílicos, por cuya piel la sangre corría a la menor cortada.
Eras tú, o el país entero quien había quedado abierto en el canal?
Secando al sol."

Héroes Convocados, Paco Ignacio Taibo II. Ediciones B, p.24.

22 fevereiro 2008

Águas Furtadas

A história é assim mesmo: a Águas Furtadas está com dificuldades financeiras e precisa de angariar fundos para poder editar o seu próximo número.

Assim sendo, a revista promove, a partir do dia 1 de Março (com inauguração nesse dia, pelas 16h00), uma venda de obras de arte, na Galeria do JUP (Rua Miguel Bombarda, 187, R/C, no Porto). Fotografias, pinturas, ilustrações, pautas originais e múltiplos manuscritos dos mais diversos autores, portugueses e estrangeiros, estarão à venda por apenas €20 por peça.
O resultado desta venda será exclusivamente aplicado na edição da "aguasfurtadas" 11, cuja produção se encontra suspensa por falta de verba.

José Luís Peixoto na Livro do Dia



Amanhã, pelas 16 horas, José Luís Peixoto estará na Livraria Livrododia - Centro Histórico (em Torres Vedras: Praça Machado Santos, n.1-4 R/c), para uma sessão de autógrafos.

Novo romance de Mário de Carvalho

«Eu quis escrever o romance de uma paixão devastadora, imperiosa e obsessiva, que assombra para além da morte. E quis começar a construir um universo ficcional povoado de homens mal amados». Foi com estas palavras que Mário de Carvalho falou à Lusa sobre o seu próximo romance, A Sala Magenta, que será brevemente apresentado aos leitores.

Fonte: Diário Digital.

Gil Vicente na Assírio



Frágua de Amor / Floresta de Enganos, de Gil Vicente, com edição da Assírio e Alvim (na colecção pequenina, do Gato Maltês). Terá chegado hoje às livrarias.

Correntes d'Escritas: Notas da Póvoa III

Uma das experiências verdadeiramente epifânicas das Correntes d'Escritas é ver Daniel Mordzinski em acção, de câmara em punho, registando momentos, gestos, palavras e afectos.

Asas sobre a América

Motivos de força (muito) maior impediram-me de aceitar o convite da FLAD para estar presente na conferência de Eduardo Lourenço na abertura do ciclo Asas Sobre a América. Resta-me anotar na agenda a data da próxima conferência: será no dia 28 de Fevereiro, pelas 18h30, e Gonçalo M. Tavares falará sobre Philip Roth. A entrada é gratuita.

20 fevereiro 2008

Pierre Klossowski na Antígona



A Moeda Viva, de Pierre Klossowski. Tradução de Luís Lima. Edição da Antígona.
Nas livrarias a partir de 23 de Fevereiro.

Dos conceitos: a existência

Milan Kundera, A arte do romance

II

(Breve selecta da História do Romance Moderno, a partir de Milan Kundera)

«Quando Deus abandonava lentamente o lugar de onde tinha dirigido o universo e a sua ordem de valores, separado o bem do mal e dado um sentido a todas as coisas, Dom Quixote saiu de casa e já não estava em condições de reconhecer o mundo. Este, na ausência do Juiz supremo, apareceu subitamente com uma terrível ambiguidade; a única verdade divina decompôs-se em centenas de verdades relativas que os homens partilharam entre si. Assim, o mundo dos tempos modernos nasceu e o romance, na sua imagem e modelo, nasceu com ele. (pp. 18,19)
«Os primeiros romances europeus são viagens através do mundo, que parece ilimitado. (…) O infinito perdido do mundo exterior é substituído pelo infinito da alma. A grande ilusão de unicidade insubstituível do indivíduo, uma das mais belas ilusões europeias, floresce. (pp. 20,21)
«Passados três séculos que aconteceu então à aventura, esse primeiro grande tema do romance? Ter-se-á ela tornado na sua própria paródia? Que quer isso dizer? Que o caminho do romance se conclui num paradoxo?
«Kafka e Hasek confrontam-nos, pois, com este imenso paradoxo: durante a época dos Tempos modernos, a razão cartesiana corroía um após outro, todos os valores herdados da Idade Média. Mas, no momento da vitória total da razão, é o irracional puro (a força não querendo senão o seu querer) que se apoderará do palco do mundo porque já não haverá nenhum sistema de valores, comumente aceites, que possa fazer-lhe obstáculo.
«Os últimos tempos pacíficos, em que o homem tinha tido de combater apenas os monstros da sua alma, os tempos de Joyce e Proust, tinham terminado. Nos romances de Kafka, de Hasek, de Musil, de Broch, o mostro vem do exterior e chama-se História; não se parece já com o comboio dos aventureiros; é impessoal, ingovernável, incalculável, ininteligível – e ninguém lhe escapa. É o momento (logo a seguir à guerra de 14) em que a plêiade dos grandes romancistas centro-europeus percebeu, tocou, aprendeu, os paradoxos terminais dos Tempos modernos.»

A desesperança, o vazio, a superficialidade parecem assim ser as únicas sobreviventes da aventura, do idealismo, do realismo, da alteridade e do sonho. Apenas a beleza permanece, como espécie de lugar possível de surpresa. «(…)todos os aspectos que o romance descobre, descobre-os como beleza. (…) Beleza, a última vitória possível do homem que já não tem esperança. Beleza na arte: luz subitamente feita do nunca-dito.» (p.143) Nesse aspecto, Kundera não está longe da perspectiva defendida por pensadores, filósofos e artistas. A pós-modernidade assume-se, para muitos, como o último lugar, o da sobrevivência irónica e pragmática. A lucidez de que fala este autor parte dessa consciência, de que já não há lugar outro, fora ou dentro da existência individual.
Provavelmente por isso, os romances de Milan Kundera tendem para o reconhecimento e as reflexões, mesmo que enquadradas numa forma de existência, não são muitas vezes mais do que variações sobre si mesmas. As expectativas de leitura saem logradas pela repetição de paradigmas de existências frustradas, amarguradas, desatentas, insatisfeitas, em conflito com um contexto pessoal opressor. A sua história particular é sugada pelos temas (pelas palavras em torno das quais se reflecte), dentro de uma organização irónica e paródica, como única possibilidade perante a ausência de respostas, de revoluções. Nos seus romances, Kundera justifica com o texto os paradoxos que considera existir, mas não se leva ao limite, como Kafka, que tanto admira e cuja obra escalpeliza no volume. A fórmula de Kundera é mais previsível e apreensível do que a de Kafka, porque este último leva as situações e as personagens ao limite do inapreensível, seja ele a culpa, a inverosimilhança, ou a crueldade. A claustrofobia que Kafka provoca renova-se, as palavras de Kundera reafirmam-se num circuito fechado, circular.

Dos conceitos: A existência

Milan Kundera, A arte do romance
I

Na compilação de ensaios e entrevistas que sugestivamente denomina A arte do romance, Milan Kundera traça um retrato acerca da história do género, bem como do seu processo criativo.
A noção de existência é fulcral no seu pensamento, aparecendo transversalmente como pêndulo original. O mapa construído pelo autor depende depois das possibilidades de explorar a existência, de a fazer eclodir contra a magnificência dos grandes acontecimentos macro e micro sociais. O que deve vir à superfície da narrativa são insignificâncias que toldam o comportamento, que o condicionam num caminho sem fim conhecido, sem esperança. «De entre as circunstâncias históricas só retenho aquelas que criam às minhas personagens uma situação existencial reveladora. (…) O romance não examina a realidade, mas sim a existência. E a existência não é o que se passou, a existência é o campo das possibilidades humanas, tudo o que o homem pode vir a ser, tudo aquilo de que ele é capaz. Os romancistas elaboram o mapa da existência ao descobrirem esta ou aquela possibilidade humana. Mas, mais uma vez: existir significa: “estar-no-mundo”. É preciso, portanto, compreender quer a personagem, quer o seu mundo como possibilidades.» (pp. 52,58) A existência kunderiana não é psicológica; é paródica e irónica, como resposta à inevitabilidade da vida sem maniqueísmos, crenças ou idealismos. A tese, qualquer que seja, aparece invertida no seu princípio estrutural, aqui reduzido ao insignificante drama individual a que a narrativa dá atenção na sua condição. O exemplo não é generalizável, mas as derivações temáticas são. A propósito de uma personagem, Kundera constrói unidades temáticas abstractas que define como «interrogações sobre a existência». «Um tema é uma interrogação existencial. E cada vez mais me apercebo de que uma tal interrogação é, afinal, o estudo de determinadas palavras, de palavras-temas. O que me leva a insistir: o romance baseia-se principalmente nalgumas palavras fundamentais.» (p.103)
A diegese romanesca serve de suporte ao desenvolvimento dos temas. A beleza, a alma, a fraqueza, a cobardia, o corpo, o esquecimento, a leveza ou o risível atravessam a obra do escritor, derivando em contextos diferentes para sempre se corroborarem, se fortalecerem, se complementarem.
Há, na concepção de romance apresentada por Kundera, uma clara relação com a sua interpretação da história do género, que considera encontrar-se, a partir do pós-guerra, no tempo dos paradoxos terminais.

19 fevereiro 2008

Correntes d'Escritas: Notas da Póvoa II

Entre conversas e debates, um (re)reencontro inesperado. E digo (re)reencontro porque o primeiro reencontro se tinha dado há uns tempos, na blogosfera. António Ferra, escritor e artista plástico, foi também, para minha sorte, meu professor no secundário. A cadeira tinha um daqueles nomes que soavam a inovador e a pomposo nos novos curricula da reforma acabadinha de estrear (mais uma, antes das muitas que se lhe haviam de seguir): Técnicas de Tradução de Inglês. Para nós, era TTI, claro está, e era uma novidade absoluta. Nas aulas do António Ferra trabalhava-se a sério, mas sobretudo falava-se de muitas coisas paralelas, e por isso muito a propósito, à nobre arte da tradução. Aprendi muito, pratiquei o que pude e fiquei com a memória agradável de um bom professor.
Há um ano, mais coisa menos coisa, redescobri-o num blog: O Funcionamento de Certas Coisas. E o dito blog dava bem conta daquele imaginário que eu recordava das aulas. Entre cenas e objectos do quotidiano e memórias respigadas a partir de outros objectos, mais antigos, encontravam-se divagações e perscrutações sobre os mecanismos das coisas, que são afinal os mecanismos de tudo, inclusive de nós próprios - às vezes encravam, outras revelam funcionamentos inesperados e até inapropriados, e no entanto prosseguem. Depois o blog parou e eu pensei que tivesse sido de vez. Na Póvoa do Varzim, para além de re-reencontrar o António Ferra, fiquei a saber que o Funcionamento de Certas Coisas ainda funciona. Segue já para a barra dos links, para a leitura diária.

Edições Nélson de Matos

Lavagante, o inédito de Cardoso Pires que Nélson de Matos anunciou há algum tempo, chega amanhã às livrarias com a chancela homónima do editor. No Diário de Notícias, Ana Marques Gastão escreve sobre o livro.

18 fevereiro 2008

Alain Robbe-Grillet (1922-2008)

O escritor Alain Robbe-Grillet morreu a noite passada, na sequência de problemas cardíacos.
No Le Monde, Michel Contat traça-lhe o retrato literário e assina as despedidas.

Revisão - formação Booktailors

O mal das gralhas afecta muitas das páginas impressas que por aí vão circulando... Numa das frentes possíveis, os Booktailors juntam-se ao combate e disponibilizam uma oficina de revisão de texto, coordenada por Raquel Mouta.
Os interessados têm toda a informação aqui.

Fundação José Saramago - sessões para os mais novos

Da Fundação José Saramago chegou-nos a informação que se segue:

A propósito do livro de José Saramago 'A Maior Flor do Mundo', do qual foi produzido um pequeno filme de animação, decidiu a Fundação iniciar um ciclo de apresentação de ambos em sessões interactivas, supervisionadas por colaboradores da Fundação devidamente credenciados para o efeito, com o apoio dos professores ou bibliotecários. Nesse sentido, temos ao seu dispor e à disposição das crianças, e se decidir aceitar este nosso convite, sessões sobre o livro e o filme com as seguintes características:

- local: Fundação José Saramago - Lisboa
- faixa etária: entre os seis e os doze anos
- nº máximo de participantes (por sessão): 60
- duração: cerca de sessenta minutos
- datas: todas as terças e quintas-feiras
- horários: das 10h às 12 horas e das 14h 30m às 16 horas

Basta contactar-nos, para marcação da sua visita, através do telefone:
21 816 17 67
ou do e-mail:
info.pt@josesaramago.org

17 fevereiro 2008

Correntes d'Escritas: Notas da Póvoa I

Antes de qualquer outra coisa, é da mais elementar justiça dizer que as Correntes d'Escritas se apresentam com uma organização verdadeiramente irrepreensível, com um ambiente descontraído e nem por isso menos sério ou interessante e com um modo muito próprio de acolher calorosamente os seus participantes. A organização, elaborada por uma equipa de que Manuela Ribeiro e Francisco Guedes são os responsáveis, é de tal maneira eficaz que é frequente ouvir os portugueses comentando que aquilo 'nem parece Portugal' (o que diz tanto sobre a eficiência da coisa como da nossa natural tendência para a auto-comiseração).

Resultados práticos de uma excelente organização e de uma progranação bem pensada e cuidadosamente preparada: auditórios cheios, independentemente da hora e do dia (a sessão de Sábado de manhã esgotou as cadeiras do Auditório Municipal, as escadas e os vários espaços de acesso ao palco), conversas que fluem sem barreiras entre escritores muito ou pouco conhecidos e entre estes e os leitores e uma boa disposição que proporciona o grande trunfo das Correntes - o surgimento constante de histórias que alguém conta e que rapidamente ganham a aura de anedotas que ficarão, necessariamente, para a história do evento (foi frequente ouvir histórias que tinham sido contadas por participantes das edições anteriores, e gente que com essas histórias dialogava, acrescentando-lhes outros fios para um diálogo que parece interminável).

E para as primeiras impressões ficarem completas, faltará referir a comida. Não porque a comida seja o motivo que leva tanta gente à Póvoa do Varzim nestes dias (sem desprimor para os restaurantes que se associaram ao evento, e onde se comeu sempre muito bem), mas porque é à volta da mesa que boa parte das conversas se desenrola, que encontros e reencontros acontecem e que projectos se vão engendrando com o calor que só a partilha dos comensais permite.
Quando percebi que os computadores da Casa da Juventude eram demasiado concorridos e que, por isso, seria quase impossível actualizar o Cadeirão em directo, lamentei não ter levado um portátil. Mas rapidamente percebi que isso me teria mantido reclusa no quarto ou isolada numa mesa do bar sempre que não estivesse a acompanhar as várias sessões do dia, e que essa reclusão poderia ser muito benéfica para a actualização regular deste blog, mas ter-me-ia privado de todas as conversas, (re)encontros e partilhas. E isso, lamento, não compensaria nenhuma das visitas extra que teríamos aqui no estaminé. Assim, reencontrei o Carlos Quiroga e a Teresa Sobral e matei as saudades dos amigos galegos, troquei ideias e dúvidas com o Rui Grácio e a mulher (é horrível dizer isto assim, mas não consigo lembrar-me do nome e não queria deixar de a referir), conheci o trabalho do Michael Kegler e o Luís Filipe Cristóvão, partilhei visões do mundo com a Eugenia Almeida e ouvi as histórias inimagináveis do Ondjaki. Suspeito que uma parte considerável de tudo isso não se tranformará em palavras assim tão facilmente, mas reservarei os próximos dias para me dedicar à tarefa.

De regresso

O cansaço da Póvoa ainda se faz sentir; de resto, só trago boas impressões das Correntes d'Escritas. Nos próximos dias darei conta do que vi e ouvi, das histórias, dos livros, dos convívios e, sobretudo, das pessoas.

15 fevereiro 2008

Menção Especial para a Cotovia

A editora Cotovia recebeu uma Menção Especial da Associação Portuguesa dos Críticos de Teatro pelo seu trabalho de edição de textos dramáticos, muitas vezes em sintonia com o próprio trabalho das companhias.

"Exercendo a sua actuação editorial em matérias, intenções, parcerias e formatos muito diversos, os Livros Cotovia têm contribuído de forma superlativa para a criação de um repertório de teatro em Portugal, quer editando originais portugueses, quer promovendo ou apoiando traduções de importantes textos da dramaturgia mundial.
Configura esta sua prática uma visão de estimulante abertura não apenas a uma escrita em que poucas editoras gostam de arriscar, mas também à realidade viva da criação teatral ao fazer convergir muitas vezes a publicação dos volumes com a subida à cena das peças, sejam elas de portugueses ou de autores estrangeiros traduzidos.
Reconhecendo embora a evidência de que o espectáculo não se resume ao texto escrito, a Associação Portuguesa de Críticos de Teatro não pode deixar de destacar a relevância da produção escrita para o palco, ao mesmo tempo que reconhece que as palavras escritas para a cena não se esgotam numa leitura do "literário", antes obrigam a uma atenção multidisciplinar em função da materialização possível dessa textualidade. Daí precisamente a importância de sublinhar a convergência produtiva – para espectadores e leitores – da simultaneidade do aparecimento do texto nestas duas "plataformas" de realização material.
A importância desta deliberada intervenção dos Livros Cotovia no panorama do teatro que se escreve e faz em Portugal justifica plenamente a Menção Especial que o júri da APCT decidiu agora atribuir-lhe."

Associação Portuguesa de Críticos de Teatro
Os critérios editoriais da Cotovia têm contribuído para uma amplificação da qualidade do livro. Os livrinhos de teatro são disso um exemplo. Para o leitor não espectador, a experiência de ler teatro permite-lhe entrar no universo imbricado do texto e da sua composição paratextual (a cena, o acto, o movimento que adensa o texto, o enche e até o desvia da leitura silenciosa e individual). A partir do texto, o próprio leitor sente-se invariavelmente compelido para o jogo imaginário dessa dinâmica do espaço e aceita, naturalmente, a economia do discurso, perante as inúmeras possibilidades dramatúrgicas. A experiência de leitura oferece uma apreensão, ainda que superficial, da experiência de encenação, e tudo se torna, num macro contexto, reconhecível. Dentro dele, o desejo e o espanto podem finalmente exercer o seu poder.

14 fevereiro 2008

Regressos e partidas

Algumas vitaminas mais tarde, estou em condições para voltar a instalar-me. Enquanto estive longe do Cadeirão, o Prémio Literário Casino da Póvoa foi anunciado: Ruy Duarte de Carvalho, com Desmedida- Luanda - São Paulo - São Francisco e volta (editado pela Cotovia). Numa coincidência que não me lembro de já ter experimentado, é precisamente o livro que estou a ler.

Amanhã parto cedo para a Póvoa do Varzim. Estarei de serviço, mas não deixarei de contar como foi. Entretanto, podem ir acompanhando o dia a dia do evento com o Luís Filipe Cristovão, que já por lá anda desde ontem.

13 fevereiro 2008

Pausa forçada

Por aqui persistem os sintomas, ainda que em franca melhoria: febre, dor de garganta e poucas forças. Entretanto, a Casa Fernando Pessoa já está entregue (a Inês Pedrosa, que terá de continuar a trabalhar quase sem orçamento, como já vinha acontecendo há algum tempo por aquelas bandas), o acordo ortográfico continua a criar debate e as Correntes d'Escritas começam hoje, na Póvoa do Varzim. E agora vou voltar para as mantas e para os jornais em atraso, que alguma vantagem há-de tirar-se desta coisa da febre.

11 fevereiro 2008

Pré-Publicação: Poesia, Guilherme de Aquitânia (Assírio e Alvim)




Por incrível que pareça, só com este volume se editam pela primeira vez em português ou se traduzem pela primeira vez em português os 11 poemas que nos chegaram de Guilherme IX de Aquitânia. De alguns deles já havia traduções avulsas; mas espanta que nem nas últimas décadas, em que se traduziram e celebraram em português, de Portugal ou do Brasil, tantos poetas menores de várias línguas, tenha suscitado grande atenção (a tradutores como a historiadores e a ensaístas) a produção preservada do "fundador" da poesia ocidental, do inventor do "amor cortês", do fabuloso criador de poemas emblemáticos sobre a arte de viver, de amar e de poetar, criador que Ezra Pound considerou tão moderno da sua época como da nossa.

(Da Introdução, de Arnaldo Saraiva)


I. Companheiros, farei um poema excelente

Companheiros, farei um poema excelente:
terá mais de louco que de inteligente;
misturará amor, prazer e fogo adolescente.

Por vilão tende o que entendê-lo não tente,
quem no seu coração o não guarda ou sente:
duro é perder o amor quando o achámos tão ardente.

Dois cavalos tenho para montar contente,
qual deles o mais ladino e o mais valente,
mas não posso ter os dois, que um o outro não consente.

Se eu os domasse a meu modo eficiente,
manteria o equipamento imponente,
pois montaria melhor que qualquer outro vivente.

Um foi cavalo montês do melhor dente,
mas tão arredio foi tão longamente,
tão feroz e selvagem, que montá-lo é imprudente.

Outro em Confolens se fez experiente;
de algum mais belo nunca ninguém foi ciente;
nem por ouro ou por prata o trocaria, é evidente.

Potro ainda, a seu dono o dei de presente,
com a condição de, por cada ano ausente,
eu o poder usar mais de um século livremente.

Cavaleiros, dai-me um bom conselho urgente.
Uma escolha me embaraça de repente:
não sei se optar por Inês ou Arsénia é diferente.

De Grimel, bens e castelo, sou tenente,
e por Niol me imporei a toda a gente.
Ambas as terras juraram servir-me fielmente.



Poesia, de Guilherme IX de Aquitânia
Tradução e introdução de Arnaldo Saraiva
Lisboa, Assírio e Alvim

Nas livrarias a partir do próximo dia 22 de Fevereiro.