11 fevereiro 2008

Ruy Duarte de Carvalho

O Ciclo dedicado a Ruy Duarte de Carvalho começa hoje, no Centro Cultural de Belém. Conversas, lançamento de um livro, cinema, teatro e uma exposição são alguns dos eventos programados, para além de um encontro do autor com os seus leitores (no dia 17, às 16h).



A programação completa pode ser consultada aqui.

A Biblioteca que é mais um museu

Inaugurada com a pompa dos grandes eventos, a bibliioteca desenhada por Siza Vieira, em Viana do Castelo, tem as portas fechadas todas as manhãs. Para além disso, pareceque não conta com uma máquina de fotocópias, que mais de metade do espólio ainda está a ser transferida e que o material áudio e vídeo ainda está a ser montado. Assim, nas palavras do presidente da autarquia ao Diário de Noticias, "neste momento, o edifício está a funcionar mais como museu visitável do que propriamente como biblioteca".

10 fevereiro 2008

Leituras

Um longo texto de John Preston sobre a biografia de Kenneth Grahame, autor do belíssimo O Vento nos Salgueiros, cuja publicação comemora este ano o seu centenário (em português, está editado pela Tinta da China).

09 fevereiro 2008

Mas deve ter corrido mal a uma série de gente...

O suplemento Actual, do Expresso, tem uma secção chamada 'A Semana' onde, em duas colunas, seis pessoas ou instituições são repartidas entre o 'correu bem a...' e o 'correu mal a...'. Na edição de hoje, a primeira aparição da coluna 'correu bem a...' é Américo Areal, responsável pela livraria Byblos, que acaba de anunciar a abertura de uma nova filial no Porto (ainda maior do que a primeira, ainda mais espectacular e, quiçá, ainda com mais titulos novos e fundos), estando a prever próximas aberturas em Braga e Faro. Tudo seria bonito e exemplar de como os negócios em torno dos livros vão tão bem, não fosse o pequeno pormenor de os trabalhadores da Byblos não estarem muito contentes com o processo de pagamento dos salários a que têm direito. Os zunzuns já vêm de muitos sítios e começam a fazer-se notar, mas enquanto os jornais não se lembram de investigar um bocadinho e perceber o que se passa, as notícias de novas aberturas lá vão prolongando o efeito de marketing de que a Byblos anda a beneficiar há vários meses. Para a edição do próximo Sábado podiam perguntar aos trabalhadores da Byblos se a semana lhes correu bem a eles.

08 fevereiro 2008

Momento de génio



O momento de génio supera a arte enquanto projecto. É o acontecimento único, que se repete disseminado e em alteridade no tempo e no espaço, provocando efeitos sensíveis e indizíveis de espanto. A memória, vestígio do momento, surge como um fragmento que não obedece à ordem discursiva, lógica, causal e narrativa. Esse momento de génio, único, não é recebido por todos da mesma forma. Aí começa a luta de titãs entre um acontecimento sem limites e a necessidade de o limitar para o apreender.

Crónica do Descalabro I

Quando comecei a frequentar a secção de reservados da Biblioteca Nacional, ainda na miragem de me transformar numa medievalista com óculos encerrada numa biblioteca intemporal, sentia uma espécie de aperto no estômago sempre que tinha de requisitar um manuscrito. Lembro-me bem da primeira vez que isso aconteceu: o manuscrito era uma compilação de vidas de santos, feita no Mosteiro de Alcobaça em meados do século XIV, e a funcionária da secção, desconfiada dos meus ténis e do meu ar pouco medieval, não acreditou à primeira que eu fosse investigadora, nem sequer que tivesse acabado o liceu (e isto deve abonar a favor do meu ar juvenil, porque na altura já estava a iniciar o mestrado). Ultrapassado o equívoco etário, e rapidamente transformado o ‘menina’ em ‘doutora’, ou não estivéssemos em Portugal, o manuscrito lá veio.
Quando uma segunda funcionária colocou a caixa de cartão cinzento em cima da minha mesa, as tremuras começaram. Tentando manter a compostura, lembrei-me das regras que tinha lido em vários livros sobre como manusear correctamente um manuscrito tão vetusto – afinal, se alguém se deu ao trabalho de escrever regras tão repetidas em manuais de critica textual e filologia, elas teriam alguma razão de ser. Recordadas as regras, dirigi-me novamente à funcionária e solicitei-lhe as luvas. Depois dos ténis, isto foi o descalabro. “ – Luvas? Nós aqui não usamos luvas!”, respondeu ela, como se nunca ninguém houvesse referido a importância de um par de luvas no manuseamento de espécies antigas, para evitar que a transpiração natural das mãos degradasse o pergaminho ou o papel. Voltei para o lugar, compreendendo que na terra dos ‘doutores’ instantâneos não era preciso ter tantos cuidados com manuscritos antigos e tentando encontrar uma forma de dominar o nervosismo e, claro, a transpiração das mãos. Não correu mal a minha estreia nos manuscritos, e rapidamente aprendi que a veneração e o inerente cuidado com livros antigos era uma coisa pouco considerada por aquelas bandas. Já a utilização de ténis nos dias de visita aos reservados era vista como coisa pouco credível...
Algumas visitas mais tarde, e vários manuscritos depois, a coisa agravou-se. Começou a ser frequente encontrar manuscritos com folhas arrancadas ou com pequenos pedaços (aparentemente correspondendo a letras capitais iluminadas) cortados à tesoura. Como é que uma tesoura entra na Biblioteca Nacional, é um mistério por esclarecer. Como é que um leitor utiliza uma tesoura para cortar pedaços de manuscritos numa sala que não é assim tão grande e que está sempre vigiada, é um mistério ainda maior. Consultando os vários volumes da História da Biblioteca Nacional descobrem-se elementos que confirmam a destruição como tradição: notícias de manuscritos roubados ou escândalos na imprensa com um antigo director cuja vigência coincidiu com o desaparecimento de algumas espécies e com a destruição de partes de manuscritos fazem parte do rol. Quem imaginava a secção de reservados como uma espécie de templo reservado a iniciados onde se guardava a sete chaves uma parte considerável da história, da cultura e da língua estava a delirar. Eu estava seguramente a delirar quando imaginei semelhante coisa.
Podia continuar e apontar a péssima qualidade de alguns microfilmes (que se destinam a evitar o recurso desnecessário aos manuscritos mas que, estando em mau estado, só servem para aumentar as dúvidas de leitura e as dioptrias), a permanente avaria das máquinas de fotocópias ou a necessidade de se imprimirem quatro folhas – quatro – de papel A4 sempre que alguém tem de pagar vinte cêntimos por duas ou três fotocópias (é mesmo verdade: uma folha é para a tesouraria, a outra para o utilizador e as outras duas parece que ficam no arquivo... A situação seria cómica se não fosse tão triste e as funcionárias não podem evitá-lo, embora eu ache que o queriam fazer, porque são ordens superiores!).
Agora que a anterior ministra da cultura foi substituída, não seria boa ideia pensar um bocadinho nisto? Bem sei que a lista de coisas para pensar e resolver deve ser quase infinita, mas creio que o património que se guarda naquela biblioteca não é exactamente vulgar... Ali estão os testemunhos de vários séculos de história, fontes privilegiadas (e em muitos casos, únicas) para o estudo da cultura, da política, da sociedade e da língua portuguesa. Não seria mais interessante recuperar e proteger esse património, em vez de, por exemplo, gastar uns milhões no dito ‘museu do mar e da língua’, que afinal será uma sequência de computadores e ecrãs (a querer imitar o Museu da Língua de S. Paulo, mas em pequenino, como quase tudo, como sempre) que custaram ao país a destruição do Museu de Arte Popular (para cuja reabertura a União Europeia largou algum dinheiro, destinado exclusivamente a esse objectivo) e que não terão maior função do que entreter jornalistas no dia da inauguração, enquanto alguém debita as maravilhas do choque tecnológico? Se calhar é uma pergunta tão ingénua como acreditar na inexpugnabilidade da secção de reservados da Biblioteca Nacional.

Leituras

No El Cultural, uma entrevista com Martin Amis. No ABC de las Artes y las Letras, um texto sobre o centenário de Rafael Lapesa.

07 fevereiro 2008

Tesouros da Biblioteca Nacional de França

Todos os meses, o site da Biblioteca Nacional de França 'expõe' uma das suas espécies. Durante este mês, pode ver-se um manuscrito iluminado sobre a vida de S. Francisco de Assis, datado de 1480 (aproximadamente).

Sublinhados VII

"Aquele traço do seu lápis ou da sua esferográfica na margem do ângulo inferior direito da página que significava nihil obstat, texto revisto, sem erros, santificado pelo rigor. Imprima-se, publique-se, envie-se, despache-se pelo correio para o leitor, o contribuinte, o cliente ou o comerciante, a parte em litígio ou o advogado. Para ordenar o mundo como só a letra impressa pode fazê-lo."

George Steiner, "Provas", in Provas e Três Parábolas, Gradiva, 2008 (tradução de MIguel Serras Pereira; p.15)

06 fevereiro 2008

Sítios para visitar antes de morrer IV



Corner-Stone Bookshop, em Plattsburgh (EUA).

Padre António Vieira

Há quatrocentos anos, nascia um dos mais extraordinários, elaborados e cultos prosadores da língua portuguesa.



As comemorações andarão um pouco por todo o lado, mas destaca-se a conferência de Eduardo Lourenço ("Vieira: do Império do Verbo ao Verbo como Império"), às 18h, na Academia das Ciências de Lisboa, o recital de órgão e pregação do "Sermão de Quarta-feira de Cinzas", às 21h30 na capela da Universidade de Coimbra (ou o concerto "Foi-nos um Céu Também", da orquestra Divino Sospiro e do Coro Officium, à mesma hora no Centro Cultural de Belém) e o 'Eléctrico chamado Vieira', iniciativa do Centro Nacional de Cultura que alterará, a partir das 15h, a rotina do 28, transportando especialistas na vida e na obra do Padre António Vieira que falarão aos passageiros daquilo que sabem.

05 fevereiro 2008

Ficção Científica

No Times Literary Supplement, Dinah Birch escreve sobre Science Fiction Omnibus, a mais recente antologia de ficção científica da Penguin.

04 fevereiro 2008

Livrarias independentes

Via A Origem das Espécies, um artigo do The Independent sobre o crescimento das livrarias independentes no Reino Unido.
Tenhamos esperança...

Livreiros

O Bibliotecário de Babel inicia hoje, com a colaboração de Margarida Ferra, uma série de posts dedicada ao outro lado do balcão dos livros. Pedro Vieira (também conhecido por irmãolucia e, asseguro, um bom rapaz, apesar daquela fixação com o Ruca e a Carina...), actualmente a trabalhar na Byblos, é o primeiro entrevistado.

A leitura e o circo do mercado

No Hoja por Hoja de Fevereiro, Mauricio Tenorio Trillo escreve sobre A la sombra de los libros. Lectura, mercado y vida pública, um livro de Fernando Escalante Gonzalbo que muito provavelmente não chegará a este lado do mar, mas que parece reflectir sobre uma situação de contornos semelhantes à que se vive por cá: muita edição, grandes grupos a lutarem pelo monopólio do mercado, estrelas mediáticas vendidas como escritores de primeira água e o milagre da comunicação e do marketing a anunciar, todos os dias, a boa nova de que os livros são um 'produto' que vende bem. Pode ser que alguma livraria mais atenta importe o livro de Gonzalbo; até lá, a recensão já dá que pensar.

02 fevereiro 2008

Bookoffice

Os Booktailors já não moram só aqui; a partir de agora têm também uma morada física, na Rua Nova do Almada, nº 59, 3º andar, mesmo em frente à Livraria Ferin.
Felicidades para a casa nova!

01 fevereiro 2008

Pecadilhos III (mas com protesto)

Aos olhares confusos dos trabalhadores da livraria onde compro a imprensa e à farra de comentários jocosos dos meus amigos no início de cada mês, já me habituei. Mas passar por tudo isto, chegar ao conforto do sofá e descobrir que a crónica do meu conservador favorito desapareceu da Atlântico é que não! Primeiro sumiram-se os textos de Alexandre Soares Silva, agora desapareceu João Pereira Coutinho... Assim, não sei se vale a 'humilhação mensal'. Bem sei, há outros textos para ler (e eu leio-os, para aumento dos meus 'pecadilhos), mas estes eram os textos que justificavam imediatamente a compra. Vejam lá isso, senhores da Atlântico, vejam lá isso.

O regresso da LER

Foi a primeira revista que acompanhei sem falhas, número a número, e pela qual esperei com impaciência sempre que se aproximava a data de saída. Os primeiros números foram comprados pela minha mãe e desviados, com a sua complacência, para as estantes do meu quarto; os últimos já foram oferta do meu avô. Moram todos nas estantes cá de casa e ainda os releio com frequência.

Agora a Fundação Círculo de Leitores anuncia-lhe o regresso. Francisco José Viegas, seu director durante vários anos, voltará a dirigir a revista (abandonando a Casa Fernando Pessoa). E a partir de Abril, todos os meses, a LER voltará a estar nas bancas.



Por resolver fica o problema do espaço nas imediações deste Cadeirão. É que a prateleira das LER está lotada e as prateleiras vizinhas não estão a colaborar...

Fernando Assis Pacheco



Faria hoje 71 anos se o coração não o tivesse atraiçoado, à porta de uma livraria, já lá vão treze anos.
O site da Assírio e Alvim lembra o autor de A Musa Irregular e destaca os seus livros. O Cadeirão Voltaire presta a sua singela homenagem com a leitura de um poema.


PRANTO POR MANUEL DOALLO

Podia-se ter esborrachado qualquer 23 de Agosto
véspera do San Bartolomé e ele na moto
correndo de Vitoria para as mozas de Ourense
e para as tazas em que era ainda mais exímio

e deixa-se morrer unha serán poñamos
por caso desolada agora pai de filhos
a última queixa: que lhe doía um braço
em troques há tanto sacana que parece de ferro

vaite ó carallo ó morte que me levas
o meu primo galego Manuel Doallo
morte merdeira
coisa ruim de cinza e névoa e cinza

nem nunca nestas terras se me eu lembro
houve um outro rapaz de tanto garbo
como il que era cáseque um rei e querem
que eu o chore e ao coração coitelo?

barqueira que mo levas puta infame
eu berro e berro à soedá do rio

Fernando Assis Pacheco
A Profissão Dominante, 1982
(in A Musa Irregular, Edições Asa, 1996)

31 janeiro 2008

Inéditos de Camilo José Cela


(Fotografia: El Mundo)

O volume Pisando la dudosa luz del día, a editar brevemente pela Linteo (Ourense), recolherá os poemas da juventude de Camilo José Cela anteriormente editados e incluirá um conjunto de inéditos, alguns deles disponíveis para leitura no El Cultural.

O Cadeirão na Time Out

A ediçao de ontem da revista Time Out traz um texto de Isabel Lucas sobre dois blogs dedicados aos livros: este Cadeirão Voltaire e o Bibliotecário de Babel (que saiu Biblioteca de Babel...). Depois de o ler, fiquei com a certeza de que não terei muita vocação para dar entrevistas, porque das minhas palavras não se percebe aquilo que eu queria que as minhas palavras permitissem perceber. Por exemplo, onde se lê que "a ideia não foi a de criar um blogue de actualidade literária" devia ler-se que a ideia não foi apenas essa. O que eu queria dizer é que não pretendemos estar reféns da actualidade literária para escrever sobre livros e leituras, como acontece haitualmente nos jornais e revistas, mas isso não significa que a actualidade não nos interesse de todo, como se pode constatar nas várias entradas do Cadeirão. Significa, isso sim, que para além da atenção à actualidade, não teremos nenhum problema em escrever sobre um livro, ou mesmo um artigo de jornal, que tenha saído há dois, há dez ou há vinte anos, e que é nessa dupla atenção ao que é actual (ou ao que seleccionamos de entre o que é actual) e ao que já não faz primeiras páginas de suplementos que este blog se vai construindo.

De resto, ficam os agradecimentos à Time Out pelo interesse e pela divulgação (e pelo luxo da ilustração do José Carlos Farnandes a acompanhar o artigo...).

Livros em Desassossego

Hoje, a partir das 21h30, a Casa Fernando Pessoa recebe mais uma edição dos Livros em Desassossego. O debate terá o acordo ortográfico como tema central e Malaca Casteleiro, Vasco Graça Moura , José Eduardo Agualusa e Ivo Castro como convidados.
Para além do debate, Nélson de Matos apresentará a sua editora e escolherá três livros que gostaria de ter editado.

A moderação será da responsabilidade de Carlos Vaz Marques e a entrada, como sempre, é livre.

30 janeiro 2008

Leituras em grupo

Sempre encarei a leitura como um empreendimento solitário, independentemente das posteriores discussões a duas ou mais vozes. Em The Reading Groups Book descobre-se alguma coisa sobre os benefícios da leitura colectiva (ou da discussão colectiva sobre a leitura, já que a leitura propriamente dita será sempre individual) e fica-se a perceber que aquela ideia da leitura como salvação é, por vezes, uma situação muito real.



The Reading Groups Book
Jenny Hartley
Oxford University Press

Num registo mais leve, e não menos erudito por isso, vale a pena ler o que o Bibliotecário Anarquista tem para contar sobre comunidades de leitores na Antiguidade.

José Luís Peixoto premiado

José Luís Peixoto venceu o prémio Daniel Faria 2008 com o livro Gaveta de Papéis, que será publiucado pela Quasi. Peixoto sujeitou-se à avaliação de um júri (composto por Jorge Reis-Sá, Francisco José Viegas, Tito Couto e Vera Vouga) que só descobriu, surpreendido, a autoria dos poemas quando abriu o envelope com o nome do autor, como conta o Bibliotecário de Babel.

Surrealismo à venda

O manuscrito do Manifesto do Surrealismo, de André Breton, está à venda em Paris, assim como Poisson soluble, do mesmo autor. Os dois manuscritos serão leiloados no próximo dia 20 de Maio.

(Fonte: Diário Digital.)

Trocas

As boas notícias chegaram ontem, com a saída de Isabel Pires de Lima do Governo. Esperemos, agora, para ver o que nos reserva o futuro e José António Pinto Ribeiro.

29 janeiro 2008

A arte do não belo

Deste lado da cidade os autocarros andam cheios até tarde da noite. As pessoas andam cabisbaixas, as vozes são queixosas e infelizes. Deste lado da cidade os passeios estão sobrelotados de pés que se pisam e braços que se empurram. Deste lado da cidade as montras acumulam preços e produtos sem brilho. Deste lado da cidade não há espaço nem tempo para a qualidade, para respirar bem e devagar. Deste lado da cidade anseia-se por soluções, utilidade, e nem se espera saber o que é harmonia. Deste lado da cidade as avós, as mães e as crianças andam a par, estreitas na idade e no alto tom de voz.
Deste lado da cidade o valor está no preço e não se pede mais. É a vida sem arte.

5 602543 030015

Por mim, pagava-lhe a água
e a sandes (duvidosa, como
tudo o que aqui se faz). Mas não
posso ser despedida agora.
Ao dar-me o dinheiro, quase
pede desculpa dessa vida também
em forma de navalha romba.
Até, de certeza, amanhã – pois
nem a morte quer ir com a nossa cara.

Isilda ou a nudez dos códigos de barras, Manuel de Freitas, Black Son Editores, 2001

O código que se associa a um produto corresponde a todos os números, todas a senhas, que identificam o indivíduo, despersonalizando-o. Na indiferenciação normalizada, continuará contudo a haver a possibilidade de ler os pequenos comportamentos repetidos que ditam o individual. A leitura faz-se por interposição de um diálogo de identificação entre a empregada que ocupa a caixa do supermercado e a/o cliente, apesar de paradoxalmente, tudo não passar de um processo de disposição da ideia em texto.
Certo é que foi deste livro que me lembrei, na minha última visita ao Minipreço.

Edições Nélson de Matos

Os primeiros livros chegarão às livrarias entre Fevereiro e Março, com destaque para O Lavagante, um inédito de José Cardoso Pires. Até lá, pode consultar-se o site para ver que tipo de catálogo se está a preparar nas Edições Nélson de Matos.

No DN de hoje, Ana Marques Gastão conversa com o editor.

Casa da Palavra

Assim se chama a editora brasileira que (re)descobri ontem, nas bancadas da Letra Livre. A Casa da Palavra tem um catálogo generalista, onde cabem a literatura, a gastronomia, a arte e o bem estar, mas tem uma colecção particularmente interessante chamada 'Livros sobre livros', de que encontrei três ou quatro exemplares na Letra Livre.
Títulos como A Palavra Impressa, de Martyn Lyons, ou o quase 'clássico' O Bibliófilo Aprendiz - Prosa de um velho colecionador para ser lida por quem gosta de livros, de Rubens Borba de Moraes, fazem parte da colecção, bem como dois livros que têm a livraria parisiense Shakespeare and Company como cenário e que me estão a tentar através do ecrã do computador desde que lhes vi as capas...



Infelizmente, o preço dos livros importados do Brasil continua a ser uma barreira para quem os compra em Portugal. Isto apesar das boas intenções ciclicamente anunciadas por governos e organismos vários sobre o estreitar dos laços culturais luso-brasileiros.

Negócios editoriais (a saga continua)

No Jornal de Notícias on-linedois ou três artigos soltos que devem pertencer à peça de que os Blogtailors falavam ontem. Ainda não vi a edição impressa, mas espero que esteja mais completa...