26 janeiro 2008

Prémio D. Dinis para Manuel Alegre

Com o livro Doze Naus (D. Quixote), Manuel Alegre venceu a edição de 2008 do Prémio D. Dinis.



Do júri fizeram parte Vasco Graça Moura, Nuno Júdice e Fernando Pinto do Amaral.

(Fonte: Diário Digital.)

O mercado

Os jornais de hoje trazem mais informações sobre o estudo do Observatório das Actividades Culturais em torno do mercado livreiro. Há alguns números disponiveis, como os 381.000.000 de euros correspondente ao volume de negócios ligados ao sector do livro em 2005 (no Público). Para quem percebe pouco de contas e do funcionamento dos mercados, a leitura não é clara (ou então sou eu que não percebo mesmo nada de contas e mercados...) e há questões que ficam no ar - como perguntava Jaime Bulhosa há dois dias, numa caixa de comentários do Blogtailors, "do que é que estamos a falar quando falamos de volume de negócios, da facturação dos Editores ou da facturação das Editores, Gráficas, Distribuidores, Transportadores e Livreiros, tudo junto?". E se esta pergunta teve resposta entretanto, na mesma caixa de comentários, outras semelhantes surgirão à medida que os dados vão sendo disponibilizados. O melhor, por isso, é esperar pelas conclusões do estudo e perceber depois o que os dados clarificam sobre o mercado.

25 janeiro 2008

Novidades da Assírio e Alvim



Mil Planaltos - Capitalismo e Esquizofrenia 2, de Gilles Deleuze e Félix Guattari, sairá brevemente com chancela da Assírio e Alvim, à semelhança do que já tinha acontecido com Anti-Édipo - Capitalismo e Esquizofrenia, dos mesmos autores.

Ficções



O número 16 da revista Ficções estará nas livrarias até ao fim do mês. Alexandre Andrade, Pedro Manuel Calvete, António Figueira, Rui Cardoso Martins, Jorge Lobo Mesquita, Óscar de Sá, Amadeu Lopes Sabino e Ana Cláudia Santos são os autores que participam nesta edição.

Números para o mercado

Os resultados preliminares do inquérito sobre o sector do livro em Portugal, da responsabilidade do Observatório das Actividades Culturais, serão apresentados esta manhã, na Biblioteca Nacional, iniciando-se assim um processo que permitirá, espera-se, caracterizar com base em dados reais o mercado do livro português.

Na edição de hoje do Diário de Notícias apresentam-se alguns dados e Carlos da Veiga Ferreira, presidente da União dos Editores Portugueses, comenta os números e as tendências registadas pelos relatório preliminar. Para ler aqui.

24 janeiro 2008

O mundo dentro dos livros

Da vida secreta das plantas:





Seomara da Costa Primo, Compêndio de Botânica para o 2ºCiclo Liceal, Liv. Popular de Francisco Franco (depositária), s/data

23 janeiro 2008

Crónica dos Lugares IV

Não guardo uma memória muito nítida da primeira visita à Barateira. Terei lá chegado pela mão da minha irmã, que me ia ensinando os caminhos de Lisboa. Mas lembro-me bem das várias vezes em que lá voltei, assim que passei a ter idade para andar de comboio sozinha (um verdadeiro rito de passagem para os adolescentes suburbanos do meu tempo). As duas salas com estantes até ao tecto e pó de muitas gerações começaram, então, a ganhar a mesma dimensão que a gruta de Ali-Babá tinha ganho uns anos antes: com muito poucos escudos, voltava-se para casa com vários volumes e a escolha parecia interminável.

Nas prateleiras da Barateira descobri autores que, de outro modo, talvez só conhecesse muito mais tarde, aprendi a identificar editoras e catálogos e habituei-me ao design de algumas capas que ainda hoje guardo como bons exemplos. Na fase em que tinha a certeza de que quando fosse grande queria viver em Paris (numas águas-furtadas escurecidas, obviamente, mas talvez sem a parte decadente da tuberculose...) e em que a Françoise Sagan era a deusa do meu olimpo literário, passei boa parte das tardes livres em busca de mais títulos. Eu conhecia o Bonjour Tristesse e o Aimez-vous Brahms, mas precisava de mais. E encontrei: Um Raio de Sol na Água fria, Viver Não Custa, Dentro de Um Mês, Dentro de Um Ano. Quando a fase francesa acabou, foi lá que comprei os primeiros livros de Jack London, Machado de Assis e Steinbeck, e foi lá que procurei em vão a velha edição de Pela Estrada Fora, de Jack Kerouac, que só pude comprar em português muito depois, já na tradução de Relógio d’Água. Poucos anos mais tarde, com menos borbulhas e muitas certezas políticas ainda por questionar, as mesmas prateleiras forneceram-me doutrina e exemplos, para logo depois me fornecerem as dúvidas e inquietações de que nunca mais me separei.


Com o passar do tempo, a Barateira deixou de ser o meu ponto de refêrencia livresco. Conhecidos mais autores, a descoberta de nomes tornou-se pontual e a busca pelas estantes mais dada ao encontro de raridades bibliográficas ou velharias curiosas. Mas apesar do tempo, a imponência das duas salas separadas por um degrau onde as mesmas caixas de mapas parecem viver há décadas não perdeu o encanto e todos os motivos parecem bons para regressar. Há um ou dois anos, com o pretexto de um especial sobre livros policiais para a revista onde escrevo, passei por lá para colmatar algumas falhas na minha estante. O dossier falaria sobretudo de novidades editoriais, coisa que a Barateira não vende, mas isso não me impediu de encontrar um livro de Artur Cortez (com posfácio de Manuel Gusmão) da ‘Série Negra’ da Regra do Jogo, um ou dois livros do Inspector Maigret de Simenon, na velha edição da Bertrand, com o cachimbo a preto sobre a cor da capa, e alguns volumes mais antigos dos livrinhos de capa preta da Caminho. Tudo por poucas moedas, agora de euro. Tudo descoberto com os gestos de sempre: procurar com calma, ceder a todos os impulsos de curiosidade relativamente às lombadas que se vão sucedendo e deixar o inesperado levar a melhor no momento de decidir quais os livros que ficam e quais os que se trazem para casa. Nunca falhou.

Sublinhados VI

“Só no subsolo há segurança, paz e tranquilidade. E se as nossas ideias se ampliarem e aspirarmos à expansão, basta pormo-nos a escavar, e pronto! Se nos parecer que a nossa casa é um bocado grande, tapamos um buraco ou dois, e pronto! Nada de empreiteiros, pedreiros, comentários dos vizinhos a olhar por cima do muro e, acima de tudo, nenhuma dependência do estado do tempo.”

Kenneth Grahame, O Vento nos Salgueiros, Tinta da China (tradução de Júlio Henriques, p.83)

22 janeiro 2008

Prémio Vergílio Ferreira para Mário Cláudio

O Prémio Vergílio Ferreira acaba de ser anunciado e o autor distinguido nesta edição é Mário Cláudio.

A atribuição do prémio deste ano ao escritor Mário Cláudio foi decidida por unanimidade pelo júri, composto pelos professores universitários José Alberto Gomes Machado (Évora, presidente), José Carlos Seabra Pereira (Coimbra), Isabel Allegro de Magalhães (Nova de Lisboa) e Elisa Nunes Esteves (Évora) e pela jornalista e critica literária Clara Ferreira Alves.

A academia de Évora homenageia Mário Cláudio como um «nome cimeiro das letras portuguesas», lembrando que o escritor foi considerado por Vergílio Ferreira «um dos nomes mais promissores da sua geração».


(Fonte: Diário Digital)

O blog da Pó dos Livros



Já mora na rede há uns dias e começa a ficar composto. O blog da livraria Pó dos Livros abre com Mr. Mann and Roy, da série Little Britain (reflectindo sobre as vicissitudes e os equívocos do comércio livreiro...), e prossegue com alguns livros em destaque, entre novidades e preciosidades bibliográficas. Vai para a barra dos links, claro.

Piratas de livros

O Diário de Notícias dá conta dos números conhecidos da pirataria livresca em 2007: cento e cinquenta mil euros, foi quanto rendeu a fotocópia, e ainda houve quem oferecesse a capa a cores aos potenciais clientes. No entanto, segundo os dados da Inspecção Geral das Asctividades Culturais, os números da pirataria têm vindo a decrescer desde que as inspecções a reprografias se tornaram frequentes.

21 janeiro 2008

A biblioteca é do povo!

Via 1979, a história de Tadeusz Glowinski, um self-made bibliotecário na cidade polaca de Olesnica.

(Uma história mesmo à medida do Bibliotecário Anarquista).

O ciclo dos livros em NY

Depois de lidos, ou de abandonados por falta de interesse da leitura, os livros que os novaiorquinos deixam à porta dos prédios têm um destino melhor do que a reciclagem a que estavam condenados: alguém os recolhe e os leva para uma das muitas livrarias de usados que há na cidade, voltando a permitir que outro alguém os compre para ler. É o que fazem Thomas Germain e Brian Martin, fornecendo as prateleiras da Strand Bookstore; é o que devem fazer outras pessoas noutras ruas da cidade, salvando volumes da guilhotina recicladora, reanimando o negócio diário das livrarias de segunda mão e mantendo um trabalho tão respeitável como qualquer outro... ou talvez mais. A história toda pode ler-se aqui.

20 janeiro 2008

Ligar a televisão

O Câmara Clara de hoje é dedicado a Luiz Pacheco. Os convidados são Alberto Pimenta e Vítor Silva Tavares. É preciso dizer mais alguma coisa?
Às 22h45, na RTP 2.

19 janeiro 2008

Se a ASAE descobre...



...que há livros que parecem maços de cigarros, não sei o que será da Tank.

18 janeiro 2008

Encontros felizes II



Foi na Pó dos Livros, onde os fundos e as novidades escolhidas a dedo coexistem em boa harmonia e a vertigem da rotação dos escaparates parece não vingar.
A edição é de 1989, da Guimarães Editores, e o exemplar está em perfeito estado.

Leituras

Eliot Weinberger sobre a tradução de Robert Alter do Livro dos Salmos, um dossier sobre as primeiras leituras, no The Telegraph, e a habitual entrevista das sextas-feiras no Blogtailors, hoje com Carlos da Veiga Ferreira, da Teorema.

17 janeiro 2008

Manguel nas Massey Lectures



A última edição das Massey Lectures, verdadeiro acontecimento na programação cultural canadiana, teve Alberto Manguel como orador e o modo de viver em sociedade a partir do que a literatura nos pode ensinar como tema. O resultado foi editado no livro The City of Words (House of Anansi Press, 2007), recentemente traduzido em Espanha. E por cá, já alguém encomendou a tradução?

Biblioteca Digital Hispânica

O ministro da cultura de Espanha apresentou ontem o projecto Biblioteca Digital Hispânica, que começa com cerca de dez mil obras disponíveis para leitura on-line. O objectivo, nos próximos cinco anos, é digitalizar cerca de duzentos mil documentos de vários tipos, criando uma base representativa da cultura hispânica nas suas diversas vertentes. Para já, mapas, gravuras, manuscritos e várias obras magnas da literatura espanhola podem ser consultados aqui.

A notícia completa pode ser lida no El Mundo.

16 janeiro 2008

A montanha e o rato

A primeira incursão na Byblos foi ainda em Dezembro, um pouco depois da confusão natalícia. O calor abrasador a contrastar com a atmosfera exterior não facilitou o contacto inaugural, mas isso nem sequer é exclusivo da loja. Verdadeiramente desconcertante foi o que se conseguiu ver em poucos minutos: a luz branca, tipo cozinha, a alcatifa indescritível e os sofás à la Startrek. O espaço pode parecer tudo, mas está muito longe do meu conceito de livraria. Sim, há estantes com livros, e há sobretudo empregados atenciosos, mas o ambiente é demasiado próximo do de um centro comercial para parecer uma livraria confortável, onde apetece ficar a ler, vaguear pelas estantes ou trocar dois dedos de conversa com um livreiro. Dessa primeira incursão, que se pretendia meticulosa na busca pelas estantes das secções mais familiares, acabou por resultar pouco: uma chamada telefónica interrompeu o devaneio e foi preciso ir resgatar um sobrinho da hora do fecho da creche. Da passagem rápida pelas estantes de poesia, descobriu-se a ausência de qualquer livro de Eugénio de Andrade... e ficámo-nos pela letra A. Agendada nova incursão, a coisa foi sendo adiada... A vontade de ver o que faltava foi suplantada pela pouca vontade de regressar, o que já me aponta como cliente nada habitual, apesar da proximidade geográfica.

Regressei há dois dias. A reacção à chegada não mudou. Uma hora depois, confirmou-se a desilusão: o elemento que iria distinguir a Byblos das outras livrarias, e que foi anunciado inúmeras vezes antes da abertura oficial, não existe. É certo que se encontram muitos fundos editoriais nas estantes, e que se encontram livros e autores que há muito não se viam nas livrarias (Aquilino Ribeiro, José Rodrigues Miguéis ou Fernanda Botelho, para ficarmos pela literatura portuguesa), mas o paraíso dos fundos editoriais tal como foi anunciado não mora certamente na Byblos. E na estante de poesia (reduzida a dois corpos) havia dois exemplares de um único livro de Eugénio de Andrade. Manuel de Freitas e Rui Pires Cabral, que procurava especificamente, nem vê-los.
Quanto à tecnologia self-service, a estante mecânica não está acessível aos clientes e os ecrãs que funcionam não fornecem a informação que deveriam. Claro, uma livraria não vive de estantes mecânicas ou ecrãs, mas como ambos foram tão apregoados como os fundos editoriais a perder de vista, há quem se sinta defraudado.
Contas feitas, a Byblos é apenas mais uma livraria. Grande, com pretensões de modernidade e com muitos livros. Não tivesse tido uma campanha de marketing a prometer, literalmente, mundos e fundos e a desilusão não seria tão grande. Assim, lembra a história da montanha e do rato.

Se o Sporting não joga...

...há Escrita em Dia para ouvir na Antena 1, pelas 23 horas, com os Booktailors como convidados. Uma semana depois, parece que é desta.

Leituras

O pesadelo de qualquer biblioteca, o gigante chinês e a obra de Milton.

15 janeiro 2008

Pecadilhos II

“E o que é que estás a ler agora?”

“As crónicas do Auberon Waugh, no Daily Telegraph...”



“Porque é que continuas a ler autores reaccionários, que revirariam os olhos se conhecessem a tua destreza com o megafone, e que só ajudam a perturbar as tuas conversas com os amigos?”

“Porque escrevem bem. Sobretudo.”

Regresso à Baixa do Porto?

A Feira do Livro do Porto está à procura de um local para a sua próxima edição.

Reorganizando a biblioteca

Se organizar os livros aqui de casa já me parece tarefa hercúlea, não imagino o que seja tentar pôr estes em ordem.

Sean O'Brien

Em Outubro do ano passado, ganhou uma das categorias do prémio Forward; agora, acaba de ganhar o T.S.Eliot. E como diz o Guardian, não é muito comum um poeta ser distinguido com dois dos mais importantes prémios ingleses um a seguir ao outro, mas aconteceu com Sean O'Brien.

14 janeiro 2008

14 de Janeiro



14 de Janeiro, Al Berto, Wordsong

Bloco de Notas I

Dubravka Ugresic, Thank You For Not Reading – Essays on Literary Trivia, Dalkey Archive, 2003



Dubravka Ugresic nasceu na Jugoslávia, quando ainda existia a Jugoslávia. Com a guerra e a afirmação dos diferentes nacionalismos, a autora tornou-se persona non grata. Porquê? Porque escreveu frequentemente contra os nacionalismos, independentemente da sua facção, e contra a ideia de afirmar identidades pela força e pela humilhação de outras identidades. Com a ex-Jugoslávia para trás, Ugresic passou a viver entre os EUA e a Europa, entrando em contacto directo com um meio literário, editorial e académico que até aí não conhecia tão bem.
As informações biográficas são, neste caso, relevantes para uma leitura plena de Thank You For Not Reading, sobretudo pelo que acrescentam à voz narradora de cada um dos textos, como se revela logo na apresentação: “I wrote some of the essays under the mask of an East European grumbler confused by the dynamics of the global book market (...).” É sob essa máscara que Ugresic desvenda a sua estupefacção perante o enorme circo que se criou à volta dos livros e que podia ter-se criado à volta de outro ‘produto’ qualquer; afinal, os lançamentos megalómanos com actores e figuras do jet-set – descritos e analisados com humor e sarcasmo – têm pouco ou nada a ver com literatura.

Ugresic viveu sob o regime comunista e conhece bem os meandros da cultura autorizada e oficial, dos livros propagandeados (e dos muitos proibidos), da leitura para todos (desde que seleccionada a partir dos livros autorizados e muito recomendados pelo grande líder). As descrições do 1ºde Maio com os seus carros alegóricos de livros ou da promoção da leitura através – e unicamente – dos escritores que agradavam ao regime são, por isso, pessoais, mas não menos esclarecedoras. Mas o que torna este volume realmente interessante para uma reflexão sobre a indústria do livro e as suas ramificações na comunicação e no marketing é a comparação que a autora estabelece entre a ditadura do pensamento e da estética únicos na Jugoslávia comunista e a nova ordem dos best-sellers, da escrita ao alcance de todos e dos fenómenos ‘literários’ que toda a gente quer conhecer por serem apresentados (e recebidos), precisamente, como algo ‘que toda a gente quer conhecer’. Aos escritores resta a decisão de aceitarem ou não as regras do mercado, tal como antigamente restava a decisão de aceitarem ou não as regras do regime: “Writers who were unable to adapt to the demands of the ideological market ended tragically: in camps. Nowadays, writers who cannot adapt to commercial demands end up in their own personal ghetto of anonymity and poverty.” (p.44). Claro que comparações desta ordem podem parecer descabidas, o que não retira gravidade alguma à constatação certeira de que a folia comunicativa que vende auto-ajuda, romances místicos e escrita criativa tem submergido com competência e afinco a circulação de livros que têm na sua génese preocupações bem diferentes das que estruturam os departamentos de marketing da maioria das editoras, e isto de modo directamente proporcional ao aumento do número de leitores e de consumidores de livros (não são, de todo, a mesma coisa).

Os textos que compõem Thank You For Not Reading foram escritos entre 1996 e 2000. E apesar da distância temporal, com algumas excepções, parecerão muito actuais ao leitor português mais atento.

Ouvir

O Tiago Carvalho mandou-nos um link para um programa de rádio da sua autoria, na Rádio Zero (Instituto Superior Técnico), dedicado aos alfarrabistas de Lisboa.

Sublinhados V

“Passamos três dias sem jornal, no Estado de Guanabara. As bancas só expunham revistas. E então verificamos esta coisa estranha: deixaram de acontecer coisas no mundo. Os acontecimentos existem a partir do momento em que são transformados em notícia. E as notícias desapareceram. Sentimo-nos ocos. Alguns foram procurá-las no rádio e na televisão. Esses são os que amam o trágico, pois a notícia trabalhada pelo locutor – até mesmo a previsão de tempo para amanhã – assume ar e som de catástrofe. Que estilo operístico, Santo Deus! As pessoas tranquilas preferem a notícia impressa, de preferência em jornal da manhã, em que ela aparece lavada, fresca, pacificada por uma noite de sono.”

Carlos Drummond de Andrade, “Rosas de Itapevi”, in Auto-retrato e Outras Crónicas, Editora Record, 1998 (p. 63)