17 janeiro 2008

Manguel nas Massey Lectures



A última edição das Massey Lectures, verdadeiro acontecimento na programação cultural canadiana, teve Alberto Manguel como orador e o modo de viver em sociedade a partir do que a literatura nos pode ensinar como tema. O resultado foi editado no livro The City of Words (House of Anansi Press, 2007), recentemente traduzido em Espanha. E por cá, já alguém encomendou a tradução?

Biblioteca Digital Hispânica

O ministro da cultura de Espanha apresentou ontem o projecto Biblioteca Digital Hispânica, que começa com cerca de dez mil obras disponíveis para leitura on-line. O objectivo, nos próximos cinco anos, é digitalizar cerca de duzentos mil documentos de vários tipos, criando uma base representativa da cultura hispânica nas suas diversas vertentes. Para já, mapas, gravuras, manuscritos e várias obras magnas da literatura espanhola podem ser consultados aqui.

A notícia completa pode ser lida no El Mundo.

16 janeiro 2008

A montanha e o rato

A primeira incursão na Byblos foi ainda em Dezembro, um pouco depois da confusão natalícia. O calor abrasador a contrastar com a atmosfera exterior não facilitou o contacto inaugural, mas isso nem sequer é exclusivo da loja. Verdadeiramente desconcertante foi o que se conseguiu ver em poucos minutos: a luz branca, tipo cozinha, a alcatifa indescritível e os sofás à la Startrek. O espaço pode parecer tudo, mas está muito longe do meu conceito de livraria. Sim, há estantes com livros, e há sobretudo empregados atenciosos, mas o ambiente é demasiado próximo do de um centro comercial para parecer uma livraria confortável, onde apetece ficar a ler, vaguear pelas estantes ou trocar dois dedos de conversa com um livreiro. Dessa primeira incursão, que se pretendia meticulosa na busca pelas estantes das secções mais familiares, acabou por resultar pouco: uma chamada telefónica interrompeu o devaneio e foi preciso ir resgatar um sobrinho da hora do fecho da creche. Da passagem rápida pelas estantes de poesia, descobriu-se a ausência de qualquer livro de Eugénio de Andrade... e ficámo-nos pela letra A. Agendada nova incursão, a coisa foi sendo adiada... A vontade de ver o que faltava foi suplantada pela pouca vontade de regressar, o que já me aponta como cliente nada habitual, apesar da proximidade geográfica.

Regressei há dois dias. A reacção à chegada não mudou. Uma hora depois, confirmou-se a desilusão: o elemento que iria distinguir a Byblos das outras livrarias, e que foi anunciado inúmeras vezes antes da abertura oficial, não existe. É certo que se encontram muitos fundos editoriais nas estantes, e que se encontram livros e autores que há muito não se viam nas livrarias (Aquilino Ribeiro, José Rodrigues Miguéis ou Fernanda Botelho, para ficarmos pela literatura portuguesa), mas o paraíso dos fundos editoriais tal como foi anunciado não mora certamente na Byblos. E na estante de poesia (reduzida a dois corpos) havia dois exemplares de um único livro de Eugénio de Andrade. Manuel de Freitas e Rui Pires Cabral, que procurava especificamente, nem vê-los.
Quanto à tecnologia self-service, a estante mecânica não está acessível aos clientes e os ecrãs que funcionam não fornecem a informação que deveriam. Claro, uma livraria não vive de estantes mecânicas ou ecrãs, mas como ambos foram tão apregoados como os fundos editoriais a perder de vista, há quem se sinta defraudado.
Contas feitas, a Byblos é apenas mais uma livraria. Grande, com pretensões de modernidade e com muitos livros. Não tivesse tido uma campanha de marketing a prometer, literalmente, mundos e fundos e a desilusão não seria tão grande. Assim, lembra a história da montanha e do rato.

Se o Sporting não joga...

...há Escrita em Dia para ouvir na Antena 1, pelas 23 horas, com os Booktailors como convidados. Uma semana depois, parece que é desta.

Leituras

O pesadelo de qualquer biblioteca, o gigante chinês e a obra de Milton.

15 janeiro 2008

Pecadilhos II

“E o que é que estás a ler agora?”

“As crónicas do Auberon Waugh, no Daily Telegraph...”



“Porque é que continuas a ler autores reaccionários, que revirariam os olhos se conhecessem a tua destreza com o megafone, e que só ajudam a perturbar as tuas conversas com os amigos?”

“Porque escrevem bem. Sobretudo.”

Regresso à Baixa do Porto?

A Feira do Livro do Porto está à procura de um local para a sua próxima edição.

Reorganizando a biblioteca

Se organizar os livros aqui de casa já me parece tarefa hercúlea, não imagino o que seja tentar pôr estes em ordem.

Sean O'Brien

Em Outubro do ano passado, ganhou uma das categorias do prémio Forward; agora, acaba de ganhar o T.S.Eliot. E como diz o Guardian, não é muito comum um poeta ser distinguido com dois dos mais importantes prémios ingleses um a seguir ao outro, mas aconteceu com Sean O'Brien.

14 janeiro 2008

14 de Janeiro



14 de Janeiro, Al Berto, Wordsong

Bloco de Notas I

Dubravka Ugresic, Thank You For Not Reading – Essays on Literary Trivia, Dalkey Archive, 2003



Dubravka Ugresic nasceu na Jugoslávia, quando ainda existia a Jugoslávia. Com a guerra e a afirmação dos diferentes nacionalismos, a autora tornou-se persona non grata. Porquê? Porque escreveu frequentemente contra os nacionalismos, independentemente da sua facção, e contra a ideia de afirmar identidades pela força e pela humilhação de outras identidades. Com a ex-Jugoslávia para trás, Ugresic passou a viver entre os EUA e a Europa, entrando em contacto directo com um meio literário, editorial e académico que até aí não conhecia tão bem.
As informações biográficas são, neste caso, relevantes para uma leitura plena de Thank You For Not Reading, sobretudo pelo que acrescentam à voz narradora de cada um dos textos, como se revela logo na apresentação: “I wrote some of the essays under the mask of an East European grumbler confused by the dynamics of the global book market (...).” É sob essa máscara que Ugresic desvenda a sua estupefacção perante o enorme circo que se criou à volta dos livros e que podia ter-se criado à volta de outro ‘produto’ qualquer; afinal, os lançamentos megalómanos com actores e figuras do jet-set – descritos e analisados com humor e sarcasmo – têm pouco ou nada a ver com literatura.

Ugresic viveu sob o regime comunista e conhece bem os meandros da cultura autorizada e oficial, dos livros propagandeados (e dos muitos proibidos), da leitura para todos (desde que seleccionada a partir dos livros autorizados e muito recomendados pelo grande líder). As descrições do 1ºde Maio com os seus carros alegóricos de livros ou da promoção da leitura através – e unicamente – dos escritores que agradavam ao regime são, por isso, pessoais, mas não menos esclarecedoras. Mas o que torna este volume realmente interessante para uma reflexão sobre a indústria do livro e as suas ramificações na comunicação e no marketing é a comparação que a autora estabelece entre a ditadura do pensamento e da estética únicos na Jugoslávia comunista e a nova ordem dos best-sellers, da escrita ao alcance de todos e dos fenómenos ‘literários’ que toda a gente quer conhecer por serem apresentados (e recebidos), precisamente, como algo ‘que toda a gente quer conhecer’. Aos escritores resta a decisão de aceitarem ou não as regras do mercado, tal como antigamente restava a decisão de aceitarem ou não as regras do regime: “Writers who were unable to adapt to the demands of the ideological market ended tragically: in camps. Nowadays, writers who cannot adapt to commercial demands end up in their own personal ghetto of anonymity and poverty.” (p.44). Claro que comparações desta ordem podem parecer descabidas, o que não retira gravidade alguma à constatação certeira de que a folia comunicativa que vende auto-ajuda, romances místicos e escrita criativa tem submergido com competência e afinco a circulação de livros que têm na sua génese preocupações bem diferentes das que estruturam os departamentos de marketing da maioria das editoras, e isto de modo directamente proporcional ao aumento do número de leitores e de consumidores de livros (não são, de todo, a mesma coisa).

Os textos que compõem Thank You For Not Reading foram escritos entre 1996 e 2000. E apesar da distância temporal, com algumas excepções, parecerão muito actuais ao leitor português mais atento.

Ouvir

O Tiago Carvalho mandou-nos um link para um programa de rádio da sua autoria, na Rádio Zero (Instituto Superior Técnico), dedicado aos alfarrabistas de Lisboa.

Sublinhados V

“Passamos três dias sem jornal, no Estado de Guanabara. As bancas só expunham revistas. E então verificamos esta coisa estranha: deixaram de acontecer coisas no mundo. Os acontecimentos existem a partir do momento em que são transformados em notícia. E as notícias desapareceram. Sentimo-nos ocos. Alguns foram procurá-las no rádio e na televisão. Esses são os que amam o trágico, pois a notícia trabalhada pelo locutor – até mesmo a previsão de tempo para amanhã – assume ar e som de catástrofe. Que estilo operístico, Santo Deus! As pessoas tranquilas preferem a notícia impressa, de preferência em jornal da manhã, em que ela aparece lavada, fresca, pacificada por uma noite de sono.”

Carlos Drummond de Andrade, “Rosas de Itapevi”, in Auto-retrato e Outras Crónicas, Editora Record, 1998 (p. 63)

Leituras

No Telegraph, resenha sobre A Wodehouse Handbook: The World and Words of P. G. Wodehouse, de N.P.T. Murphy. No Guardian, sobre The Second Plane, de Martin Amis.

12 janeiro 2008

Sítios para visitar antes de morrer II

Vale a pena conhecer a lista das dez livrarias escolhidas por Sean Dodson. Está lá a belíssima Lello, no Porto, a única da lista que conheço; as outras nove entram para a minha secção pessoal de 'sítios para visitar antes de morrer'.

Ángel González (1925-2008)

Era um dos últimos sobreviventes da Geração de 50 e um dos poetas maiores da poesia espanhola do século XX. Morreu esta noite, com oitenta e dois anos.



Em Julho do ano passado, em Gijón, pude ouvir Ángel González ler os seus próprios poemas, ao lado de Luís Garcia Montero, um poeta mais novo. E de entre as várias memórias dessa noite, lembro com nitidez a sala cheia de gente para ouvir o poeta e o modo descontraído e sincero com que Ángel González ali estava, preocupando-se apenas com o que tinha lido ou ia ler, enquanto fumava um cigarro e bebia um whisky, deitando por terra toda a veneração e toda a pompa que momentos semelhantes e com figuras de igual importância costumam ter.

Em Portugal, a Fenda editou, em 2001, o livro Tratado de Urbanismo. Não sei se há mais livros do autor em português; se há, desconheço (e agradeço referências, no mail ou na caixa de comentários).


INVENTARIO DE LUGARES PROPICIOS AL AMOR

Son pocos.
La primavera está muy prestigiada, pero
es mejor el verano.
Y también esas grietas que el otoño
forma al interceder con los domingos
en algunas ciudades
ya de por sí amarillas como plátanos.
El invierno elimina muchos sitios:
quicios de puertas orientadas al norte,
orillas de los ríos,
bancos públicos.
Los contrafuertes exteriores
de las viejas iglesias
dejan a veces huecos
utilizables aunque caiga nieve.
Pero desengañémonos: las bajas
temperaturas y los vientos húmedos
lo dificultan todo.
Las ordenanzas, además, proscriben
la caricia ( con exenciones
para determinadas zonas epidérmicas
-sin interés alguno-
en niños, perros y otros animales)
y el «no tocar, peligro de ignominia»
puede leerse en miles de miradas.
¿Adónde huir, entonces?
Por todas partes ojos bizcos,
córneas torturadas,
implacables pupilas,
retinas reticentes,
vigilan, desconfían, amenazan.
Queda quizá el recurso de andar solo,
de vaciar el alma de ternura
y llenarla de hastío e indiferencia,
en este tiempo hostil, propicio al odio.

(de Tratado de Urbanismo, 1967)

11 janeiro 2008

Judith Herzberg na Pó dos Livros

Salman Rushdie

O novo romance de Salman Rushdie, Enchantress of Florence, tem lançamento previsto para Junho, com chancela da Random House.

Analogia e Dedos

Pedro Tamen venceu a primeira edição do Prémio Literário Inês de Castro, atribuído pela Fundação homónima, pelo seu livro Analogia e Dedos (Edições Asa). A notícia foi divulgada ontem pelo Diário Digital

Da retórica dos textos

Al Berto
(11.01.1948 - 13.06.1997)

«recado»
in Horto de Incêndio, Assírio e Alvim, 1997

I
A ideia de melancolia, de que nos fala Fernando Pinto do Amaral em «Al Berto: um lirismo do excesso e da melancolia» (in Mosaico Fluido, Assírio e Alvim, 1991), atravessa este «recado», na sua consciência da vida como lugar de experiência. Toma-a, prende-a e leva-a para um virtual infinito de influências por demais reconhecidas (de Rimbaud a Genet, nas suas radicalidades). Dá-se o recado a ti, particularmente a ti, e não a vós, ou a eles; mas esse destinatário é tão mais ou menos virtual de acordo com a forma que o sujeito lhe dá. A melancolia, essa, resulta da necessidade de dizer (para tu ouvires!) a experiência como é possível ser dita: em poeira de desejos, sensações e imagens.
II
Uma ideia de vida que a liberdade da primeira parte do poema não resume. A ideia para esta vida não ficará completa sem a força do amor. Começar a morrer, logo na primeira estrofe, não diz mais que o reconhecido. Começar a morrer num dia limpo, polissémico na ambiguidade de luz, clarividência, pureza. Começar a morrer sem destino, num percurso solar, cósmico e vagabundo, longe daqui, dos outros. Receber as imagens da alucinação, do devaneio do voo, que as paronomásias sustentam numa cadência dormente, agora que a missão de caminhar se finda e o sujeito encontra finalmente o prazer. O Outono do dia, da vida, acalma a alma e a doçura fecha o ciclo.
O tu, que ouve, é equilíbrio na acção e passividade, no ego e reflexo, no devaneio e na tranquilidade, tu, que deve ir e deve deixar. Já o eu entoa com a autoridade de emissário omnisciente todas as recomendações. Será uma relação especular? A distância entre o emissor e o receptor será também ela virtual?
III
A tensão aumenta na segunda parte, a coda do soneto, para dizer o fim, o trágico que não o é, já não o pode ser desde que a modernidade abriu as fronteiras da palavra ao vestígio, desde que a contenção foi suplantada pelo silêncio e pelo excesso. Os efeitos metafóricos e metonímicos desencadeiam a inexplicabilidade do discurso, cumprindo a impossibilidade de dizer, deixando contudo uma teia de sentidos.
Prepara-se uma passagem para um outro lugar, a partida do «etéreo visitante», prepara-se tudo no tempo limitado pela proximidade. Prepara-se a viagem, com o que tem de precioso, purificador e destrutivo, prepara-se o reduto dos desejos (a poeira), prepara-se a morte.
Pode o amor ser responsável pela perda de si, pela viagem, pela mudança definitiva de paradigma, sem regresso. Ao contrário da primeira parte do poema, neste fim o tu age, constrói e não pode esquecer. «para lá da pele» é a pista para a inclusão do visitante, estranho a este monólogo. Para fora de si, ao outro, dá-se, sob a forma da recepção e da perda.
Estará este final dentro do percurso de liberdade da primeira parte? Os dois últimos versos esclarecem qual o «alimento suficiente para a tua morte»: «os sessenta comprimidos letais/ao pequeno-almoço».
IV
Afirmar a relação dialógica entre a euforia e a disforia, a cadência dos sons, as aliterações e os ecos, bem como o ritmo simétrico dos versos, sustentados por apóstrofes e imperativos retomados, significa dizer que há uma economia formal neste excesso metafórico, nesta perda de sentido, que confere ao poema uma legibilidade segura. Nessa legibilidade, as palavras ganham novos sentidos para os quais não há correspondente, e levantam dúvidas. Não há respostas porque o poema não se fecha, apesar das relações que se sobrepõem, ou se antagonizam, ou se esgotam, a cada leitura. A aceitação do poema é, por si só, o sucesso do trabalho poético que assenta no excesso lírico como opção para o indizível.

10 janeiro 2008

Casa Fernando Pessoa

Mais logo, pelas 18h30, o livro de poemas Se Me Comovesse o Amor, de Francisco José Viegas, será apresentado por Pedro Mexia. As leituras estão a cargo de Ricardo Araújo Pereira.

No dia 31, às 21h30, regressam os serões dos Livros em Desassossego, com coordenação de Carlos Vaz Marques. O tema é o acordo ortográfico e os convidados são Malaca Casteleiro, José Eduardo Agualusa, Vasco Graça Moura e Ivo Castro. Nélson de Matos é o editor em destaque: para além de apresentar o seu novo projecto editorial, escolherá três livros de outras editoras que gostaria de ter no seu catálogo.

A Casa Fernando Pessoa fica na Rua Coelho da Rocha, nº16, em Campo de Ourique (Lisboa).

Já cá estão

A morada chegou a uma das caixas de comentários do Blogtailors, através de um comentador anónimo (um funcionário zeloso?). A Leya mora, então, aqui.

Homenagem ao cronista de Madrid

No próximo dia 14, em Madrid, Francisco Umbral será homenageado pelo jornal El Mundo. O trabalho de Francisco Umbral, que se despediu do mundo há poucos meses, passará pelo Círculo de Bellas Artes sob a forma de leituras, imagens e testemunhos de colegas e amigos, em justa homenagem ao escritor, ao poeta e ao cronista da cidade que parece não dormir.

Aqui podem ler-se todas as crónicas de Umbral no El Mundo, textos de Alejandro Gándara e Maria Jesús Hernández sobre o autor e vários depoimentos.

Reformas no Goncourt

Depois da saída voluntária de François Nourissier, está lançado o debate entre os jurados do Goncourt, o mais prestigiado prémio literário francês: limite de idade e renovação do júri, de preferência com jurados mais novos, são hipóteses em discussão.

Da retórica dos textos

«recado»
Al Berto

Antes do texto

Todos os livros que lemos têm uma história. De todos, há as histórias insignificantes e as outras, que por alguma razão recuperamos para a nossa biografia de leitor.
O Horto de Incêndio, de Al Berto (Assírio e Alvim), terá sido um desses casos especiais. Foi uma daquelas ofertas de risco, de alguém longe destas andanças da leitura nos idos de 1997. Foi o meu primeiro contacto com a obra.
A minha relação com ela será um efeito da sua própria intenção, segundo a minha leitura. Dois movimentos antagónicos: uma voragem de conhecimento e de leitura, que é travada e absorvida pelo recentramento em poemas que voltam, e voltam mais íntimos.
«recado» (que abre o Horto de incêndio) é o expoente máximo da minha experiência de leitura. De 1997 até hoje já escrevi sobre ele, já o analisei academicamente, já o li e reli. Já quase desgostei, já esqueci, já reencontrei. Já reconheci.Al Berto não foi para mim um poeta da adolescência, nem tão pouco representou liberdade ou libertação. Não o vejo só assim, e ainda bem, que tal rótulo se cola redutoramente ao discurso, inibindo o trabalho meritório da palavra que é em suma o fazer poético.

09 janeiro 2008

Para ouvir

Mais logo, pelas 23 horas, no Escrita em Dia, Francisco José Viegas conversa com os Blogtailors. Para ouvir na Antena 1.

Simone de Beauvoir

No centenário do nascimento de Simone de Beauvoir, multiplicam-se as leituras sobre a autora de O Segundo Sexo.
Aqui ficam duas escolhas, legíveis on-line: no Diário de Notícias, Ana Marques Gastão assina o texto Simone ou Uma Mulher Livre. No The Guardian, Lisa Appignanesi selecciona os dez livros mais relevantes da autora ou sobre a autora.

Sítios para visitar antes de morrer

Chama-se Shakespeare & Company e fica no número 37 da Rue de La Boucherie, em Paris. Aqui pode experimentar-se uma visita virtual, suficientemente realista para deixar bem clara a vontade de visitar o espaço ao vivo.

Eça na London Review of Books

Margaret Jull Costa assina uma nova tradução de Os Maias para inglês e Michael Wood escreve sobre a obra aqui, na London Review of Books.

08 janeiro 2008

Crónica dos Lugares III

Enquanto descia a Charing Cross em romaria livresca, não imaginava que ia descobrir um alfarrabista tão memorável como o Quinto Bookshop, e ainda menos que a descoberta iria despoletar, dias mais tarde e já em Lisboa, o ressurgimento de um desejo antigo e perigoso. Passo já às explicações, antes de prosseguir com a descrição do êxtase por entre as prateleiras.
Há algum tempo atrás, a leitura de uma crónica de João Pereira Coutinho (esse cronista que eu deveria abominar a bem das minhas amizades e da manutenção da minha reputação de esquerda, mas que não abomino e ainda por cima leio com regularidade), desvendou-me um segredo luxuriante sob a forma de três palavrinhas separadas por hífens: Hay-on-wye. Até esse momento, nunca tinha ouvido falar de Hay-on-Wye, e assim deveria ter-me mantido, a bem da minha estabilidade familiar e financeira. Mas a vida é assim mesmo, e o santo Graal não pede licença para ser revelado. Com a leitura da dita crónica, abriu-se uma caixa de Pandora (desculpem a abundância das referências mitológicas, mas o caso pede alguma pompa simbólica) e pela minha mente não voltou a passar mais nada que não se relacionasse com a hipótese de, um dia, rumar até esse El Dorado que o cronista maldito me revelou. Hay-on-Wye é também conhecida pela ‘cidade dos livros’ e só isto já seria suficiente para os eventuais leitores perceberem a minha inquietação. Mas é pior do que isso. Hay-on-Wye, uma pacata cidadezinha (ou será vila, ou aldeia?) no País de Gales, transformou-se, a partir de 1961, num alfarrabista a céu aberto. A crer na descrição da crónica, porta sim porta sim há um alfarrabista, mais improvisado ou mais profissional, mas sempre repleto de livros, bons e baratos. Há alfarrabistas especializados em temas (Shakespeare, banda desenhada, Segunda Guerra, literatura infantil...), há antigas salas de cinema transformadas em livraria, há estantes pelas ruas, pelos jardins, por todo o lado.

No ano que passou, as economias (e a certeza do reembolso do IRS) permitiram pensar numa viagem um bocadinho maior, ou seja, sem tenda nem campismo, e a decisão recaiu sobre Londres. Eu tinha estado em Londres há dez anos, e mandava o bom senso económico não repetir viagens a sítios onde já se esteve, mas a ideia de um regresso, com o que de reconhecimento prévio isso acarreta, e a certeza de que passar uns dias em Londres nunca é um desperdício, por mais vezes que lá se tenha estado, fecharam o veredicto. Londres seria. E na preparação da viagem, não me ocorreu voltar a pensar em Hay-on-Wye, fantasia romântica reservada para um futuro de maior folga financeira ou mesmo para o domínio dos sonhos. Esqueceu-se, assim, o País de Gales e a cidade dos livros; restringiram-se as incursões livrescas a Londres e à sempre bem fornecida Charing Cross. E não houve desilusões, claro. Foyle’s, Blackwell’s, Murder One, Shipley. Pouco antes da transversal dos livreiros antiquários, desvendou-se a Quinto Bookshop, infelizmente encerrada, mas com um anúncio colado na porta, avisando que a reabertura estava marcada para o dia seguinte, pelas duas da tarde. Paciência. O mais certo era já não ser possível o regresso no dia seguinte, mas logo se veria. Mas o dia seguinte foi generoso, apesar das obras do metro e do tempo perdido em linhas e trocas. A fila à porta da livraria indiciava a qualidade do recheio ou os hábitos de leitura londrinos? Ou os dois? Lá dentro, o paraíso entre quatro paredes. Estantes até ao tecto, criando um pequeno labirinto pejado de livros: ficção, poesia, história, religião, viagens, policiais. E uma seta, a indicar mais uma sala, e depois as escadas para o andar debaixo, a cave de todos os sonhos, com livros a metade do preço em relação ao indicado. Várias salas sem luz exterior, uma espécie de armazém, onde estantes sucessivas anunciavam temas como zoologia, cinema, primeira guerra, segunda guerra, época vitoriana, artes, crítica literária, biografia, botânica, química, medicina... e a etiqueta ‘books on books’ em três estantes com centenas de livros sobre edição, bibliografia, catálogos, conservação de livros. A sombra de uma síncope insinuou-se no meu cérebro e foi imediatamente superada – se era para ter um qualquer achaque, que fosse depois de ter lido os livros todos que podia comprar ali e que provavelmente não encontraria noutro sítio. Contas feitas às libras e ignorados os receios sobre o excesso de bagagem, vieram de lá alguns exemplares que agora repousam pelas estantes: A common reader, de Virgina Woolf (a primeira série, e ainda impressa pela Hogarth’s Press), Stories, Essays & Poems, uma colectânea de G.K.Chesterton e Living With Books, de Helen E. Haines, um curioso manual que mistura biblioteconomia e bibliofilia e a que hei-de voltar em breve. Ainda houve libras para mais alguns, como uma edição de 1942 de The Children of Willow Farm, de Enid Blyton, Whizz for Atomms, de Geoffrey Williams e Ronald Searle e várias preciosidades da Penguin, directamente da década de quarenta do século passado. Hay-on-Wye estava esquecida, e a impossibilidade de a visitar nos tempos mais próximos, redimida.
Foi já em Lisboa, frente ao computador e ao dilema de escrever ou não o endereço do site que vinha nos sacos, que a coincidência se transformou em inevitável clamor do destino: a Quinto Bookshop possui duas lojas em Londres, mas a sua sede original fica em... Hay-on-Wye. E pior do que isso, a partir da sua página pode aceder-se a uma página sobre a cidade, que inclui a lista das livrarias alfarrabistas. Até mostram um mapa, várias sugestões de acomodação e as referências dos transportes para lá chegar, os bárbaros galeses. Não voltei a dormir em paz desde então. Perco as noites em cálculos geométricos que me permitam o sacrilégio supremo de criar uma segunda fila em todas as prateleiras, e em cálculos matemáticos que transformem o reembolso do IRS numa quantia quatro vezes superior ao habitual. Nada feito. Melhor acreditar que Hay-on-Wye não existe.