14 janeiro 2008

Ouvir

O Tiago Carvalho mandou-nos um link para um programa de rádio da sua autoria, na Rádio Zero (Instituto Superior Técnico), dedicado aos alfarrabistas de Lisboa.

Sublinhados V

“Passamos três dias sem jornal, no Estado de Guanabara. As bancas só expunham revistas. E então verificamos esta coisa estranha: deixaram de acontecer coisas no mundo. Os acontecimentos existem a partir do momento em que são transformados em notícia. E as notícias desapareceram. Sentimo-nos ocos. Alguns foram procurá-las no rádio e na televisão. Esses são os que amam o trágico, pois a notícia trabalhada pelo locutor – até mesmo a previsão de tempo para amanhã – assume ar e som de catástrofe. Que estilo operístico, Santo Deus! As pessoas tranquilas preferem a notícia impressa, de preferência em jornal da manhã, em que ela aparece lavada, fresca, pacificada por uma noite de sono.”

Carlos Drummond de Andrade, “Rosas de Itapevi”, in Auto-retrato e Outras Crónicas, Editora Record, 1998 (p. 63)

Leituras

No Telegraph, resenha sobre A Wodehouse Handbook: The World and Words of P. G. Wodehouse, de N.P.T. Murphy. No Guardian, sobre The Second Plane, de Martin Amis.

12 janeiro 2008

Sítios para visitar antes de morrer II

Vale a pena conhecer a lista das dez livrarias escolhidas por Sean Dodson. Está lá a belíssima Lello, no Porto, a única da lista que conheço; as outras nove entram para a minha secção pessoal de 'sítios para visitar antes de morrer'.

Ángel González (1925-2008)

Era um dos últimos sobreviventes da Geração de 50 e um dos poetas maiores da poesia espanhola do século XX. Morreu esta noite, com oitenta e dois anos.



Em Julho do ano passado, em Gijón, pude ouvir Ángel González ler os seus próprios poemas, ao lado de Luís Garcia Montero, um poeta mais novo. E de entre as várias memórias dessa noite, lembro com nitidez a sala cheia de gente para ouvir o poeta e o modo descontraído e sincero com que Ángel González ali estava, preocupando-se apenas com o que tinha lido ou ia ler, enquanto fumava um cigarro e bebia um whisky, deitando por terra toda a veneração e toda a pompa que momentos semelhantes e com figuras de igual importância costumam ter.

Em Portugal, a Fenda editou, em 2001, o livro Tratado de Urbanismo. Não sei se há mais livros do autor em português; se há, desconheço (e agradeço referências, no mail ou na caixa de comentários).


INVENTARIO DE LUGARES PROPICIOS AL AMOR

Son pocos.
La primavera está muy prestigiada, pero
es mejor el verano.
Y también esas grietas que el otoño
forma al interceder con los domingos
en algunas ciudades
ya de por sí amarillas como plátanos.
El invierno elimina muchos sitios:
quicios de puertas orientadas al norte,
orillas de los ríos,
bancos públicos.
Los contrafuertes exteriores
de las viejas iglesias
dejan a veces huecos
utilizables aunque caiga nieve.
Pero desengañémonos: las bajas
temperaturas y los vientos húmedos
lo dificultan todo.
Las ordenanzas, además, proscriben
la caricia ( con exenciones
para determinadas zonas epidérmicas
-sin interés alguno-
en niños, perros y otros animales)
y el «no tocar, peligro de ignominia»
puede leerse en miles de miradas.
¿Adónde huir, entonces?
Por todas partes ojos bizcos,
córneas torturadas,
implacables pupilas,
retinas reticentes,
vigilan, desconfían, amenazan.
Queda quizá el recurso de andar solo,
de vaciar el alma de ternura
y llenarla de hastío e indiferencia,
en este tiempo hostil, propicio al odio.

(de Tratado de Urbanismo, 1967)

11 janeiro 2008

Judith Herzberg na Pó dos Livros

Salman Rushdie

O novo romance de Salman Rushdie, Enchantress of Florence, tem lançamento previsto para Junho, com chancela da Random House.

Analogia e Dedos

Pedro Tamen venceu a primeira edição do Prémio Literário Inês de Castro, atribuído pela Fundação homónima, pelo seu livro Analogia e Dedos (Edições Asa). A notícia foi divulgada ontem pelo Diário Digital

Da retórica dos textos

Al Berto
(11.01.1948 - 13.06.1997)

«recado»
in Horto de Incêndio, Assírio e Alvim, 1997

I
A ideia de melancolia, de que nos fala Fernando Pinto do Amaral em «Al Berto: um lirismo do excesso e da melancolia» (in Mosaico Fluido, Assírio e Alvim, 1991), atravessa este «recado», na sua consciência da vida como lugar de experiência. Toma-a, prende-a e leva-a para um virtual infinito de influências por demais reconhecidas (de Rimbaud a Genet, nas suas radicalidades). Dá-se o recado a ti, particularmente a ti, e não a vós, ou a eles; mas esse destinatário é tão mais ou menos virtual de acordo com a forma que o sujeito lhe dá. A melancolia, essa, resulta da necessidade de dizer (para tu ouvires!) a experiência como é possível ser dita: em poeira de desejos, sensações e imagens.
II
Uma ideia de vida que a liberdade da primeira parte do poema não resume. A ideia para esta vida não ficará completa sem a força do amor. Começar a morrer, logo na primeira estrofe, não diz mais que o reconhecido. Começar a morrer num dia limpo, polissémico na ambiguidade de luz, clarividência, pureza. Começar a morrer sem destino, num percurso solar, cósmico e vagabundo, longe daqui, dos outros. Receber as imagens da alucinação, do devaneio do voo, que as paronomásias sustentam numa cadência dormente, agora que a missão de caminhar se finda e o sujeito encontra finalmente o prazer. O Outono do dia, da vida, acalma a alma e a doçura fecha o ciclo.
O tu, que ouve, é equilíbrio na acção e passividade, no ego e reflexo, no devaneio e na tranquilidade, tu, que deve ir e deve deixar. Já o eu entoa com a autoridade de emissário omnisciente todas as recomendações. Será uma relação especular? A distância entre o emissor e o receptor será também ela virtual?
III
A tensão aumenta na segunda parte, a coda do soneto, para dizer o fim, o trágico que não o é, já não o pode ser desde que a modernidade abriu as fronteiras da palavra ao vestígio, desde que a contenção foi suplantada pelo silêncio e pelo excesso. Os efeitos metafóricos e metonímicos desencadeiam a inexplicabilidade do discurso, cumprindo a impossibilidade de dizer, deixando contudo uma teia de sentidos.
Prepara-se uma passagem para um outro lugar, a partida do «etéreo visitante», prepara-se tudo no tempo limitado pela proximidade. Prepara-se a viagem, com o que tem de precioso, purificador e destrutivo, prepara-se o reduto dos desejos (a poeira), prepara-se a morte.
Pode o amor ser responsável pela perda de si, pela viagem, pela mudança definitiva de paradigma, sem regresso. Ao contrário da primeira parte do poema, neste fim o tu age, constrói e não pode esquecer. «para lá da pele» é a pista para a inclusão do visitante, estranho a este monólogo. Para fora de si, ao outro, dá-se, sob a forma da recepção e da perda.
Estará este final dentro do percurso de liberdade da primeira parte? Os dois últimos versos esclarecem qual o «alimento suficiente para a tua morte»: «os sessenta comprimidos letais/ao pequeno-almoço».
IV
Afirmar a relação dialógica entre a euforia e a disforia, a cadência dos sons, as aliterações e os ecos, bem como o ritmo simétrico dos versos, sustentados por apóstrofes e imperativos retomados, significa dizer que há uma economia formal neste excesso metafórico, nesta perda de sentido, que confere ao poema uma legibilidade segura. Nessa legibilidade, as palavras ganham novos sentidos para os quais não há correspondente, e levantam dúvidas. Não há respostas porque o poema não se fecha, apesar das relações que se sobrepõem, ou se antagonizam, ou se esgotam, a cada leitura. A aceitação do poema é, por si só, o sucesso do trabalho poético que assenta no excesso lírico como opção para o indizível.

10 janeiro 2008

Casa Fernando Pessoa

Mais logo, pelas 18h30, o livro de poemas Se Me Comovesse o Amor, de Francisco José Viegas, será apresentado por Pedro Mexia. As leituras estão a cargo de Ricardo Araújo Pereira.

No dia 31, às 21h30, regressam os serões dos Livros em Desassossego, com coordenação de Carlos Vaz Marques. O tema é o acordo ortográfico e os convidados são Malaca Casteleiro, José Eduardo Agualusa, Vasco Graça Moura e Ivo Castro. Nélson de Matos é o editor em destaque: para além de apresentar o seu novo projecto editorial, escolherá três livros de outras editoras que gostaria de ter no seu catálogo.

A Casa Fernando Pessoa fica na Rua Coelho da Rocha, nº16, em Campo de Ourique (Lisboa).

Já cá estão

A morada chegou a uma das caixas de comentários do Blogtailors, através de um comentador anónimo (um funcionário zeloso?). A Leya mora, então, aqui.

Homenagem ao cronista de Madrid

No próximo dia 14, em Madrid, Francisco Umbral será homenageado pelo jornal El Mundo. O trabalho de Francisco Umbral, que se despediu do mundo há poucos meses, passará pelo Círculo de Bellas Artes sob a forma de leituras, imagens e testemunhos de colegas e amigos, em justa homenagem ao escritor, ao poeta e ao cronista da cidade que parece não dormir.

Aqui podem ler-se todas as crónicas de Umbral no El Mundo, textos de Alejandro Gándara e Maria Jesús Hernández sobre o autor e vários depoimentos.

Reformas no Goncourt

Depois da saída voluntária de François Nourissier, está lançado o debate entre os jurados do Goncourt, o mais prestigiado prémio literário francês: limite de idade e renovação do júri, de preferência com jurados mais novos, são hipóteses em discussão.

Da retórica dos textos

«recado»
Al Berto

Antes do texto

Todos os livros que lemos têm uma história. De todos, há as histórias insignificantes e as outras, que por alguma razão recuperamos para a nossa biografia de leitor.
O Horto de Incêndio, de Al Berto (Assírio e Alvim), terá sido um desses casos especiais. Foi uma daquelas ofertas de risco, de alguém longe destas andanças da leitura nos idos de 1997. Foi o meu primeiro contacto com a obra.
A minha relação com ela será um efeito da sua própria intenção, segundo a minha leitura. Dois movimentos antagónicos: uma voragem de conhecimento e de leitura, que é travada e absorvida pelo recentramento em poemas que voltam, e voltam mais íntimos.
«recado» (que abre o Horto de incêndio) é o expoente máximo da minha experiência de leitura. De 1997 até hoje já escrevi sobre ele, já o analisei academicamente, já o li e reli. Já quase desgostei, já esqueci, já reencontrei. Já reconheci.Al Berto não foi para mim um poeta da adolescência, nem tão pouco representou liberdade ou libertação. Não o vejo só assim, e ainda bem, que tal rótulo se cola redutoramente ao discurso, inibindo o trabalho meritório da palavra que é em suma o fazer poético.

09 janeiro 2008

Para ouvir

Mais logo, pelas 23 horas, no Escrita em Dia, Francisco José Viegas conversa com os Blogtailors. Para ouvir na Antena 1.

Simone de Beauvoir

No centenário do nascimento de Simone de Beauvoir, multiplicam-se as leituras sobre a autora de O Segundo Sexo.
Aqui ficam duas escolhas, legíveis on-line: no Diário de Notícias, Ana Marques Gastão assina o texto Simone ou Uma Mulher Livre. No The Guardian, Lisa Appignanesi selecciona os dez livros mais relevantes da autora ou sobre a autora.

Sítios para visitar antes de morrer

Chama-se Shakespeare & Company e fica no número 37 da Rue de La Boucherie, em Paris. Aqui pode experimentar-se uma visita virtual, suficientemente realista para deixar bem clara a vontade de visitar o espaço ao vivo.

Eça na London Review of Books

Margaret Jull Costa assina uma nova tradução de Os Maias para inglês e Michael Wood escreve sobre a obra aqui, na London Review of Books.

08 janeiro 2008

Crónica dos Lugares III

Enquanto descia a Charing Cross em romaria livresca, não imaginava que ia descobrir um alfarrabista tão memorável como o Quinto Bookshop, e ainda menos que a descoberta iria despoletar, dias mais tarde e já em Lisboa, o ressurgimento de um desejo antigo e perigoso. Passo já às explicações, antes de prosseguir com a descrição do êxtase por entre as prateleiras.
Há algum tempo atrás, a leitura de uma crónica de João Pereira Coutinho (esse cronista que eu deveria abominar a bem das minhas amizades e da manutenção da minha reputação de esquerda, mas que não abomino e ainda por cima leio com regularidade), desvendou-me um segredo luxuriante sob a forma de três palavrinhas separadas por hífens: Hay-on-wye. Até esse momento, nunca tinha ouvido falar de Hay-on-Wye, e assim deveria ter-me mantido, a bem da minha estabilidade familiar e financeira. Mas a vida é assim mesmo, e o santo Graal não pede licença para ser revelado. Com a leitura da dita crónica, abriu-se uma caixa de Pandora (desculpem a abundância das referências mitológicas, mas o caso pede alguma pompa simbólica) e pela minha mente não voltou a passar mais nada que não se relacionasse com a hipótese de, um dia, rumar até esse El Dorado que o cronista maldito me revelou. Hay-on-Wye é também conhecida pela ‘cidade dos livros’ e só isto já seria suficiente para os eventuais leitores perceberem a minha inquietação. Mas é pior do que isso. Hay-on-Wye, uma pacata cidadezinha (ou será vila, ou aldeia?) no País de Gales, transformou-se, a partir de 1961, num alfarrabista a céu aberto. A crer na descrição da crónica, porta sim porta sim há um alfarrabista, mais improvisado ou mais profissional, mas sempre repleto de livros, bons e baratos. Há alfarrabistas especializados em temas (Shakespeare, banda desenhada, Segunda Guerra, literatura infantil...), há antigas salas de cinema transformadas em livraria, há estantes pelas ruas, pelos jardins, por todo o lado.

No ano que passou, as economias (e a certeza do reembolso do IRS) permitiram pensar numa viagem um bocadinho maior, ou seja, sem tenda nem campismo, e a decisão recaiu sobre Londres. Eu tinha estado em Londres há dez anos, e mandava o bom senso económico não repetir viagens a sítios onde já se esteve, mas a ideia de um regresso, com o que de reconhecimento prévio isso acarreta, e a certeza de que passar uns dias em Londres nunca é um desperdício, por mais vezes que lá se tenha estado, fecharam o veredicto. Londres seria. E na preparação da viagem, não me ocorreu voltar a pensar em Hay-on-Wye, fantasia romântica reservada para um futuro de maior folga financeira ou mesmo para o domínio dos sonhos. Esqueceu-se, assim, o País de Gales e a cidade dos livros; restringiram-se as incursões livrescas a Londres e à sempre bem fornecida Charing Cross. E não houve desilusões, claro. Foyle’s, Blackwell’s, Murder One, Shipley. Pouco antes da transversal dos livreiros antiquários, desvendou-se a Quinto Bookshop, infelizmente encerrada, mas com um anúncio colado na porta, avisando que a reabertura estava marcada para o dia seguinte, pelas duas da tarde. Paciência. O mais certo era já não ser possível o regresso no dia seguinte, mas logo se veria. Mas o dia seguinte foi generoso, apesar das obras do metro e do tempo perdido em linhas e trocas. A fila à porta da livraria indiciava a qualidade do recheio ou os hábitos de leitura londrinos? Ou os dois? Lá dentro, o paraíso entre quatro paredes. Estantes até ao tecto, criando um pequeno labirinto pejado de livros: ficção, poesia, história, religião, viagens, policiais. E uma seta, a indicar mais uma sala, e depois as escadas para o andar debaixo, a cave de todos os sonhos, com livros a metade do preço em relação ao indicado. Várias salas sem luz exterior, uma espécie de armazém, onde estantes sucessivas anunciavam temas como zoologia, cinema, primeira guerra, segunda guerra, época vitoriana, artes, crítica literária, biografia, botânica, química, medicina... e a etiqueta ‘books on books’ em três estantes com centenas de livros sobre edição, bibliografia, catálogos, conservação de livros. A sombra de uma síncope insinuou-se no meu cérebro e foi imediatamente superada – se era para ter um qualquer achaque, que fosse depois de ter lido os livros todos que podia comprar ali e que provavelmente não encontraria noutro sítio. Contas feitas às libras e ignorados os receios sobre o excesso de bagagem, vieram de lá alguns exemplares que agora repousam pelas estantes: A common reader, de Virgina Woolf (a primeira série, e ainda impressa pela Hogarth’s Press), Stories, Essays & Poems, uma colectânea de G.K.Chesterton e Living With Books, de Helen E. Haines, um curioso manual que mistura biblioteconomia e bibliofilia e a que hei-de voltar em breve. Ainda houve libras para mais alguns, como uma edição de 1942 de The Children of Willow Farm, de Enid Blyton, Whizz for Atomms, de Geoffrey Williams e Ronald Searle e várias preciosidades da Penguin, directamente da década de quarenta do século passado. Hay-on-Wye estava esquecida, e a impossibilidade de a visitar nos tempos mais próximos, redimida.
Foi já em Lisboa, frente ao computador e ao dilema de escrever ou não o endereço do site que vinha nos sacos, que a coincidência se transformou em inevitável clamor do destino: a Quinto Bookshop possui duas lojas em Londres, mas a sua sede original fica em... Hay-on-Wye. E pior do que isso, a partir da sua página pode aceder-se a uma página sobre a cidade, que inclui a lista das livrarias alfarrabistas. Até mostram um mapa, várias sugestões de acomodação e as referências dos transportes para lá chegar, os bárbaros galeses. Não voltei a dormir em paz desde então. Perco as noites em cálculos geométricos que me permitam o sacrilégio supremo de criar uma segunda fila em todas as prateleiras, e em cálculos matemáticos que transformem o reembolso do IRS numa quantia quatro vezes superior ao habitual. Nada feito. Melhor acreditar que Hay-on-Wye não existe.

Hoja por Hoja

Hoja por Hoja - Suplemento de Libros. Assim se chama o suplemento mexicano que todos os meses surge como encarte em vários jornais diários do México, e que pode ser lido em qualquer parte do mundo aqui. Segue já para os links do Quiosque.

Penguincubator

Uma espécie de armário de venda automática de livros foi instalado pela Penguin na londrina Charing Cross, em 1937 (a história mais completa da Penguin está aqui). Chamava-se 'Penguincubator' e, a troco de meia dúzia de pences, quem introduzisse as moedinhas no aparelhómetro levava para casa um paperback da Penguin.



O sistema, que não sei se foi criado pela Penguin ou se já existia, pode ser visto ainda hoje em várias cidades do mundo, com especial incidência nas estações de metro, mas o charme deste Pinguincubator é incomparável... A minha irmã - que trabalha numa livraria a sério e ainda assim me enviou o link - que me desculpe, mas um armário destes na rua dá vontade de comprar livros sem que haja livreiro.

Se faz favor

Alimentei durante várias horas a secreta esperança de que o nome do mega-grupo editorial que Paes do Amaral tem estado a reunir tivesse a sua fonte de inspiração na Princesa Leya. Afinal, é apenas uma forma verbal no imperativo, mas com um 'y' em vez de um 'i' para simbolizar 'a abertura da nossa língua' (diz-nos Carlos Coelho, de acordo com o Blogtailors). É um conceito em que ainda não tropecei por entre os meus canhenhos da linguística, mas o marketing e a comunicação tudo podem inventar, não é assim?

No Blogtailors e no Bibliotecário de Babel há mais pormenores sobre o grupo Leya e respectivos objectivos para os próximos tempos.

07 janeiro 2008

Responsabilidades

O Cadeirão Voltaire era um sítio pacato, sem muita gente e com as leituras a surgirem com a calma que se exige quando se está bem recostado e em contemplação ociosa. Até que o Daniel resolveu apontar-nos como blogue da semana. A coisa aconteceu há poucos minutos e já há gente sentada nos braços do cadeirão, gente a remexer nas estantes, gente a assustar o gato com livros e jornais empoeirados. E nós, que escrevíamos ao ritmo da vontade e sem muita preocupação com quem nos lia – entre as cerca de trinta pessoas diárias, suspeitávamos que se encontravam familiares, amigos e um ou outro cibernauta incauto – estamos agora a braços com uma verdadeira enchente de leitores. É muita responsabilidade...

Brincadeiras à parte, agradecemos a referência ao Arrastão; por mais que dissertemos sobre a escrita pela escrita, quem escreve tende a querer ser lido. Mas, por favor, não tirem os livros da ordem, não levem jornais que parecem sem importância e tenham alguma paciência com o gato.

Sublinhados IV

"Muitos shandys, no Sanatório Internacional, já se tinham dado conta de que, mais tarde ou mais cedo, a conjura portátil teria de desaparecer e que isso era a lei da vida e, na realidade, uma coisa muito desejável pois assim a conspiração transformar-se-ia na espectacular exaltação do que surge e desaparece com a arrogante velocidade do relâmpago da insolência:"

Enrique Vila-Matas, História Abreviada da Literatura Portátil (Assírio e Alvim, 1997, tradução de José Agostinho Baptista, p.85)

Luiz Pacheco



Soube-se ontem que morreu Luiz Pacheco e a esta altura a palavra maldito deve andar por todas as notícias (se é que há notícias sobre o assunto; ontem bem saltei de telejornal em telejornal, e nada. Terão reservado os primeiros dez minutos para falar do assunto?).
Para além de escritor, Pacheco assinou crítica e crónica, foi editor, na sua Contraponto, de gente tão essencial para as letras como Herberto Hélder, Mário Cesariny ou Natália Correia e, entre misérias e fugas para a frente, parece que viveu sem contemplações para com regras, convenções sociais e exigências do médico.

*A imagem é de André Carrilho, para a capa de Figuras, figurantes e figurões, da colecção Inéditos da Imprensa, do Independente.

05 janeiro 2008

Leituras

Sábado com chuva pede jornais e respectivos suplementos, mantas quentinhas e nehuma pressa.
A edição especial do Actual, da responsabilidade de Marco Martins, cineasta e editor convidado, Miguel Calado Lopes, o editor cessante do suplemento e Miguel Cadete, o novo editor, traz imagens de vinte e sete fotógrafos portugueses e uma série de comentários sobre o papel da crítica, assinados por escritores, arquitectos, encenadores, realizadores e outros pensadores. É uma edição para guardar depois de ler, claro, mas a leitura soube a pouco. O sábado perdeu, assim, a leitura habitual das críticas semanais e de algum eventual dossier, pelo que me socorro do Babelia para prolongar as leituras. Fernando Savater assina um texto sobre policiais e Amelia Castilla escreve sobre o livro Leer com Niños, de Santiago Alba Rico.

No ecrã, os ingleses. No The Guardian há um texto sobre a literatura e a memória, a propósito do livro Memory: An Anthology, da responsabilidade de Harriet Harvey Wood. E no The Telegraphleituras para os mais novos (se é que esta ideia de 'leituras para os mais novos' tem algum sentido, mas enfim...).

04 janeiro 2008

As palavras necessárias

Sobre o Olímpio, escreve o Jorge Silva Melo no P2 do Público. O texto chama-se "Olímpio Ferreira - Um homem que fazia livros".



03 janeiro 2008

Biblioteca sem livros

Diz-se que em Santiago de Compostela, terra de milagres e outros fenómenos inexplicáveis, inauguraram uma biblioteca sem livros.

02 janeiro 2008

Negócios editoriais



O Jornal de Letras traz hoje um dossier sobre a concentração editorial, vulgo, os negócios que têm movimentado o panorama das editoras portuguesas nos últimos tempos. Da leitura, muito útil para perceber o que se passa com tanta compra e venda, sublinham-se as palavras de José Afonso Furtado:

"Nada me garante que estas apostas, por mais bem intencionadas que sejam, por mais juras que haja de amor eterno, continuem o investimento, se as taxas de lucro baixarem. Há o perigo de em vez de esperarem uns anos para venderem a galinha gorda, fazerem-no logo que comece a definhar. A lógica é puramente financeira e não cultural."

"O consumidor, ao contrário do que pensa a associação que os defende, é tanto mais defendido quanto maior for a oferta e maior a mistura de oferta de qualidade com outra de menor qualidade, o que é característica de um mercado saudável. O que se verifica é uma enorme concentração a nível da distribuição e do retalho e isto que já é um problema vai ser agravado com os grupos editoriais, com grande capacidade de negociar com as livrarias; poderá sobrar muito pouco espaço para as pequenas e médias editoras, onde tradicionalmente se renova a edição. E isso é verdadeiramente assustador."

Recomeço

O ano acabou mal. Ninguém espera despedidas assim tão cedo e nem as memórias, muitas, e muito ricas, parecem servir de consolo a quem fica.
O mundo, claro, prossegue sem concessões. Caem bombas, constroem-se e destroem-se coisas, assinam-se compromissos que logo serão desrespeitados, aposta-se, acerta-se, perde-se, a órbita prossegue, mesmo que nós paremos o olhar nos outros sem percebermos muito bem como é que estamos todos ali, em tão pesado silêncio, se ainda há poucos anos estávamos à volta de uma mesa de copos, com o futuro e os projectos na palma da mão. E depois, que remédio, prosseguimos também.